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quarta-feira, 13 de março de 2013

Sindicalismo : Militantes & Milicianos

Participei de uma geração de sindicalistas que cresceu na esteira das lutas de retomada do movimento sindical que aconteceram no ABC paulista a partir de 1978. Lula foi o maior expoente desse momento, que logo depois desembocou na criação do PT e há 30 anos na fundação da CUT - Central Única dos Trabalhadores.

Era um movimento de militância acima de interesses pessoais, a princípio, que conquistou as massas para o enfrentamento à ditadura e para a busca das liberdades e direitos democráticos. Pessoas levaram a luta acima de tudo, arriscando empregos e as próprias vidas. Uma componente ética, moralizante, permeava o ambiente onde diversas correntes de pensamento e pessoas independentes disputavam espaços para defender suas idéias.

A CUT e o PT tiveram essa prática inclusiva, participativa e democrática até o início dos anos 90, quando as derrotas eleitorais de Lula e o ascenso de teses como a do "fim da história" entre parte da esquerda desviaram o foco classista (burguesia x trabalhadores) para uma "ética como valor universal", ingrediente que fermentou todo tipo de capitulação às idéias e assimilação de valores presentes nas instituições burguesas, inclusive as mais corruptas.

Enquanto os principais expoentes dessa geração ascendiam na política e arrastavam os melhores quadros como assessores e secretários, os sindicatos perdiam força pelo ambiente antissindical e neoliberal que se instalou nos períodos Collor e FHC, na recessão econômica que tirava o poder de barganha e pela perda desses principais quadros.

Começava o ascenso de uma nova geração onde já despontavam lideranças sem ideologia, gente de aparato em busca de estabilidade e carreiristas de todas as espécies. Não é à toa que coloquei no perfil do meu blog a frase "sindicalista do tempo que sindicato defendia os interesses dos trabalhadores" para buscar diferenciação para o que houve depois.

Criou-se um hiato entre os propósitos que criaram a CUT e o PT e o que está aí hoje. No caso do PT a degeneração foi mais sensível e aproveitada pela burguesia para destruí-lo, como no caso do Mensalão. No movimento sindical o peleguismo do tempo da ditadura perdeu muito espaço para o sindicalismo combativo dos anos 80 e início dos anos 90, mas a indigência ideológica e perda de quadros abriram espaços para práticas que se criticava no sindicalismo que foi suplantado.

O neopeleguismo ganhou força nos anos difíceis Collor / FHC, sem apresentar resultados concretos para os trabalhadores, mas mantendo a aparência combativa herdada da década anterior. As principais correntes ideológicas foram expulsas do PT e/ou partiram para criar novas centrais sindicais. Com a chegada de Lula ao governo veio a estratégia de controle do movimento social como diferencial em relação aos governos das elites, que buscou cooptar a CUT para essa missão.

O sindicalismo já carcomido nos seus propósitos de motor da luta de classes passou a ser visto por alguns como oportunidade de negócios fisiológicos com o governo. Em troca de amortecimento das lutas para evitar a desestabilização de Lula, cargos e outras vantagens passaram a fazer parte da barganha. Fora o acesso a bens e vantagens proporcionados pela estrutura sindical inacessíveis para muitos dos trabalhadores representados, como celulares, veículos, funcionários, viagens, hotéis caros, diárias e pro-labores, etc. Sem controle pela categoria, pode acontecer até a formação de caixa-dois para finalidades diversas.

O resultado disso é que as eleições sindicais passaram a ser alvo do gangsterismo. Verdadeiras milícias estão se formando a partir da degeneração mais profunda do movimento. Estatutos de sindicatos tornam-se letras mortas. Não se presta mais conta de nada, e os recursos pagos pelos trabalhadores financiam as reeleições das chapas no poder.

A representação virou negócio no qual os trabalhadores se tornaram moeda de troca para a obtenção de privilégios pessoais ou de grupos cujas características mais se parecem com a das milícias policiais cariocas. Os principais gangsters andam com "seguranças pessoais", e buscam dominar pelo terror as bases que deveriam representar.

Se alguém se levanta contra eles, pode perder o emprego porque usam dos canais de negociação com os patrões para persegui-los e demiti-los. E a violência pode se estender à intimidação pessoal. É comum nos eventos contratarem fotógrafos para registrar as lideranças opositoras como forma de intimidação. Nem mulheres escapam de espancamentos, quando criam as confusões.

Como controlam os meios de comunicação sindicais que chegam a toda a categoria, inventam suas versões sobre os fatos que criam para denegrir imagens, caluniar, desestimular adversários. A mentira mil vezes contada vira verdade, dificultando mais ainda o esforço de eleger alternativas aos sindicatos.

As eleições são totalmente controladas pelos dirigentes no poder, desde a eleição da comissão eleitoral à liberação de candidatos das demais chapas e acesso aos dados da categoria. Listas de votantes defasadas, desorganizadas e incompletas são passadas às vésperas da eleição aos opositores. Isso quando passam. Vencer esse esquema é uma tarefa hercúlea, quase impossível.

Mesmo que a cada campanha salarial os trabalhadores cada vez mais se convençam da traição de alguns sindicatos, o normal é a desfiliação. Perdas passadas são esquecidas, "ganhos reais" pífios sobre a inflação são vendidos pela mídia pelega  como grandes feitos, e a possibilidade de reversão vai se tornando remota. E tome festinha, carnaval, circo. Sem pão.

Agora mesmo tramita no Congresso Nacional uma proposta que poderá levar muito mais dinheiro para os sindicatos através do farsesco fim da contribuição (imposto) sindical. Pela proposta as assembléias, dominadas pelos pelegos que botam transportes para trazer seus apoiadores para votar, podem definir uma contribuição compulsória a todos (e não somente aos filiados) que poderá chegar (e vai, claro!) a 1% ao mês. Ou seja, 12% de um salário do trabalhador ao ano, o que equivale a 3 dias de trabalho. Hoje é descontado um dia de trabalho. Muito dinheiro que pode não ter nenhum controle nas mãos de gente inescrupulosa.

Sem prestação de contas, sob domínio crescente de milicianos, ainda com verniz de esquerda adquirido por outra geração no passado, o sindicalismo brasileiro corre o risco de reeditar Jimmy Hoffa, líder sindical mafioso norte-americano que construiu um império no século passado através do terror e da intimidação, que completaria 100 anos em 2013.

Recomendo ver o filme Hoffa, que foi estrelado por Jack Nicholson em 1992 e conta a trajetória do sindicalista (tem exageros melodramáticos, mas no que toca aos métodos de intimidação é bastante real), que desapareceu e seu corpo nunca foi encontrado. Ainda não chegamos a tanto, mas se os trabalhadores não se unirem para acabar com o embrião fascista e corrupto que está sendo gestado nas suas entidades, acabarão sendo escravizados por quem deveria representá-los.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Bancários : Greve enterrada pode iniciar "Primavera Sindical"

O peleguismo sindical no Brasil tomou novas formas desde a chegada de Lula ao poder. Sindicalistas ligados ao PT passaram a fazer dos sindicatos trincheiras contra os ataques da oposição ao governo e principalmente uma espécie de tropa de choque aliada, instrumentalizada para o controle social dos movimentos para dar ao governo "paz social" enquanto operava mudanças no país. Assim foi com a reforma da previdência, para a qual se mobilizou base aliada comprada, entrando no pantanal do mensalão e que culminou com a expulsão de muita gente boa do PT. 

A greve dos bancários, apesar do seu potencial de fogo, ano a ano vem reconquistando migalhas do que foi roubado no período FHC (reajustes zero), traduzida pelos líderes sindicais da CUT como "ganhos reais" de salário, mas que até agora não repuseram grande parte da perda anterior. Escondem essa perda para não demonstrar a incompetência do sindicalismo sem autonomia em relação aos governos Dilma e Lula, dos quais poderiam ter arrancado bem mais reajustes justo por serem governos ditos "dos trabalhadores".

Hoje estão sendo votadas propostas em assembléias manipuladas sem saber exatamente o que são. Para os funcionários do BB, até renúncia de direitos em ações trabalhistas relativos à extrapolação da jornada legal de seis horas podem acontecer em troca de algo que ainda será definido! Em todo o Brasil os relatos mostram a existência de um padrão de desmonte para a greve, com manipulações como separação de bancários, votações sucessivas até conseguir passar a proposta defendida pelos banqueiros, patrões e governo. Ninguém mais sabe onde começa um e termina o outro nesse enterro de greve. 

A última greve dos bancários foi mais um exemplo dessa falta de compromisso com suas bases. Assembléias engessadas, onde a voz dos que pensam diferente da "verdade única" dos dirigentes era cassada ou até modificada por truques eletrônicos. Pauta de reivindicações rebaixada, para não instigar movimentos maiores com prejuízos ao governo, em especial, que tem hoje no BB e CEF verdadeiras vacas leiteiras produtoras de superávit primário através dos seus lucros. Aumentar salário é reduzir lucros. Como tudo passa pelo referendum da mesa única da FENABAN, a greve foi geral até que uma proposta fosse praticamente assinada entre os banqueiros, governo e lideranças sindicais, para depois ser levada à aprovação pela base, sem cabimento de rejeição.

2012 pode ter sido o fim do mundo para um tipo de sindicalismo que se degenerou desde a revolucionária criação da CUT em 1983, que veio para acabar com o peleguismo tradicional e com o sindicalismo de aparelho estalinista. Acabou absorvendo essas culturas e hoje a geração de novos dirigentes perdeu o contato com a história e as suas bases, obtendo privilégios fisiológicos dos governos e encastelando-se na perspectiva de se aposentarem sem prestar muito serviço nas entidades. Tudo isso está muito claro nesta greve, onde a rebelião pelos meios virtuais já preocupa os pelegos. Se a organização de base, por fora das instituições, derrubou até ditaduras na chamada "primavera árabe", por que não termos em breve uma "primavera sindical", com a derrubada sistemática dessas direções traidoras?

 do BB até agora não sabem com transparência o que é a proposta de cláusulas sociais, como ficam os dias parados, a jornada de 6 horas, etc. Sindicatos dividem assembléias mesmo tendo cláusulas conjuntas da mesa da FENABAN para facilitar o desmonte. Dirigentes não se dispoem mais a continuar o movimento desde que fecharam o acordo por cima com os banqueiros, ferindo de morte as greves remanescentes. Tamanho volume de traição precisa de resposta: a "primavera sindical". 

Organizar em todo o país campanhas de filiação aos sindicatos, pegar os estatutos de cada entidade traidora, articular a nível nacional uma temporada de caça às entidades pelegas, organizar oposições de quaisquer matizes político-ideológicos e simplesmente acabar com o domínio do sindicalismo por pessoas e grupos que preferem a fidelidade ao governo e aos banqueiros. Chega disto! 

Vamos ver se agora as pessoa aprendem e não se alienam. Filiem-se aos sindicatos, nem um centavo de desconto assistencial e preparar chapas de oposição para derrubar os que dizem nos representar. Como pedras de dominós, os pelegos têm que sentir cada uma das entidades que aparelham cair, todo mundo voltar para a base, ver auditorias levantando os desmandos, etc. Democracia é assim : traiu o povo, perde o direito de representá-lo. Pode começar a temporada de caça aos pelegos pela retomada da organização sindical autônoma e independente, a partir dos ressentimentos de mais uma greve derrotada. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Direita lança o pior da pelegada nas eleições de 2012

Eleições 2012 : Partidos de direita buscam recursos para as campanhas
Quem trabalhou pela construção e afirmação da CUT como central classista hoje tem vergonha da assimilação do seu imenso poder  pelo governo federal. Os aguerridos dirigentes de outrora passaram a ser parte da base aliada do governo, e peça importante no controle social desde Lula e agora com Dilma. Os setores com maior potencial grevista hoje estão amordaçados. É o neo-peleguismo. Muitos dirigentes se candidatam a cargos eletivos e conseguem se eleger porque, apesar de tudo, as categorias ainda têm uma lembrança do passado de lutas que os credenciaram como capazes de defender interesses em outras esferas. Estamos falando de gente que já lutou, mas preferiu uma trégua em troca de algum tipo de fisiologismo.

Há sindicalistas e sindicalistas, entre eles os que continuam a lutar com entendimento de classe, querendo derrubar o capitalismo, mais à esquerda que a CUT agora "pacificada". À direita, há os "sindicalistas de resultado", como se intitulam os pelegos da Força Sindical, que aparentam combatividade enquanto praticam a subserviência aos patrões, e defendem o capitalismo. E há os que nunca lutaram, criaram sindicatos cartoriais, para comer o dinheiro da contribuição sindical, sem se preocupar em filiar ninguém ou de enfrentar o patronato, a não ser para barganhar propinas e outras vantagens em troca de assinar acordos rebaixados para os que deveriam representar. Esses são os parasitas da classe, que dominam as instâncias de base de muitos sindicatos sem expressão, e as instâncias do sistema confederativo que vem da CLT varguista. Alguns são inspirados no modelo mafioso que fez sucesso nos Estados Unidos, contando com capangas para defender seus feudos.

Aí vem a notícia do Estadão de hoje: "PSDB e PSD avançam em reduto petista e lançam 300 sindicalistas candidatos". A matéria fala que esses partidos vão querer conquistar espaços onde habitualmente o PT domina, no mundo sindical, lançando candidatos a vereadores, prefeitos e vices nas eleições de 2012. Para quem não conhece o "métier", como a direita que lê o jornalão, dá até para rolar uma champanhe, achando que agora o PT vai ser demolido pela base. Vão começar o ano esperançosos com a notícia, fazendo contas da ressurreição da força política da direita, que toda junta com mais uns aliados (PPS, PV, etc) não tem 20% do Congresso. Os mais exaltados gritarão a plenos pulmões : "agora vamos f*#$&dêêêeee o Petêêêeee" . A pergunta que não quer calar: quem serão esses "sindicalistas"? Os da esquerda e da CUT que têm estruturas partidárias militantes atuando nos movimentos sociais, uns com o discurso que atrai a vanguarda  e outros com a defesa dos programas governamentais com os quais se identificam?

Claro que tais candidatos não serão sindicalistas que ainda têm um verniz progressista. Os caciques da direita vão beber direto do esgoto, dando legenda ao que há de pior no parasitismo e na corrupção sindical. Alguns desses escroques poderão ter grandes campanhas através de dinheiro roubado dos trabalhadores, fazendo concorrência com tradicionais bandidos de direita que também se elegem pela compra de votos com dinheiro roubado de outras fontes. Como esse mercado está bastante concorrido, pode ficar engarrafado. Consideradas as qualidades das pessoas de ambos os lados dessa disputa, vai rolar tiroteio em convenção partidária por aí.