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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Grécia : Partido anti-capitalista vence as eleições

Nesta segunda-feira o mundo olha para a Grécia, que elegeu o Syriza, partido anti-capitalista, com ampla margem de votação, nas eleições gerais. Se foi voto de protesto, pouco importa. O povo grego disse em alto e bom som "não" ao saque aos direitos sociais, salários, às privatizações e tudo que a Troika (FMI, Banco Central Europeu, Comunidade Européia) vêm impondo desde a crise de 2008 para pagar dívidas a banqueiros e, em especial, à Alemanha.
Grécia elege o primeiro partido anti-capitalista da história européia - US Uncut
A principal promessa do Syriza é uma negociação soberana da dívida, o que não é novidade. A Islândia fez isso e ainda botou banqueiros na cadeia. A mensagem que a Grécia manda para o mundo é : o povo não pode pagar as dívidas feitas pela elite que não o representa. A sensação hoje dos gregos é de expropriação. Atingiram aposentadorias, empregos públicos, rebaixaram salários, pararam a economia para sangrar dinheiro e mandá-lo aos bancos.

O que vem agora é a incógnita. Tem banqueiro até citando Lula para acalmar os mercados, dizendo que no Brasil os contratos foram respeitados e o bicho não é tão feio quanto parece. O Merryl Linch considera Alexis Tsipras, provável novo primeiro-ministro, um "Lula grego". Alguns que já ganharam muito além do capital emprestado já se preparam para renegociação. 

Ao meu ver, a Grécia está mais para a Argentina que para o Brasil. Lula não renegociou dívidas: simplesmente as pagou, como Dilma vem fazendo, sem negociação soberana. Isso é o que assusta o banqueiro e pode servir de exemplo para os movimentos populares por aqui. Ir às ruas exigir que não se pague essa bola de neve onde os juros em muitos casos já superam o capital. 

A Grécia faz história e abre caminho para outros países peitarem a exploração capitalista. Na semana passada, em Davos (Suíça), o Banco Central Europeu anunciou alívio no arrocho imposto aos países soltando dinheiro para comprar dívidas públicas. A primeira-ministra alemã Angela Merkel, sempre irredutível nos planos de arrocho e com grande poder sobre a Troika, já admite afrouxar o aperto sobre a Grécia. 

Merkel teme pela desintegração da Zona do Euro, onde tem grande domínio, ao mesmo tempo que insinua que a Grécia deverá sair dela. Pelo mesmo rumo poderão embarcar a Espanha, onde o novo partido Podemos é favorito às eleições deste ano, além de Itália, Portugal e outros. Merkel conta com o apoio do povo alemão, que reelegeu seu partido no ano passado. Por muitos passa a versão propagandística de estarem sustentando os "vagabundos gregos" e que eles têm mais é que sofrer para pagar as dívidas. 

Mais sobre o assunto no post "Alemanha domina a Europa pelo capital?" que escrevi há 3 anos a partir de observações em viagem à Europa. Naquele mesmo ano de 2012 a Grécia assustou os banqueiros com a ameaça de uma moratória no pagamento de dívidas, que postei em "Europa: Grécia pode fugir da armadilha do Euro" Um artigo interessante feito por observador europeu está em Razoes para ter esperanca no Syriza.



quinta-feira, 27 de março de 2014

Obama chama Europa para Cruzada contra a Rússia

Ontem o presidente norte-americano Barack Obama discursou na Bélgica para uma platéia de representantes de países europeus relembrando as alianças entre os EUA e a Europa nas grandes guerras. Pelo método indutivo, disse mais ou menos o seguinte: estávamos juntos na 1a Guerra, de novo na 2a Guerra e... por que não na 3a Guerra Mundial?

Obama parecia vestir a camisa da OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte - instituição militar criada para combater o bloco comunista durante a guerra fria. Com o fim desta, o desmantelamento da Cortina de Ferro e da União Soviética, perdeu seu sentido. Ainda mais com a criação da Comunidade Européia, que abrandou os sonhos militares das potências continentais. Mas a OTAN ainda tem serventia: ser o elo de ligação entre EUA e Europa, e dar a Obama um assento nas discussões do continente.

Hoje Obama vai a Roma falar com o Papa Francisco. Parece seguir um script da era medieval, pedindo a bênção para sua futura Guerra Santa contra a Rússia. Logo pressionará os países do BRICS para tentar isolar a Rússia. Não quer a criação de um mercado comum suprimindo o dólar das transações. Até a FIFA estão pressionando para impedir a Rússia de participar da Copa no Brasil.

"A coisa realmente excitante é saber que você faz parte do
 grupo que trouxe paz para o Oriente Médio daqui para sempre"
Obama foi frontalmente atingido na sua "autoridade imperial" de chefe da única superpotência que sobrou da guerra fria porque Putin, primeiro-ministro russo, disse que "acabou o mundo unipolar". Soou como heresia esse desafio ao poder norte-americano. Para piorar, Putin passou a ser referência mundial contra a arrogância americana. Dentro e fora da Rússia.

Que poder? Com a economia carcomida pela crise, com os ataques dos republicanos aos poucos direitos sociais, sem recursos para atender às demandas dos estados, Obama busca resgatar popularidade e prestígio lançando-se a aventuras como a derrubada de governos

(Egito, Síria, Líbia, Ucrânia, Venezuela), e agora recriando o ambiente de guerra fria. Dá o ultimato ao mundo: ou está com a América, ou está contra ela. Isso não é novidade: George W Bush tentou o mesmo discurso na "guerra ao terrorismo" após o 11/9/2001.

O que Obama está por descobrir é que seus parceiros europeus já conquistaram o que queriam na Ucrânia e querem agora sair do jogo. Pouco importa a Criméia para eles, afinal, a grande derrotada com a incorporação à Rússia foi a OTAN e seu patrocinador, Obama. Queriam acabar com as bases navais russas em águas quentes (as demais congelam no inverno) e meter as mãos em mísseis e outros armamentos que poderiam ser redirecionados para a Rússia. Perderam.

Em menos de uma semana a Criméia passou a ser parte da Rússia, a Comunidade Européia conseguiu a capitulação da Ucrânia ao seu domínio, o FMI já está ditando as regras e Putin está garantindo suas tropas no novo território. Resta a Obama o anacronismo da guerra-fria. Pior: das cruzadas medievais. Até no Alasca já se fala em plebiscito para voltar à Rússia...

terça-feira, 11 de março de 2014

Ucrânia : O verão russo de Obama

Viena - Monumento aos soldados soviéticos pela libertação do nazismo
A estupidez do governo Obama de buscar no cenário externo realizações que tragam popularidade a qualquer preço está prometendo um custo muito alto. Ataca em várias frentes, sendo as de maior impacto junto ao tacanho eleitorado americano os enfrentamentos com inimigos do imperialismo, como o chavismo venezuelano, ou os antigos inimigos da guerra-fria, como a Rússia.

O front ucraniano prometia resultados rápidos. País falido, com imensa dívida, devendo até a conta do gás à Rússia (US$ 4 bi) e vivendo de favores destes, ouviu o canto da sereia da Comunidade Européia prometendo dinheiro em troca da alma, a exemplo de outros países do leste europeu. Candidato forte a ser uma nova Grécia, depois de saqueada por processos de privatização ou venda de toda atividade econômica estratégica.

 E os Estados Unidos esperando pela cereja do bolo: cravar a OTAN em território geopoliticamente ligado à Rússia. Botar mísseis e tropas na fronteira russa pela primeira vez. A partir da Ucrânia, trazer para o bloco do império americano, num dominó, as ex-repúblicas soviéticas do Cáspio e estabelecer um cinturão em volta da Rússia. O bônus seria tomar bases russas na Criméia sem disparar um tiro. Golpe de mestre. Popularidade para Obama semelhante à de quando capturou Bin Laden.

Foi então que o presidente ucraniano refugou da proposta da Comunidade Européia e resolveu aceitar ficar do lado russo. A Comunidade Européia vacilou a ponto da secretária de estado norte-americana xingá-los, como foi mostrado numa ligação grampeada falando com os diplomatas americanos na Ucrânia. Resolveram agir e fomentar a "revolta popular": patrocinaram grupos neonazistas para cercar o palácio presidencial, tocar fogo em prédios públicos e principalmente criar mortos e atribuí-los ao governo ucraniano. A CIA tem gente com larga experiência nisso para dar suporte.

Até derrubar o governo eleito foi uma moleza. Botar os fascistas no poder, tranquilo. Só se esqueceram de algumas coisas essenciais nas quais os americanos são muito ruins: história e geografia. Parecem desconhecer que Kiev, capital ucraniana, é considerada "berço da civilização russa", ou seja, há uma forte ligação histórica e cultural russa com a Ucrânia. Aí vai o governo ilegítimo e torna a língua russa secundária, revoltando a imensa colônia russa e dos seus descendentes no país. Outro grande erro foi pensar que o neo-tzar Putin iria ficar só olhando essa festa sem fazer nada. E fez: tomou a Criméia sem disparar um tiro, e montou o processo político para a anexação dessa república autônoma à Rússia, com plebiscito e tudo.

Obama então falou que isso seria ilegal, de acordo com leis internacionais. Mas promoveu um plebiscito em Porto Rico, território invadido pelos americanos no fim do século XIX. E não pode muito falar em respeito internacional, porque seu governo vem matando muita gente com drones assassinos, sem respeitar fronteiras ou governos. Tem grampeado comunicações em massa e de lideranças até aliadas por todo o mundo. Promove rebeliões e derrubadas de governos sem perguntar nada a ninguém. Bola nas costas.

Bratislava (Eslováquia) - Panteão dos soldado soviéticos da 2a guerra mundial
O novo governo ucraniano dá poder aos neonazistas do partido Svoboda, que já vinha promovendo ações anti-semitas pelo país, causando a saída de uma grande parte de judeus e perseguindo ciganos. Ficaram à vontade a ponto de espalhar símbolos neonazistas até em prédios públicos. Gradualmente, os aliados americanos na Europa começam a ter reticências sobre o governo imposto, pelo risco do movimento nazista ter como base um país grande na Europa para espalhar, via comunidade européia, suas práticas e idéias em todo o bloco.

O desastre não seria ainda bastante se o vice de Obama, John Kerry, não tivesse feito ameaças ao governo russo em caso de intervenção militar. Putin simplesmente disse que haveria também retaliações. Para bons entendedores, isso significa: "vou mandar fechar o registro do gás, e a Europa vai mergulhar na Idade Média sem grande parte da sua energia. ". Obama recuou e mudou de assunto, porque sentiu que sua alternativa seria começar uma guerra de grande porte na região, o que não interessa a ninguém.

Mais um desastre norte-americano foi promover o autoritário Putin perante os russos. Ucrânia significa berço. Nazismo significa genocídio russo, pois mais de 36 milhões de soviéticos, em grande maioria russos, foram trucidados pelo regime de Hitler. Não há uma só capital no Leste Europeu sem um monumento à bravura dos soldados soviéticos contra o nazismo, vistos então como libertadores. E, do nada, os Estados Unidos dão a Putin, que estava desgastado, a oportunidade de dar a volta por cima.

Moral da estória: já dividiram a Ucrãnia, com a saída de fato da Criméia, e correm o risco de ter os russos invadindo o resto da Ucrânia em nome do combate ao nazismo. E qualquer retaliação ocidental teria grande impacto em toda a Europa. Se a idéia de Obama é deixar os Estados Unidos fora do teatro de guerra e ver a Europa se arrebentar, está bem perto disso. No mais, Obama pode estar se alinhando a Napoleão e Hitler, que perderam guerras depois de chegar muito perto de Moscou por causa do inverno rigoroso. A diferença é que Obama, o Prêmio Nobel da Paz (lembram-se disso?), pode perder em pleno verão.