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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Greves da Copa : O "Efeito Gari" é uma fórmula de sucesso?

Hoje os motoristas do Rio retornaram ao trabalho e às 16h haverá nova assembléia para definir os rumos do movimento. Na paralisação de ontem, liderada por sindicalistas de oposição à diretoria do sindicato com o apoio de outros sindicatos (petroleiros, comerciários de Nova Iguaçu, Conlutas), apesar da eficácia do movimento, houve reações bem diferentes das que ocorreram durante a greve dos garis em março de 2014.

Para entender melhor, a greve dos garis foi feita pela base do sindicato, atropelando a diretoria pelega que fez acordo rebaixado não aceito por boa parte da base. O movimento foi espontâneo, não teve quase nenhum apoio de outras categorias, foi duramente criticado pela mídia por acontecer durante o Carnaval, parecia fadado ao fracasso, mas se impôs e fez o prefeito Eduardo Paes, patrão da Comlurb, acatar o reajuste de 40% nos salários. Chamo de "Efeito Gari" ao movimento que passa por cima de pelegos sindicais arregados pelos patrões e obtém conquistas maiores que as institucionalmente conseguidas, fazendo greve pela base.

Como o dinheiro para pagar a nova despesa assumida vem dos contribuintes e não do bolso do prefeito, e havia o risco de emergência sanitária, ficou mais fácil arrancar essa grande conquista. Pouco importou se a greve aconteceu no Carnaval, afinal, foi resultado de rejeição a um acordo feito dias antes. E se não houve apoio explícito da população, como foi o caso da greve dos bombeiros há poucos anos, a sociedade chegou a apoiar o movimento ou pelo menos ficou inerte, sem oposição.

Ontem o jogo foi diferente. O sindicato pelego teve apoio de mídia para "denunciar" infiltração política (o lider do movimento é filiado ao PEN), que havia gente armada forçando os motoristas a parar os ônibus, que havia gente estranha ao movimento quebrando vidros de ônibus, e que o acordo feito há meses de 10% de reajuste era aceito pela maioria da categoria.

O prefeito Eduardo Paes lavou as mãos, disse que era um problema entre os motoristas e o sindicato patronal. Este, por sua vez, disse que o acordo assinado era válido e que não negociaria mais nada. Na população o impacto da greve não anunciada foi de perplexidade e de revolta, instigada pela mídia que só mostrava imagens e entrevistas de pessoas reclamando do movimento, reclamando dos altos gastos com transportes alternativos e a perda do dia de trabalho. A conta da greve foi mandada para o bolso do trabalhador em geral pela mídia. A Folha diz que todos foram vítimas de um racha entre sindicalistas.

O movimento quer 20% de reajuste e o fim da dupla jornada nos ônibus de menor porte, onde o motorista também é cobrador, um absurdo que submete a todos a riscos porque os dois trabalhos são feitos, às vezes, com o veículo em movimento. Isso e mais a cobrança de multas são questões que trazem os motoristas a apoiar o movimento, que foi forte ontem e, ao meu ver, deveria ter sido ampliado hoje para forçar a abertura de canais de negociação. Com a suspensão, haverá tempo para os patrões intimidarem os trabalhadores e para a mídia trabalhar a opinião pública contra a greve. Pode acontecer a reação que houve ontem em Florianópolis, quando usuários entraram em confronto com motoristas em paralisação-surpresa.

Há que se considerar que em greves de motoristas os patrões tentam mandar a conta para o reajuste de tarifas. Neste ano no Rio já houve aumentos acima da inflação, que teriam sido motivo de grandes protestos se não fosse a morte acidental do cinegrafista no protesto na Central do Brasil, causando refluxo nas ações violentas. O prefeito, salvo pressão irresistível, não cederá. O reajuste terá que sair dos lucros dos proprietários das linhas de ônibus. Aí o "Efeito-Gari" não funcionará, porque os patrões, jogando em casa com o apoio dos pelegos do sindicato, endurecerá sua posição e buscará o esvaziamento do movimento através da opinião pública e da repressão.

Várias categorias já se alinham para tentar o "Efeito Gari" no período da Copa. A Polícia Federal pode até conseguir ameaçar, mas a segurança poderá contar, na falta dela, com as forças armadas e empresas de segurança particulares ou terceirizações, por exemplo, de serviços de imigração nos aeroportos, e mesmo reforçar o lobby de empresas estrangeiras interessadas em faturar por aqui na Copa.

Os professores também fazem suas apostas, mas o cacife é mais baixo, porque educação nunca foi levada a sério pelos governos, e não será na Copa que haverá sensibilidade. Idem para os profissionais de saúde do sistema público. Pela lógica, quem gastou o dinheiro da saúde e educação com estádios não estará nem um pouco preocupado com a paralisação dos servidores.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Salário mínimo de Lula e Dilma leva categorias à luta

A gente só vê aquela categoria de palpiteiros que alguns apelidaram de "economistas de bancos", às vezes nem economistas, nem de bancos, dizendo que tem que parar de elevar o salário mínimo acima da inflação. Aliás, dependendo da escola do "economista", nem salário mínimo eles querem. Primeiro disseram que haveria desemprego em massa de empregados domésticos. Depois que iria quebrar a previdência. Nem uma coisa, nem outra.

O que não disseram é que um fenômeno positivo está acontecendo silenciosamente: o efeito catalisador do salário mínimo em crescimento real está desequilibrando os salários relativos e levando as pessoas à luta por melhores salários. Vejamos alguns casos:

- João recebia em 2003 uma aposentadoria de 1 salário mínimo. José recebia 1,5 SM. João começou a ver o poder de compra crescer lentamente. José começou a perceber que o salário de João se aproximava do seu, e que já não ganhava mais 1,5 SM porque seu reajuste era apenas pela inflação, sem ganhos reais. Por volta de 2010, com o aumento real tendo alcançado 50% os salários de João e José ficaram iguais. A partir daí ambos passaram a ter reajustes acima da inflação, melhorando a situação de José. Pedro, que ganhava 2 SM, em breve terá seu salário igualado aos de João e José, pois o ganho real está chegando a 100% sobre 2003. João era gari na ativa, José era vigiae Pedro era professor. Pedro está revoltado porque agora ganha igual ao gari aposentado.

- Maria é empregada doméstica e sempre ganhou salário mínimo. Seu marido Antônio é gari e ganhava mais de um salário mínimo porque trabalhava numa empresa pública, com sindicato, piso salarial, reajustes todo ano um pouco acima da inflação ou igual a ela. O salário de Maria avançou mais rápido que o de Antônio porque o salário mínimo cresceu bem mais que o incremento salarial dele. Antônio também viu o salário mínimo chegar perto do seu salário, até que num certo dia o alcançou. E não aceita ganhar "igual a uma empregada". Ganhando pouco mais que ele estava Carlos, policial militar. Aline, comissária de bordo, mais acima. Silvia, professora, num nível maior. Antenor, bancário, também começou a ver o salário mínimo se aproximando do seu. Antônio, o gari, teve seu salário "afogado" pelo veloz SM. Fez greve e seu salário subiu 37% sobre o mínimo, acima do salário de Carlos, que logo ganhará o salário minimo, sem ter perdido nada. Aline, um pouco mais adiante, sente a chegada e acha um absurdo ganhar igual a um gari. Silvia, que sempre achou que professor deveria ganhar bem mais, diz que sempre ganhou "x" vezes mais o que um gari e agora está bem perto. Antenor, o bancário, começa a se sentir desvalorizado, afinal, não considera justo um bancário ganhar menos de "n" vezes o que um gari ou policial ganha.

Esses dois casos mostram como trabalhadores sem perder nada em relação à inflação podem estar revoltados porque os seus proventos, em número de salários mínimos, está cada vez mais reduzindo. Lula e Dilma fizeram a sua  parte elevando o piso mínimo salarial de todos os trabalhadores. Agora é cada categoria buscar elevar, com greves e negociações, a quantidade de salários mínimos que consideram justo ganhar, ou logo será mais difícil a patronal preencher certas vagas. É por isso também que os "economistas de banco" chiam muito quando atingimos os menores índices de desemprego da história. Para eles tem que haver uma boa quantidade de desempregados para forçar a baixa dos salários.