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domingo, 17 de novembro de 2013

FANOAPÁ 0050 : "Obrigado Joaquim Barbosa"... pelo quê mesmo?

Fiquei fora do ar por 3 dias sem internet nem TV. Voltando ao mundo, encontro as repercussões do tal "mensalão do PT". A primeira foi uma imagem do presidente do STF, Joaquim Barbosa, onde se agradece por haver "honrado o dia da República". Em seguida liguei a TV e vi o jornalista da Globo Merval Pereira pouco à vontade dizer que Genoíno tem razão ao pedir prisão domiciliar por razões médicas. Que José Dirceu tem direito a fazer cumprir de imediato sua sentença de regime semi-aberto. Que Pizzolato tem base jurídica para não ser julgado na Itália pela sua dupla cidadania. E abro o jornal vendo a coluna da jornalista Dora Kramer (artigoTampa da Panela) onde afirma que o julgamento não interessa eleitoralmente a Dilma... nem a Aécio Neves, pois em 2014 o mensalão tucano estará na pauta política!


Afinal, entre mortos e feridos, qual o saldo do Mensalão? O primeiro, a favor da democracia, foi a sociedade questionar o STF e por tabela a justiça e os juízes, acabando com a aura de superioridade ética e intocabilidade que tacitamente gozavam. O segundo foi a exposição da mídia como "parte interessada", propondo campanha de linchamento, dando ao julgamento ares de político e de exceção, o que está sendo agora explorado pelos condenados que são do PT. Em terceiro, e que talvez tire o sossego de Dora e Merval, militantes pró-tucanos, é que o resultado pode ser um bumerangue para os interesses que defendem.

O PT foi atingido? Desmoralizado? Vai perder votos? Creio que não como gostariam seus inimigos com mais noção de conjuntura. Em pleno escândalo, mesmo com a campanha partidária da mídia, Lula se reelegeu e fez sua sucessora que tem grandes chances de se reeleger. O PT ganhou a cidade de São Paulo e cresceu bancadas. Seus "presos políticos" não foram tão punidos como pretendiam os algozes. Genoíno pode vir a cumprir pena livre de dia e em casa à noite. Dirceu pode vir a cumprir a pena em regime aberto, ou seja, vida normal com alguns compromissos de apresentação à justiça, por falta de vagas para o execução de sua pena em regime semi-aberto. Delúbio Soares vai pelo mesmo rumo. E o único que iria para a cadeia, mesmo com o argumento forçado do "dinheiro público" da empresa privada Visanet, Henrique Pizolatto, se mandou para a Itália onde deverá que passar seus últimos dias no exílio.

Em cana mesmo estão os condenados do núcleo central do Mensalão, como Marcos Valério. Que poderão vir a cumprir penas maiores, dependendo dos desdobramentos da nova caixa de Pandora que se abre: o julgamento da mãe de todos os mensalões, o dos tucanos mineiros. Que agora será cobrado por mais de 1 milhão de petistas e outros indignados com a farsa, já que o ânimo do judiciário não parece o mesmo aplicado contra o PT e se faz corpo mole para que prescreva a ação. Milhões enxergam, ao contrário de Têmis, deusa grega da Justiça, que o judiciário e a mídia atuam ideologicamente a favor de um grupo em detrimento de outro.

Para a população que se encheu de ódio ao PT pela campanha midiática diuturna do Mensalão, o caso está encerrado com a aparente punição dos responsáveis. Uns poucos vão dizer que falta prender Lula, possivelmente por considerarem criminoso um homem nordestino pobre ter chegado à presidência e ter iniciado o melhor ciclo de promoção da justiça social da história. Para eles, Lula é "o chefe da quadrilha".

Enquanto a massa da direita comemora ou quer mais, a mídia parece ter pisado no freio. Com a campanha petista pelo julgamento dos mensaleiros do PSDB, com o escândalo dos trens em São Paulo mostrando cada vez mais o partidarismo da justiça e da mídia, a impunidade do mensalão do DEM em Brasília, a corrupção na prefeitura paulista e outros casos que agora pularão para a luz dos holofotes, ficar pedindo punições mais severas será danoso a Eduardo Azeredo (ex-governador mineiro) e outros que fizeram campanha ou se apropriaram, comprovadamente, de dinheiro público.

Pelo desfecho do caso Mensalão, um analista de verniz maquiavélico diria que Dilma mandou Janot (ela não manda em tudo?), Procurador Geral da República, acelerar as prisões, para não contaminar o clima de 2014. Mais: sabiamente para botar na berlinda o PSDB e o DEM. Mais  ainda: para unificar o PT em torno dos seus "mártires", resgatando suas biografias de luta, fazendo circular o sangue circular nas veias do militante comum, que estava adormecido por discordâncias, voltando a ser "mil e tantos". Coincidentemente as condenações vieram na semana logo após o Processo de Eleições Diretas do PT (PED), que energizou os filiados do partido em discussões políticas. Merval e Dora podem ser parciais, mas são muito inteligentes e somatizaram essas preocupações em suas análises.

Obrigado, Joaquim Barbosa! Pelo quê mesmo? É a tal da Falta de Noção que Assola o País fazendo suas vítimas, que devem estar até agora embriagadas por um julgamento parcial, mesmo sem imagens de petistas algemados no camburão. Não têm capacidade de entender que o Mensalão virou um bumerangue para os que pretendiam criar um fato político capaz de enterrar o PT. Também escapou aos "vitoriosos" que o tribunal, onde os juízes foram nomeados por Dilma e Lula em sua maioria, julgou "republicanamente" contra os interesses dos que os nomearam, e que essa pizza mal cozida pode ser considerada satisfatoriamente como "justiça". Acabou o "Mensalão do PT", com os prejuízos há muito precificados politicamente, e a fila agora tem que andar. É a tal da "vitória de Pirro"

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Direção do PT manda militantes defender mensaleiros

Cada vez mais se confirma o pior cenário que descrevi num outro post, "Pós-PT : O que fazer com o seu legado positivo". A direção nacional do PT, majoritariamente ligada ao grupo que está sendo julgado pelo Mensalão, lutará até o fim para defender seu líder José Dirceu, e não haverá qualquer tipo de autocrítica ou avaliação ética interna caso todos venham a ser condenados. Ninguém será punido pelo partido, essa é a vontade deles, a não ser que, numa remota possibilidade, as oposições internas venham a ganhar as próximas eleições internas.

Para dar mais ênfase à defesa aos que, no mínimo, praticaram o crime de "caixa dois" e meteram a mão no dinheiro de propaganda da Visanet, a Direção Nacional, numa nota que deveria ser para motivar a campanha na reta final, parece só tê-la feito com o sentido de pedir a defesa de Lula e das lideranças mensaleiras contra mentiras, etc. Sabem da onda que vem por aí de ataques ao PT a cada nova audiência do STF. Há uma sincronia entre o julgamento e as campanhas da direita, e vão deixar para o segundo turno a condenação de José Dirceu e da alta cúpula do PT, seguida de um amplo ataque da direita. Segue a nota.

Eleições 2012 - Comissão esteve reunida na segunda-feira (17), em São Paulo

A Comissão Executiva Nacional do PT, reunida no dia 17 de setembro, avaliou a conjuntura internacional e nacional, em especial a situação eleitoral, aprovando ao final a seguinte nota:
1.O PT apóia as medidas adotadas pela presidenta Dilma e pelo governo brasileiro, em defesa da economia popular e dos interesses nacionais. Estas medidas –entre as quais se destaca a redução da taxa de juros e das tarifas de energia elétrica— já se demonstraram essenciais para proteger o Brasil dos impactos da crise internacional, que continua se agravando.
2.A vitória do PT nas eleições municipais de 2012 deve ser vista nesta mesma perspectiva: trata-se de fortalecer nosso projeto nacional, de um Brasil soberano, politicamente democrático e socialmente justo.
3.Tendo isto em vista, a Comissão Executiva Nacional do PT convoca a militância petista, nossos filiados e filiadas, nossos simpatizantes e eleitores, nossos parlamentares e governantes, para uma batalha do tamanho do Brasil: em cada cidade, pequena, média ou grande, trata-se de obter grandes votações, elegendo vereadores e vereadoras, prefeitos e prefeitas. E fazendo a defesa de nosso Partido, do ex Presidente Lula, de nossos mandatos e lideranças, bem como do legado dos nossos governos,  que melhoraram as condições de vida e fortaleceram a dignidade do povo brasileiro.
4.A mobilização geral de nossa força militante é a condição fundamental para nosso sucesso nos dias 7 e 28 de outubro. Pois é a militância consciente quem desfaz as mentiras, demarca o campo, afirma nosso projeto, reúne nossas bases e alianças, construindo vitórias não apenas eleitorais mas também políticas.
5.Em cada bairro, em cada escola, em cada empresa, em cada movimento social, nas redes sociais, a militância petista - com nossa estrela e bandeiras - está chamada a mais uma vez cumprir seu papel histórico, de arquiteta e alicerce das grandes mudanças no Brasil.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

PT na lama : O verdadeiro crime de José Dirceu

Recebi um e-mail (abaixo) de um tal #RedePT13 falando em nome da "militância petista" e de união para um julgamento justo para o mensalão, sem influências políticas ou midiáticas. O mesmo texto que pede por justiça já julga, propondo usar a tag #farsadomensalão, afirmando o discurso mais recente da inexistência do escândalo que envolveu a alta cúpula do PT em 2005.

Na época da eclosão do episódio chamado de Mensalão, Lula se disse traído e que não sabia de nada, validando a existência de algo ilícito e tirando o seu da reta. Hoje Lula faz o discurso do "nunca houve mensalão". O dinheiro na cueca do assessor do irmão do então presidente do PT, José Genoíno, nunca existiu? Dizer cinicamente que "não houve mensalão, houve "só" um caixa dois" é abusar da memória e da inteligência das pessoas.

Não importa a forma do que aconteceu. Se foi pagamento mensal, se foi pagamento de dívida, se foi apoio a candidaturas através do dinheiro do esquema do Valerioduto, se o mesmo esquema foi usado pelos tucanos em Minas, nada disso importa, diante do verdadeiro crime cometido por José Dirceu & cia: jogaram o nome do PT na lama, na vala comum do noticiário policial onde antes só se via os partidos de direita.

A partir do Mensalão, o PT, que já vinha se descaracterizando e se degenerando na estratégia de eleger Lula a qualquer preço, recebeu um golpe mortal naquilo que tinha de mais sagrado no discurso e na prática: sua bagagem moral e ética. Até Dirceu e seu grupo ganharem a hegemonia interna no PT, não se admitia que qualquer um fosse filiado, que qualquer aliança fosse feita com sentido eleitoreiro, e não se fazia aquilo que se criticava na direita.

Essa turma perdeu a noção do que era o PT e acabou se enrolando nesse embróglio, que pode não condenar ninguém, mas lembra que o partido foi derrotado de dentro para fora. A militância foi traída e não julgou os que degeneraram o partido porque a democracia interna foi solapada por eles. Muita gente largou o partido e não foi para lugar nenhum, deprimida e decepcionada com um sonho que, infelizmente, virou um pesadelo com o crime histórico de Dirceu e sua galera.

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Militância petista se une e pede julgamento justo para o mensalão



Companheir@s,

O STF julgará nos próximos dias a Ação Penal 470 – chamada pela mídia de mensalão. Nós, integrantes do Partido dos Trabalhadores, esperamos que haja um julgamento justo, sem influências políticas ou midiáticas.

Para mostrar a verdade dos fatos e esclarecer a população contamos com sua ajuda.

Juntos, teremos mais força para pedir um julgamento justo. Se você se identifica com as nossas causas e conhece nossa luta, junte-se a nós e participe dos debates PARA QUE A JUSTIÇA SEJA FEITA.

Nas Redes Sociais vamos usar a tag #farsadomensalão e #STF_oficial, vamos mostrar nossa força na internet.

Para informar a população, o presidente do PT, Rui Falcão, gravou um vídeo exclusivo sobre o tema. http://youtu.be/lrUJOIoKiiE

Abraços.

RedePT13

domingo, 15 de janeiro de 2012

HOAX : Manipulação da entrevista de Ildo Sauer

Recebi nos últimos dias 4 e-mails com um texto de uma entrevista do Eng. Ildo Sauer, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, ex-diretor da Petrobrás, publicada na Revista da Associação dos Docentes de USP (ADUSP), onde se destaca e extrai do contexto a parte onde acusa o ex-ministro José Dirceu, Lula e Dilma como entreguistas do petróleo do pré-sal ao empresário Eike Batista. Na apresentação de Sauer, os autores do e-mail omitem que ele foi um dos mentores do programa energético do PT.

Resolvi checar o documento na origem, já que o tal e-mail, como sempre acontece nos casos de "hoax" (mentiras que circulam na internet), é apócrifo e enxertado de considerações e conclusões do autor misturadas ao original para fortalecer a crítica de oposição, acreditando que o leitor não buscará ver o texto no qual foi baseado . Abri o texto da revista número 51 da ADUSP, de outubro de 2011 cujo título é "O ato mais entreguista da história foi o leilão de petróleo para o Eike".

Muito interessante para ser lido na íntegra, mesmo sendo longo, porque Ildo Sauer transitou desde o programa nuclear ao petróleo, passando por diversos setores do mundo da energia. E porque suas críticas não são de nenhum tucano ou demo, mas de alguém que abraçou o projeto do PT e se viu decepcionado com os governos de Lula e Dilma no tocante à política energética. Mais especialmente com os leilões de exploração de petróleo, que desde antes do pré-sal já eram combatidos por setores ligados ao PT interessados em manter sob controle do povo brasileiro toda essa riqueza.

Para ser mais exato, que o PT combatia já no entreguismo de FHC, mas que continuou com Lula. Não chegou a ser loteado o pré-sal, mas lotes em volta da imensa reserva foram licitados, vencendo a empresa OGX de Eike Batista, que segundo Ildo Sauer foi montada a partir do recrutamento de profissionais detendo conhecimentos estratégicos da Petrobrás, contando com o apoio de dois ex-ministros de FHC (Pedro Malan e Rodolfo Tourinho) e do ex-ministro da Casa Civil de Lula, José Dirceu.

Na matéria há a contestação de José Dirceu, que diz não ter participado da consultoria à empresa, e da OGX, que diz ter participado legalmente das licitações e ter pago as maiores quantias pelos lotes. O próprio blog do José Dirceu, em dezembro de 2008, publicou uma outra entrevista com Ildo Sauer onde faz a defesa de um novo modelo energético para o Brasil. Clique aqui para ver essa matéria.

Quem elaborou o e-mail, que considero um meio-hoax por manipulação e extração do contexto, não se preocupou em mostrar aos leitores que Ildo Sauer também defendeu na mesma matéria a construção de Belo Monte sob aspectos técnicos e econômicos, criticando a falta de discussão com a sociedade, e a estatização dos fundos de pensão como forma de re-estatizar a Vale e aumentar a participação estatal o setor petrolífero. E ataca, na maior parte da matéria, políticas do governo FHC que redundaram num perverso modelo para o setor energético que não foi modificado por Lula nem por Dilma.

A crítica é dura, com a qual concordo no atacado, embora discorde no varejo de vários aspectos da entrevista. O texto manipulado não é dos melhores. Esqueceu de destacar um trecho da entrevista onde Sauer diz “Mandei oito cartas ao governo criticando a política do setor elétrico, não tinha eco. Porque o
Lula gostava de acreditar no que a Dilma fazia. A Dilma praticava estratégia de assédio moral contra os
subordinados, impunha uma estratégia de ataque, de grosseria. Por isso virou candidata dele".

Dilma e Lula que se defendam. FHC também. Segue abaixo o texto manipulado do meio-hoax:

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Ildo Sauer denuncia como José Dirceu entregou o Pré-Sal para Eike Batista.


Aqui está parte da importantíssima entrevista do professor Ildo Sauer, diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, concedida a Pedro Estevam da Rocha Pomar e Thaís Carrança, da revista da Associação dos Docentes da USP (Adusp).

Considerado um dos maiores especialistas em energia do país, ex-diretor da Petrobras no primeiro governo Lula, Sr. Ildo Sauer conta como foi descoberto o Pré-Sal e denuncia o lobby feito por José Dirceu para entregar a Eike Batista a maior parte das reservas.

--Revista Adusp: Você ainda estava na Petrobras, quando o Pré-Sal foi descoberto?
--Ildo Sauer - Eu ajudei a tomar essa decisão. Nós tomamos essa decisão, não sabíamos quanto ia custar. O poço de Tupi custou US$ 264 milhões, para furar os 3 km de sal e descobrir que tinha petróleo. O Lula foi avisado em 2006 e a Dilma também, de que agora um novo modelo geológico havia sido descoberto, cuja dimensão era gigantesca, não se sabia quanto. Então, obviamente, do ponto de vista político, naquele momento a nossa posição, de muitos diretores da Petrobras, principalmente eu e Gabrielli, que tínhamos mais afinidade política com a proposta do PT de antigamente, a abandonada, achávamos que tinha que parar com todo e qualquer leilão, como aliás foi promessa de campanha do Lula.
Na transição, ainda a Dilma falou, “não vai ter mais leilão”.
Mas se subjugaram às grandes pressões e mantiveram os leilões.
Fernando Henrique fez quatro, Lula fez cinco.
Lula entregou mais áreas e mais campos para a iniciativa privada do petróleo do que Fernando Henrique.
Um ex-ministro do governo Lula e dois do governo FHC foram assessorar Eike Batista. O que caberia a um governo que primasse por dignidade? Cancelar o leilão. Por que não foi feito? Porque tanto Lula, quanto Dilma, quanto os ex-ministros, estavam nessa empreitada.
--Revista Adusp:

Mas Gabrielli era contra e acabou concordando?

--Ildo Sauer - Não. A Petrobras não manda nisso, a Petrobras é vítima, ela não era ouvida.
Quem executa isso é a ANP-Agência Nacional do Petróleo, comandada pelo PCdoB, e a mão de ferro na ANP era da Casa Civil. Então a voz da política energética era a voz da Dilma, ela é que impôs essa privatização na energia elétrica e no petróleo.

Depois do petróleo já confirmado em 2006, a ANP criou um edital pelo qual a Petrobras tinha limitado acesso. Podia ter no máximo 30% ou 40% dos blocos, necessários para criar concorrência. Porque, em 2006, Tupi já havia sido furado e comunicado. O segundo poço de Tupi, para ver a dimensão, foi feito mais adiante, esse ficou pronto em 2007. Só que o Lula e a Dilma foram avisados pelo Gabrielli em 2006.
Muitos movimentos sociais foram a Brasília, nós falávamos com os parlamentares, os sindicatos foram protestar. O Clube de Engenharia, que é a voz dos engenheiros, mandou uma carta ao Lula, em 2007, pedindo para nunca mais fazer leilão.
Em 2005-6, o Rodolfo Landim, o queridinho do Lula e da Dilma, saiu da Petrobras. Porque o consultor da OGX, do grupo X, do senhor Eike Batista, era o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu,
e ele sugeriu então que Eike entrasse no petróleo. Aí ele contratou o Landim, que começou a arquitetar. Como o centro nevrálgico da estratégia da Petrobras é a gerência executiva de exploração, o geólogo Paulo Mendonça, nascido em Portugal, formado aqui na USP, e o Landim, articularam para em 2007 criar uma empresa nova, a partir dos técnicos da Petrobras. E o senhor Eike Batista queimou alguns milhões de dólares para assinar os contratos e dar as luvas desses novos cargos, que estavam dentro da Petrobras mas, desde que o Landim foi trabalhar com o senhor Batista, ele já estava lá para arrancar de dentro da Petrobras esses técnicos.
Aí chegou o fim de 2007, todos nós pressionando para não ter mais leilão, o Lula tira 41 blocos…
Mas vamos voltar a 2006. Em 2006, quem anulou o leilão foi a Justiça, por discriminação contra a Petrobras fazer essas coisas. Ouvi isso da Jô Moraes, num debate na Câmara dos Deputados.
Só que aí se criou o seguinte imbróglio: um ex-ministro do governo Lula e dois do governo Fernando Henrique, Pedro Malan e Rodolpho Tourinho, foram assessorar o Eike Batista. Ele já tinha gasto um monte para criar sua empresa de petróleo. Se o leilão fosse suspenso, ele ia ficar sem nada, e já tinha aliciado toda a equipe de exploração e produção da Petrobras.

O que caberia a um governo que primasse por um mínimo de dignidade para preservar o interesse público?
Cancelar o leilão e processar esses caras que saíram da Petrobras com segredos estratégicos. Por que não foi feito?
Porque tanto Lula, quanto Dilma, quanto os ex-ministros, os dois do governo anterior e um do governo Lula, estavam nessa empreitada.
--Revista Adusp: Quem era o ex-ministro?
--Ildo Sauer - O ex-chefe da Casa Civil, antecessor de Dilma.
--Revista Adusp: José Dirceu?
--Ildo Sauer - É, ele foi assessor do Eike Batista, consultor. Para ele, não era do governo, ele pegou contrato de consultoria, para dar assistência nas negociações com a Bolívia, com a Venezuela e aqui dentro. Ele, Dirceu, me disse que fez isso. Do ponto de vista legal, nenhuma recriminação contra ele, digamos assim. Eu tenho recriminação contra o governo que permitiu se fazer.
E hoje ele, Eike, anuncia ter 10 bilhões de barris já, que valem US$ 100 bilhões. Até então, esse senhor Batista era um milionário, tinha cerca de US$ 200 milhões. Todo mundo já sabia que o Pré-Sal existia, menos o público, porque o governo não anunciou publicamente. As empresas que operavam sabiam, tanto que a Ente Nazionale Idrocarburi D’Italia (ENI) pagou US$ 300 milhões por um dos primeiros poços leiloados em 2008. Três ou quatro leilões foram feitos quando o leilão foi suspenso pela justiça. Até hoje, volta e meia o [ministro] Lobão ameaça retomar o leilão de 2008, 2006. A oitava rodada. Para entregar. Tudo em torno do Pré-Sal estava entregue naquele leilão. No leilão seguinte, o governo insiste em leiloar. E leiloou. E na franja do Pré-Sal é que tem esse enorme poderio.

Como é que pode? A empresa dele (Eike) foi criada em julho de 2007. Em junho de 2008 ele fez um Initial Public Offering, arrecadou R$ 6,71 bilhões por 38% da empresa, portanto a empresa estava valendo R$ 17 bilhões, R$ 10 bilhões dele. Tudo que ele tinha de ativo: a equipe recrutada da Petrobras e os blocos generosamente leiloados por Lula e Dilma. Só isso. Eu denunciei isso já em 2008. Publicamente, em tudo quanto é lugar que eu fui, eu venho falando para que ficasse registrado antes que ele anunciasse as suas descobertas. Porque fui alertado pelos geólogos de que lá tinha muito petróleo.
Foi um acordo que chegaram a fazer, numa conversa entre Pedro Malan, Rodolpho Tourinho e a então ministra-chefe da Casa Civil (Dilma), em novembro, antes do leilão.
O Lula chegou a concordar, segundo disse o pessoal do MST e os sindicalistas, em acabar com o leilão. Mas esse imbroglio, de o empresário ter gasto dezenas de milhões de dólares para recrutar equipe e apoio político nos dois governos fez com que eles mantivessem…
Tiraram o filé-mignon, mas mantiveram o contra-filé. O contra-filé é alguém que hoje anuncia ser o oitavo homem mais rico do mundo.
E tudo foi mediante essa operação no seio do governo. Contra a recomendação dos técnicos da Petrobras, do Clube de Engenharia, do sindicalismo. Foi a maior entrega da história do Brasil.
O ato mais entreguista da história brasileira, em termos econômicos.
Pior, foi dos processos de acumulação primitiva mais extraordinários da história do capitalismo mundial. Alguém sai do nada e em três anos tem uma fortuna de bilhões de dólares.

A Petrobras durante a vida inteira conseguiu descobrir 20 bilhões de barris de petróleo, antes do Pré-Sal.
Este senhor Eike Batista, está no site da OGX, já tem 10 bilhões de barris consolidados. Os Estados Unidos inteiros têm 29,4 bilhões de barris. Ele anuncia que estará produzindo, em breve, 1,4 milhão de barris por dia — o mesmo que a Líbia produz hoje.

É esse o quadro.
Ou a população brasileira se dá conta do que está em jogo, ou o processo vai ser o mesmo de sempre. Do jeito que foi-se a prata, foi-se o ouro, foram-se as terras, irão também os potenciais hidráulicos e o petróleo, para essas negociatas entre a elite. O modelo aprovado não é adequado. Mantém-se uma aura de risco sem necessidade, para justificar que o cara está “correndo risco”, mas um risco que ele já sabe que não existe.
Qual é a nossa proposta?
Primeiro, vamos mapear as reservas: saber se temos 100 bilhões, 200 bilhões, 300 bilhões de barris. Segundo, vamos criar o sistema de prestação de serviço: a Petrobras passa a operar, recebe por cada barril de petróleo produzido US$ 15 ou US$ 20, e o governo determina o ritmo de produção. Porque há um problema: a Arábia Saudita produz em torno de 10 milhões de barris, a Rússia uns 8 milhões de barris, depois vêm os outros, com 2 a 4 milhões de barris por dia: Venezuela, Iraque, Irã. O Eike Batista anuncia a produção de 1,4 milhão de barris, a Petrobras anuncia 5 milhões de barris e pouco. Significa que o Brasil vai exportar uns 3 ou 4 milhões de barris.
Já é o terceiro ator.
Não se pode fazer mais isso.