sexta-feira, 4 de novembro de 2011

G20 : Dilma defende piso de proteção social e CPMF global

Ontem na reunião do G20 - países com os maiores PIBs do mundo - a presidente Dilma Roussef defendeu o bolsa-família não apenas como resgate social, mas como solução econômica anti-crise, e propõs a aplicação da proposta de piso de proteção social, defendida pela OIT - Organização Internacional do Trabalho, não como assistencialismo, mas como proteção social. Também se disse de acordo com a taxação de operações de todo o sistema financeiro, desde que os recursos sejam investidos em programas de proteção social.

Atualmente Sarkozy e Angela Merkel defendem a criação dessa taxa, mas para ajudar países endividados. Leia-se: salvar bancos que emprestaram a esses países. O posicionamento brasileiro, demarcando com alemães e franceses, é muito importante para reavivar uma antiga concepção, a da Taxa Tobin, proposta pelo economista norte-americano e Prêmio Nobel, James Tobin, para frear a especulação mundial com a taxação dos capitais voláteis, e aplicação em programas sociais.  O discurso de Dilma mostrou sintonia com os movimentos que se espalham por todo o mundo questionando o papel predatório dos bancos e as nefastas consequências sociais do grande capital. 

Somália : A pirataria do capital

O que se vê na mídia é que grupos armados somalis atacam barcos que circulam no acesso ao Golfo Pérsico para pedir resgates ou saqueá-los, em atos de pirataria. Isso é a ponta do iceberg. O que levou primeiro pescadores a tentar impedir tais barcos de chegar à costa somali foi a pesca predatória por barcos estrangeiros, em especial franceses e espanhóis, que destruíram os ecossistemas e aniquilaram a pesca artesanal. Depois, grupos armados pela guerra civil entraram em cena fazendo os ataques para saques e em busca de resgates.

De brinde, os barcos das grandes potências aproveitam a inexistência de um governo na Somália, por conta da guerra civil, para depositar lixo tóxico e radioativo no fundo das águas territoriais somalis. Enquanto isso, o povo morre de fome numa das piores crises humanitárias da história. A ONU faz vista grossa para os problemas ambientais e ecológicos, e autorizou países imperialistas como a França e a Espanha a patrulhar a área. Na prática, defendendo os barcos de suas próprias frotas privadas para que continuem os saques e a destruição à natureza.

Vejam este vídeo:  http://dotsub.com/view/8446e7d0-e5b4-496a-a6d2-38767e3b520a
Mais informações em http://www.deoutramaneira.com/piratas.php

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Grécia : Papandreu, o plebiscito e problemas paroquianos

Quando o primeiro-ministro grego Papandreu falou em fazer um plebiscito para saber se o povo apoiaria o pacote de maldades que os bancos estão impondo, chegamos até a pensar tratar-se de uma atitude nobre, democrática, popular. Vendo-o agora há pouco falando para o parlamento grego, ficou clara a intenção de jogar com o plebiscito para evitar a queda do seu governo numa votação que acontecerá nesta sexta, de um voto de confiança. Caso fosse negada a confiança, seu governo cairia e haveria novas eleições.

No discurso, Papandreu disse que se houver consenso com a oposição, retira a proposta do plebiscito. Ou seja, o seu governo do partido dito socialista está aí para fazer todas as maldades contra o povo, mas não quer que a oposição de direita fique criticando. Se todas as forças parlamentares se unirem em torno do seu governo para aplicar o plano de austeridade, ele topa fazer tudo, sem plebiscito.

Mais uma jogadinha rasteira que levou a Europa à beira da loucura, apenas para conseguir mais um tempo de mandato. Os banqueiros agradecem, mesmo tendo que tomar uns remedinhos sublinguais com toda essa manobra. Resta saber se o povão, que foi usado na manobra paroquiana, vai aceitar esse conchavo das elites para aplicar o saco de maldades do FMI, sem consulta nenhuma. 

Povos primeiro, bancos (muito) depois...

Poucas horas antes de ser aberta a reunião dos 20 países mais ricos do mundo em Cannes, França, os primeiros-ministros da França (Paribas BNP) e da Alemanha (Deutsche Bank) dão um ultimato à Grécia : ou aceitam a submissão ao plano de rendição ao FMI e arrebentam com seu povo, ou a Grécia será expulsa do "paraíso" da zona do euro.

Esse é um assunto que aparentemente tem a ver apenas com alguns países europeus, mas que encontra sintonia com os movimentos que em todo o mundo começam a incomodar o grande capital. Tudo que o governo grego quer, neste momento, é dar à população o direito de se pronunciar se aceitarão os sacrifícios para "salvar" a Grécia. Nada mais natural que os que pagarão a conta sejam consultados antes de assinarem tal contrato. No resto do mundo, a questão do poder popular e da representação direta estão em diversos movimentos, de Wall Street às rebeliões do mundo árabe.

Outra questão que começa a unificar a mobilização popular mundial é a primazia dos povos sobre o capital, em especial sobre os bancos. Por que o governo norte-americano privilegiou com trilhões de dólares um punhado de bancos, em detrimento de uma população que agora é vítima da falta de estrutura de "welfare state" dos EUA? Por que os ricos de lá, através da facção ultra-direitista Tea Party do Partido Republicano, querem cortes nos benefícios sociais e redução dos poucos impostos que pagam?

Não se chega a criminalizar os ricos, mas o mundo diz que eles terão que pagar mais para terem privilégios, que não são poucos. Aqui mesmo no Brasil hoje temos notícia do perdão de R$ 19 bilhões a dívidas do Bamerindos e Banco Nacional, e novamente dos obscenos lucros dos bancos brasileiros. Enquanto isso, o pobre coitado que deixou de pagar uma parcela de dívida num empréstimo ou cartão de crédito vê seu saldo devedor multiplicar-se exponencialmente, e para ele não tem anistia. Por que essa distorção, de dar mais a quem tem mais, e tirar de quem tem menos para fechar essa conta?

A Grécia pode ser o divisor de águas nessa questão do poder do povo definir seu futuro, ou dos bancos continuarem a mandar no mundo. Como os banqueiros controlam a mídia, apresentarão um mundo de desgraça para os gregos aceitarem uma vergonhosa rendição e entrega de patrimônio, coisa que só acontece no final das guerras européias.

A mesma pressão aconteceu com a Argentina, no início do governo de Nestor Kirchner, que decretou moratória e negociou soberanamente as dívidas. O país quebrou? Claro que não. Houve descontos de até 80% dos saldos devedores, e Cristina Kirchner foi agora reeleita com imensa aceitação popular. Na Grécia os grandes bancos só ofereceram 50% de desconto. Pelo que já ganharam extorquindo o povo grego, podem dar muito mais desconto sem perder o principal.

O mundo está em suspense com a Grécia, enquanto aumentam as mobilizações. Hoje nos Estados Unidos os manifestantes da Califórnia começaram a deixar a atitude pacifista e ocuparam o porto de Oakland, enfrentando forte repressão policial. Vamos ver o que acontecerá na reunião do G-20. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Israel : A hora de respeitar os outros

O governo de extrema-direita que envergonha o povo judeu em Israel começa a ter ciência da vontade do resto do mundo em fazer a paz na Palestina. Agora foi a vez da Palestina ser reconhecida como país na UNESCO. Logo haverá nova votação sobre a participação plena da Palestina como país-membro da ONU. Tudo que Israel tem a seu favor, até aqui, é o apoio norte-americano, e juntos passaram a boicotar verbas para a UNESCO.

Israel não respeita nada nem ninguém. Enquanto até Obama pede que se pare de construir assentamentos em terras roubadas dos palestinos, Netanyahu acelera o trator e manda fazer mais casas. Enquanto os palestinos dão provas de tentar baixar a tensão na região, Israel bombardeia e mata pessoas na Faixa de Gaza. Na prática, a vida de um israelense vale a de mil palestinos, daí a troca de prisioneiros ter sido feita nessa base. A má-notícia de hoje é o teste de um míssil balístico, e a suposição de que irá atacar o Irã, até com armas nucleares.

O povo judeu precisa ir às ruas derrotar esse governo antes que uma tragédia caia sobre Israel. A persistência no enfrentamento irracional a todos trará mais isolamento, e uma atitude insana como o ataque ao Irã porá toda a região em pé-de-guerra, fortalecendo os grupos mais radicais anti-israelenses. Para quem até agora só ganhou, será difícil aceitar um limite, mas ele precisará ser conhecido, de uma maneira ou de outra. 

Capital não aceita "democracia grega"

Acabou o amor.  Sarkozy e Merkel já tinham feito o trabalho sujo para salvar os bancos afundando de vez a Grécia, mas, quando champanhes já se abriam para a comemoração, o primeiro-ministro Papandreu, por razões que vão da decência à jogada política, resolveu melar a transação. Pelo menos, postergar com um plebiscito, que surpreendeu até a sua base aliada, mas que já conta com apoio dela.

Hoje, momentos antes de começar a reunião do G-20 em Cannes, na França, declarações de Sarkozy e Merkel davam o tom furioso contra a Grécia, caso insista em submeter a aceitação do pacote ao referendo popular. Os representantes dos banqueiros dão o ultimato: ou aceitam o acordo de submissão, ou a Grécia será banida da zona do euro. E que sirva de lição para a Espanha, Portugal, Itália, Islândia e outros na fila da falência.

Milhares de manifestantes estão em Nice, cidade vizinha a Cannes, protestando contra os banqueiros. Uma das suas bandeiras é pela preocupação com os povos, e não com os banqueiros. Com essa atitude hostil à decisão soberana da Grécia de levar o assunto à apreciação popular, Merkel, Sarkozy e outros prepostos dos banqueiros serão fritados nos seus próprios países, onde também há manifestações contra os bancos.

A Grécia não deve recuar. Esse debate tem que passar pelo povo, que está nas ruas resistindo às reformas orientadas pelo FMI. Qualquer que tenha sido o motivo real de convocar o plebiscito, fica o precendente para os demais países, para que não aceitem acordos anti-populares feitos por governos e parlamentares corrompidos pelos banqueiros. 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Novos Irãs virão?

Abertas as urnas na primeira eleição democrática na Tunísia, depois da derrubada da ditadura de Ben Ali, venceu um partido de orientação islâmica com boa maioria. Será a Tunísia, em breve, mais um medieval estado religioso e anti-ocidental, o que seria o natural para a cultura da região, ou as potências manterão a pressão para que seja um estado laico pró-ocidental? Parece estranho, mas os interesses do capital parecem brincar com o perigo de substituir ditadores submissos por regimes como o do Irã. Vamos ver o que acontecerá na Líbia e no Egito, nos próximos meses. 

Esporte : Sai Orlando, entra Aldo

Depois de 50 dias afastado do Brasil comecei ontem a ler todas as revistas semanais e jornais que ficaram empilhados na nossa ausência. Comecei por uma Isto É de 12/10/11, que falava da queda de braço do governo Dilma com a FIFA, que cada vez mais quer alterações na legislação brasileira para obter mais lucros.

Os cartolas querem o fim da meia-entrada, fazer venda casada de ingressos com pacotes turísticos, e liberdades para tornarem a Copa uma caixa-preta, inacessível ao controle soberano brasileiro. Como um patrocinador será uma cervejaria, querem o fim da proibição de venda de bebidas nos estádios, que vigora desde 2008 no Campeonato Brasileiro.  O governo vem se recusando a fazer concessões, recebendo críticas da FIFA sobre o atraso na infra-estrutura, ameaças de tirar cidades da Copa, etc.

A Copa no Brasil corre risco? Todo mundo sabe que não. Ninguém troca pneu com o carro andando. A Copa será o que o Brasil quiser que seja, estrebuche ou não a FIFA. Mas, se o governo não quer dar mais à FIFA, que caia o governo. Incrivelmente, três semanas depois da matéria, surgiu do nada um ex-PM filiado ao PC do B para denunciar o ministro Orlando, sobrando até para o Carlos Lupi, do Trabalho, e para o governador do DF e ex-ministro dos esportes Agnello acusações de corrupção no desvio de recursos para ONGs. Ontem, a troca de ministros, saindo Orlando Silva e entrando Aldo Rebelo, também do PC do B, pareceu uma substituição de jogadores da mesma equipe. Todo mundo era aplaudido, a Presidente Dilma elogiou todo mundo, e qualquer um que visse a cena perguntaria: se está tudo bem, por que estão mudando?

Com isso o governo conseguiu colocar um político mais experiente nesse ministério-chave, ao mesmo tempo que o tira da discussão do Código Florestal, onde vinha contrariando o Planalto. Dilma não fez por menos e mandou auditar todas as ONGs que têm contratos com o governo, uma medida saneadora que vai lhe evitar aborrecimentos futuros. Não se enfraqueceu o governo com  um desgaste profundo, o que alimentará as forças pró-FIFA a investir em novas aventuras. E Agnello? Bem, Brasília quer a abertura da Copa, e requentar denúncias contra ele é coagir no sentido de tê-lo como aliado em busca de concessões.




Lula : Solidariedade no câncer?

Atribui-se ao escritor Otto Lara Resende a frase : "o mineiro só é solidário no câncer". Desconheço as razões para que o autor a proferisse, mas diante da doença do ex-presidente Lula, há que se repensar: será que a mídia é solidária na hora do câncer?

Ontem estava vendo o Jornal Hoje da Globo e uma repórter iria trazer ao vivo, do Hospital Albert Sabin, em São Paulo, as últimas notícias sobre o estado de saúde de Lula. Eis que, de surpresa, aparecem dois imbecis que a derrubam para mostrar suas caras às câmeras, certamente sabendo da audiência garantida dos que se preocupam com Lula e dos que o odeiam e esperam pelo pior. Depois os babacas foram para o Twitter atrás dos seus 128 caracteres de glória. E outros babacas lhes garantiram um "trending topics", o Nirvana dos medíocres que querem aparecer.

Mais tarde, na Globonews, a jornalista Cristiana Lobo, tratando da doença de Lula com o respeito que merece, levantou uma hipótese que referenda Otto Lara: o câncer aumenta a popularidade das pessoas, e isso aconteceria com Lula também. Dilma teve seu momento de sensibilização pública. José de Alencar, idem. Mário Covas e outros também. Se isso acontece, será um duro golpe para os que se dedicaram a desconstruir Lula após sua saída do governo, pois as pessoas tenderão a olhar para ele com mais piedade.

Por essa "solidariedade no câncer", os inimigos de Lula ficam numa sinuca de bico: se piora o estado de saúde, vira um Tancredo Neves, com direito a mídia diária inspirando orações e pena. Se falece, vira mártir, e ninguém mais pode bater, reservando-lhe o papel mítico como grande estadista e presidente. Se fica bom logo, a mídia e os outros cânceres nacionais não poderão dar em Lula as bordoadas de praxe, porque o povo entenderia ser maldade com um homem doente.

Espero que Lula se recupere logo, e se comprometa a fazer uma campanha contra o fumo que tanto consome, e causa todo tipo de doença. Seria um grande exemplo para as futuras gerações. 

Grécia : Plebiscito derruba mercados europeus

Na última semana o grande capital europeu pensava ter conseguido equacionar os problemas dos países falidos através da imposição de programas de austeridade com o padrão FMI : arrocho salarial, privatização, flexibilização de direitos trabalhistas, demissões no setor público, redução de programas sociais e benefícios previdenciários, etc. Quando tudo parecia indicar que a conta iria ser passivamente paga pelos povos desses países em crise profunda, o primeiro-ministro da Grécia, diante da pressão do povo nas ruas em sucessivas greves gerais, resolveu levar a questão a um plebiscito em janeiro de 2012.

A notícia caiu como uma bomba nos centros financeiros, e hoje as ações dos principais bancos europeus despencam, junto com as bolsas de valores. A "democracia grega" deu um duro golpe nas projeções de lucros dos bancos financiadores das dívidas, como o Paribas BNP e o Deutsche Bank, que terão que rever as condições de empréstimo a outros países para reduzir riscos de calote.

A quebra da Grécia não é desejada pelo mercado, que pretende manter, dentro da camisa-de-força da Comunidade Européia o controle da sua economia. Se a Grécia sai da eurozona, praticamente nenhuma garantia haverá para os bancos e governos que fizeram empréstimos aos gregos, e o calote passa de duvidoso a certo. O governo grego, aparentemente, joga com isso para obter melhores condições para um acordo menos lesivo. O risco para os banqueiros é enorme, pois já há pesquisas indicando que o povo grego rejeitará o pacote no plebiscito. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Viagem longa : primeiras conclusões.

Chegamos ontem de 50 dias de viagem ao exterior. Um balanço preliminar: 16 mil fotos, 10 países, orçamento cumprido, dois países inicialmente programados não foram visitados. Cansaço e um mal-estar que vai do adoecimento por mudanças rápidas de climas e temperaturas, jet-lag, tensão a cada instante por mudança de variáveis, etc. Adicional de cansaço por 12 horas enlatado num avião apenas na parte principal do vôo, fora as escalas para troca de aeronave.

Primeira conclusão: não se pode fazer uma viagem com essa duração com tantos objetivos. Não temos mais saúde para isso. Viagens de longa duração devem ser feitas com longas estadas em poucas cidades, sem muitas modificações de ambiente.

Segunda conclusão: vale a pena pagar um pouco mais por uma passagem que tenha a volta flexível, para que não se fique refém de uma passagem sem flexibilidade. É melhor poder mudar a data de volta, por exemplo, que perder a passagem de volta e ter que comprar uma outra a preço quase da ida-e-volta em cima da hora.

Terceira conclusão: talvez valha a pena pagar um pouco mais caro por passagens de longo curso em classe executiva, para ter qualidade no sono.

Quarta conclusão : nunca alugar carro na Itália. Há armadilhas montadas por uma indústria da multa para pegar motoristas que desconhecem as peculiaridades obscuras criadas por prefeituras e auto-estradas para sujeitar o motorista a ciladas a todo momento. Fora os estacionamentos caríssimos, onde se sabe o preço apenas depois que já estacionou.

Quinta conclusão : viagem em ritmo frenético traz para a coordenação do projeto um forte stress, que não é sensível para os demais do grupo. Decisões a todo momento, riscos a serem mitigados, exigências disciplinares, tudo isso é incompatível com o propósito maior da viagem, que é a diversão.

Sexta conclusão : todo o sacrifício vale a pena, e a gente descansa depois. Conhecer o mundo não tem preço.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Itália : Mais políticos (inúteis) que o Brasil no Congresso


A gente reclama da quantidade de políticos inúteis do nosso congresso, e com razão, pois boa parte apenas está lá para escapar de processos e fazer negócios com o poder de voto nas questões de interesse de lobbies de grandes grupos econômicos. Para uma população de cerca de 200 milhões de pessoas, temos 81 senadores e 513 deputados federais. Já a Itália, que tem 60 milhões de habitantes, menos de um terço do Brasil, tem na folha de pagamento paga pelo cidadão nada menos que 321 senadores e 630 deputados federais!

Em frente ao Palácio Montecitori, sede do parlamento, há mais de 3 meses há um acampamento de ativistas que pedem o corte radical da quantidade de parlamentares, redução de mordomias, de carros oficiais, de despesas com administradores, etc. E levantam a bandeira da democracia direta como alternativa.

Como me disse um deles, sem o povo na rua, nada mudará, porque o corporativismo dos parlamentares jamais os fará cortar mordomias. Ou seja, cachorro não come cachorro. Detalhe: todo ex-presidente automaticamente se torna senador. Vitalício! Vai ver que é por isso que temos mais copas do mundo que eles. 

Itália : Como é que os italianos sobrevivem com o Euro?

Nesta viagem passei por 8 países antes de chegar à Itália, entre eles 3 que usam o Euro como moeda: Áustria, Alemanha e Eslovênia. O mais caro tinha sido a Alemanha, com os preços um pouco acima dos praticados no Brasil. Isso em supermercados de Munique, que já é numa região cara. Na Eslovênia as coisas estavam mais ou menos iguais. Em Viena, também um pouco mais caras. Isso fora de áreas turísticas. No Leste Europeu, chegamos a ver garapas, como na Bulgária, com tudo bem barato, e nos demais, inclusive em Moscou, preços menores ou iguais aos do Brasil. Sempre fora das áreas turísticas.

Chegando à Itália tomamos um susto com os preços. A princípio pensamos ser pelo turismo, mas fomos a supermercados mais afastados do centro e vimos que os preços estavam realmente muito altos. Os melhores preços, nas cidades onde passamos, eram praticados pelos supermercados de cooperativas, mesmo assim um pouco mais alto que os preços brasileiros. Como a gente anda nos lugares e tem a impressão de que tudo está parado, pois as lojas estão vazias e não há movimento em geral, dá para se notar que a crise italiana vai além do déficit público. Tudo está muito caro, eliminando o poder aquisitivo do italiano.

Nas conversas com algumas pessoas havia uma unanimidade: quando o Euro foi adotado, substituindo a Lira, os preços praticamente dobraram, e não houve acompanhamento pelos salários. Num primeiro momento houve queda de alguns preços pela maior entrada de importados, mas com o tempo ficou a grande perda. O governo não consegue fugir das imposições da Comunidade Européia e cada vez mais faz concessões que impedem a retomada do crescimento.

A Itália não é o país mais caro da Europa, mas o fato de seus preços estarem sem condições de concorrer com os países mais poderosos do bloco provoca a desindustrialização, passando a viver de turismo e da exportação de produtos agro-industriais. Turismo é um serviço fortemente sensível à crise econômica global, por ser algo adiável, supérfluo. Na Grécia, com a crise explodindo em descontentamento popular, o turismo caiu fortemente, e o mesmo pode acontecer com a Itália.

Em 1995, antes do Euro, viajei a diversos países europeus e a Itália era o mais barato, sendo a Alemanha o mais caro. De lá para cá não é visível o melhoramento na infra-estrutura do país mesmo com maior aderência ao bloco europeu. As auto-estradas são as mesmas de 16 anos atrás, com alguns melhoramentos. O transporte ferroviário foi parcialmente privatizado e encareceu muito. Os imóveis estão muito caros.

Não há política energética, e o país depende de gás da Rússia, de eletricidade da França e de petróleo que tenta conquistar na Líbia. Ainda resiste o "welfare state" na previdência, nos serviços médicos e educação, cada vez mais ameaçado pelas exigências privatizantes dos programas de recuperação do FMI. Não sei como sobrevivem, mas uma coisa pareceu clara: se mexerem no pouco que ainda sustenta uma parte da população perante a carestia, a Grécia vai parecer coisa de amador em termos de agitação social.

Toscana : Belíssima, de fato.

Saindo de Porto Venere, em La Spezia, preferimos as estradas menores para ver o melhor da região da Toscana, e foi uma ótima opção. Lindas paisagens de campos e montanhas, ajudadas pela mudança de coloração das árvores neste meio outono. Para quem dirige, o desconfortável é ter que prestar atenção nas estreitas estradas, cheias de rótulas onde a todo o momento a direção pretendida muda. Escolhemos Volterra como destino e acho que acertamos. A cidade é representativa da região.  Pena termos que ir embora hoje, e ficar pouco tempo. A beleza da Toscana não é peça de propaganda: é verdade mesmo. 

Itália : Berlusconi declara guerra aos trabalhadores

Ontem, enquanto os italianos sofriam com o desastre das chuvas na região da Ligúria e a mídia dava toda a atenção aos seis mortos nas inundações, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi apresentava à Comunidade Européia (entenda-se bancos da Alemanha e França) um plano para reduzir direitos trabalhistas na contratação, em caso da empresa estar em situação econômico-financeira ruim. Em compensação, haverá facilidades na rolagem de dívidas com bancos, salvando a pele destes diante de um risco de calote.

Os sindicatos entenderam a medida como uma provocação e prometem reação. A julgar pelo que houve por aqui no último dia 15 em Roma, pode-se prever uma poderosa jornada de greves e manifestações assim que as medidas forem para a prática. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Viagem : Cinque Terre arrasada por chuvas




Era para ontem termos dormido em alguma das aldeias de Cinque Terre, no litoral italiano próximo a La Spezia e Gênova. Felizmente, bateu cansaço e chovia ontem em Florença quando resolvemos ficar por lá mesmo. Hoje pela manhã, na TV se falava em tragédia das chuvas na Ligúria, uma região italiana acima da Toscana, onde estávamos ontem.

 Como a previsão do tempo para o litoral era de tempo bom, não ligamos para a informação. Acontece que |Cinque Terre fica na Ligúria, e as cidades sofreram os impactos.

Como não sabíamos de nada, estranhamos não haver praticamente ninguém se deslocando pelas estradas, até encontrarmos um trecho interditado logo depois da entrada para Corniglia e Vernazza. Tentamos descer a serra até ambas as localidades, encontrando interdições. A topografia parece com a da Rio-Santos: a estrada passa à meia-encosta, com descidas íngremes para as praias, condomínios, etc.

Nos relatos que lemos antes da viagem, faziam dessas estradas verdadeiros bichos-papões, mas a coisa não é tão ruim assim. O problema é quando se tenta parar um carro na praia, como em Riomaggiore e Manarola, que oferecem vagas de estacionamento pago em lugares ainda bem altos.

Do que pudemos ver, a região é linda. Única, com casas desafiando a gravidade nas beiradas de penhascos, e paisagens que parecem ter saído de quebra-cabeças.

Com esse problema, o mar ficou cheio de detritos e estão interrompidos os passeios de barco até as praias. Só restou a opção de Porto Venere, um recanto delicioso próximo ao porto de La Spezia, melhor ainda com a baixa estação. 

Pistóia : A memória da guerra do Brasil na Itália contra o nazi-fascismo



No início dos anos 60 ainda era bem viva a memória da Segunda Guerra Mundial, da qual o Brasil participou com a Força Expedicionária Brasileira e a Força Aérea Brasileira, deixando em solo italiano 465 mortos no cemitério na cidade de Pistóia, a cerca de 30 km de Florença. Tinha vizinhos e professores que combateram, e falavam das campanhas no centro-norte da Itália, em batalhas como Montese, Monte Castelo, Fornovo, etc. E do cemitério dos mortos brasileiros em Pistóia.

Para quem não sabe, o Brasil declarou guerra em 1942 aos países do Eixo - Alemanha, Itália e Japão - a partir de uma campanha popular, mesmo em plena ditadura Vargas, simpatizante do fascismo de Mussolini, onde se destacaram os comunistas, interessados em enfraquecer os nazistas que dizimavam milhões de soviéticos no front russo. Navios mercantes brasileiros foram afundados no litoral do nordeste, possivelmente por submarios alemães (há controvérsias e quem diga que foram os próprios americanos para afastar Vargas do Eixo).

O Brasil estava despreparado para a guerra, e só conseguiu mandar uma divisão para a Itália, para ficar sob comando dos norte-americanos, que tiveram que prover a tropa com alimentos, agasalhos, armas, etc. Quem estava melhor era a FAB, cujos pilotos já participavam de treinamentos com americanos no Panamá. Era uma grande contradição política a participação brasileira, o que talvez explique o atraso no envio de tropas: um governo fascista combatendo outros fascistas.

Quase 20.000 brasileiros foram mandados à Itália, entre soldados e oficiais, aviadores, enfermeiras, e até funcionários do Banco do Brasil para fazer os pagamentos. Participaram de batalhas que foram verdadeiras pedreiras, tomando bunkers de alemães em colinas. Relatos que ouvi quando criança também diziam que os brasileiros eram mandados pelo comando americano para as missões mais sujeitas a baixas, poupando o pessoal deles. A FAB participava do bombardeio das linhas de suprimento, que levaram à inanição toda uma divisão alemã que acabou se entregando aos pracinhas, num total de 17.000 homens. Na região também há cemitérios de alemães e americanos.

Fiz questão de ir ao local, apesar de não ter placas indicativas e ter dependido de GPS e do Google Earth, para ver o Monumento Votivo e ver como estava a memória da participação do Brasil 65 anos depois do fim do conflito. Tudo estava muito bem cuidado, até a pira, mantido por um funcionário do Itamaraty que vem a ser filho de um sargento brasileiro com uma italiana. No escritório, o livro de registro mostrava o aumento do número de brasileiros visitantes, e tinha muitos materiais didáticos, inclusive em italiano. A foto do presidente brasileiro estava desatualizada, estando Lula na parede.

Segundo o funcionário Mário, está aumentando a frequência de brasileiros na visita ao local. Também vão por lá italianos e pessoas de outras nacionalidades, para prestar homenagens. Os italianos da região, em especial, têm apreço aos brasileiros que foram além da luta pela libertação dos nazi-fascistas, prestando ajuda humanitária.

É um pedaço de Brasil que merece ser lembrado, para que o fascismo e o nazismo nunca mais prosperem em terras brasileiras. Terminada a guerra em 1945, o povo derrubou a  ditadura Vargas. A lição, entretanto, não foi totalmente aprendida. Em 1964, vários dos militares que participaram da luta anti-fascista participaram da implantação de uma nova ditadura fascista no Brasil. Este monumento, assim como o dos mortos da 2a guerra no Rio, devem ter seus significados políticos bem claros para as futuras gerações, e não servir apenas de patrimônio corporativos das forças armadas.


Kassab vai às compras no DEM

A notícia não é nova. Para criar o PSD, novo partido que pretende ser governista e tirar do ostracismo e do acesso a recursos muitos políticos sem qualquer pudor de virar casada, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, filiou uma bancada de 55 deputados. Para tanto, foi às compras no DEM. Só não sabia que a coisa era tão institucional assim. Vide foto.

Com o arrastão de Kassab, a bancada do DEM caiu de 46 para 25 cadeiras na Câmara, e já pode ser considerado um partido nanico. O PSDB perdeu apenas 3 deputados. Até o PC do B perdeu um. PT e PSB não perderam nenhum para a nova legenda.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Itália : A vez do primo pobre pagar a conta

 De muito pouco adiantam o jeitão bonachão de Silvio Berlusconi e sua pretensa intimidade no clube dos países ricos da Europa. No último domingo, em Bruxelas, Alemanha e França mandaram o recado duro: tem que fazer cortes na previdência social para ter ajuda contra a crise. A notícia repercute por aqui com protestos de vários partidos e do próprio Berlusconi, mas o pior para os italianos é ver que os primos ricos estão se distanciando do pobre. 

Na semana passada, Alemanha e França tentaram interferir na nomeação do presidente do Banco da Itália. Logo haverá conflito de interesses em relação à Líbia, onde a França quer a parte do leão no petróleo, disputando com a Itália. Pelo visto, a Itália entrará logo na espiral de protestos que tomou conta da Grécia, onde o povo não aceita cortes. Na quinta haverá reunião da União Européia e Berlusconi terá que levar a Angela Merkel e Sarkozy uma proposta para aplacar a fome dos mais ricos. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Viagem : Veneza em um dia

Conhecer Veneza não é fácil, ainda mais em apenas um dia. Quando fiz a análise de alternativas para viajar a Veneza a partir de Roma, a de ir de carro alugado venceu com facilidade a ida e volta de trem para duas pessoas.  Com gasolina e pedágio inclusos. O ideal seria chegar lá de trem, passar uns dois dias e voltar de trem, mas acabamos fazendo diferente: viajamos de carro até Pádua, pegamos um hotel barato para os padrões italianos e fomos hoje cedo para Veneza, retornando agora há pouco, às 21h. No total, 12 horas em Veneza. Muito pouco para conhecer tudo, mas  o que vimos foi suficiente para afirmar que é uma cidade única, talvez a mais bonita que já conheci. Dizer que Recife é a Veneza brasileira é uma heresia.

Em 30 minutos de carro pela autoestrada A4, pagando 3 euros de pedágio, se chega à ilha de Troncheto, praticamente encostada em Veneza. O estacionamento, para quem passa mais de 6 horas, é de 21 euros na parte coberta, e 16 euros na parte ao ar livre. No próprio terminal deve-se comprar o passe para os barcos, por 16 euros por pessoa, válido por 12 horas. Uma única viagem custa 6,50 euros, daí o passe ser uma opção bem mais em conta. Há um outro passe, de 26 euros por pessoa, que inclui barcos até o aeroporto, mas isso foi desnecessário. O passe que compramos também dá direito a trens e ônibus até a cidade vizinha de Mestre, que também é um bom ponto de apoio para quem não quer dormir em Veneza e morrer em uma grana pesada em hotéis.

Comprado o passe, junto ao terminal há uma estação de barcos. Validamos os tickets numa maquininha que tem em toda estação (fundamental, senão pode dar em multa), pegamos um barco até a estação Pl. de Roma e de lá o barco direto para a ilha de Murano, que é onde está o grande diferencial  da produção artística de Veneza. A tradição em vidraçaria é de séculos, e a ilhota é uma grande fábrica de artefatos de todos os tipos, cores e preços em vidro. Tem até um Museu do Vidro, onde se pode aprender como fazer arte no material.

Em Murano resolvemos o problema de abastecimento de itens básicos, como água, já que em Veneza os preços são estuprantes. Uma garrafinha de água de 500 ml pode custar 2 euros. Uma coca de 500 ml pode ir a 3 fácil. Qualquer coisa que se coma, como um pedaço de pizza , custa no barato 6 euros (uns 18 reais). Até para ir ao banheiro o preço corrente é de 1,50 euros, ou seja, R$ 3,75 por uma simples mijada. Logo que descemos na estação Colonne, encontramos um supermercado bem malocado num centro comercial, onde os locais fazem compras a preços razoáveis, e compramos de tudo para nos tornar auto-suficientes na estada em Veneza. Na mesma galeria também compramos logo artesanatos a preços bem mais baratos que nas lojas externas.

Em Murano o tempo começou a virar, e corremos logo para a Praça de São Marcos, atração número 1 de qualquer excursão que vai à ilha. Incrível como numa segunda-feira, baixa estação, o lugar estava tomado por turistas. Veneza recebe 13 milhões de pessoas por ano. Para se ter idéia do que é isso, o Brasil inteiro recebeu, em 2010, 5,1 milhões de turistas estrangeiros. E em Veneza o que se vê é brasileiro, indiano, chinês, coreano, alemão, praticamente todos em excursões. Chegamos a ver cardápios em mandarim e em russo, e bandeiras brasileiras em lojas.

A cidade estimula andar a pé. Tem na sua maior dimensão 4,3km, e não tem nenhum terreno que não seja construído. Praticamente todos os prédios são de bela arquitetura, bem conservados ou não. O sistema de transportes aquáticos é bom, preciso, seguro e interessantíssimo. As gôndolas continuam caríssimas, e são apenas para passeios mais ou menos românticos. Hoje quando começou a  chover vi casais fazendo passeios de gôndolas tomando a maior água, mas sem perderem a pose, afinal, tais passeios são sonhos dessas pessoas.

O Grande Canal corta Veneza em dois grandes pedaços,e vale a pena andar por ele pelos barcos 1 ou 2.  Este também dá uma volta por fora, parando na ilha em frente em vários lugares e chegando à Praça de São Marcos vindo da lagoa, não do Canal.




Veneza também é famosa pelas máscaras de carnaval. Numa pequena rua que fica poucos a poucos metros do cais da Praça de São Marcos há uma loja e uma fábrica de máscaras e fantasias muito bonitas. E caras também. Vale a pena ver. Quando retornar ao Brasil e tiver mais tempo vou completar este post com fotos e indicações mais precisas.

Uma boa caminhada da Praça de São Marcos até Rialto mostrará um comércio variado do artesanato local, não apenas de vidro e máscaras, mas confecções e ourivesaria, além de grifes famosas italianas, em especial. Preços muito salgados. Em torno da praça, ao entardecer, há música de qualidade nos cafés, com pianos, sax e vocais.

A visita à Catedral de São Marcos é gratuita, mas deve-se deixar mochilas e bolsas num local próximo. Uma boa visão da cidade é na torre em frente, que tem elevador, e cujo ingresso é de 8 euros. O ruim é a fila que parece não andar.

À noite a iluminação das lojas dá um novo colorido, ocultando os prédios antigos, em algumas áreas da cidade. Nas demais, o silêncio e a penumbra tornam o lugar especial para quem pode pagar um hotel na cidade. Não é o nosso caso. Depois de 44 dias de viagem, com o orçamento rigorosamente executado, um pernoite desses seria um ato perdulário.