sábado, 2 de janeiro de 2010

Planaltina (DF) : 150 anos



Fundada possivelmente em 1790, a atual cidade satélite de Planaltina comemorará seus 150 anos ao mesmo tempo que Brasília faz 50 anos. Fundada na corrida por ouro e esmeraldas, a cidade serviu de ponto de apoio para as expedições que mapearam o Distrito Federal e para o início das obras de construção da capital federal. Era o único povoamento com sede no quadrilátero do atual DF. A cidade tem no centro a secular igreja de São Sebastião e o Museu Histórico e Artístico de Planaltina, que até o dia 13 de junho de 2010 manterá a interessante exposição "Casa Histórica de Planaltina", com mobiliário do início do século XX. Planaltina dista 38 km de Brasília pela BR-020, que liga a capital a Fortaleza (CE).

Planaltina (DF) : Pedra fundamental do Distrito Federal

Brasília fará 50 anos em 2010 e pouca gente sabe que por séculos se pensou em tirar a capital do litoral por motivos de segurança, já que tanto Salvador como o Rio de Janeiro eram vulneráveis a ataques estrangeiros. Segundo a Wikipedia, em 1822 "José Bonifácio de Andrada e Silva, tão logo viu proclamada a independência do Brasil, ofereceu à assembléia constituinte, a que então presidia, uma Memória, onde demonstra as vantagens "de uma nova capital do Império no interior do Brasil, em uma das vertentes do rio São Francisco, que poderá chamar-se Petrópole ou Brasília...".

Na legislatura de 1852 a questão tornou a ser ventilada, despertando a atenção do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, que defendeu ardorosamente no compêndio "A questão da capital marítima ou no interior?". Coube-lhe a primeira verificação prática no local (1877). Apontou então como local mais apropriado "para a futura capital da União Brasílica o triangulo formado pelas lagoas Formosa, Feia e Mestre d'Armas, das quais manam águas para o Amazonas, para o São Francisco e para o Prata!". Determinava assim, com oitenta e três anos de antecedência, o ponto onde se iria instalar a nova capital.

Com o advento da república, volta a velha questão à tona, sempre ligada à defesa e ao desenvolvimento do país, afirmando-se expressamente, no art. 3o.da constituição republicana de 1891; "Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.000 km², que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal." Floriano Peixoto (segundo presidente da república) deu objetividade ao texto, constituindo-se a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil (1892), sob a chefia do geógrafo Luís Cruls, que apresentou substancioso relatório, delimitando, na mesma zona indicada por Varnhagen, uma área retangular que ficou conhecida como Retângulo Cruls."


Para a comemoração do primeiro centenário da Independência, o presidente Epitácio Pessoa mandou colocar, em 7 de setembro de 1922, um marco fundamental (foto) num local próximo à cidade de Planaltina , em Goiás, mas nenhuma outra providência foi tomada no sentido de iniciar a construção da nova capital. A constituição de 1934 também dispôs sobre a nova capital, mas a idéia não foi colocada na constituição de 1937, voltando a aparecer na de 1946. Uma comissão técnica, em 1954, definiu os limites da futura capital. Em 1955 o presidente em exercício Nereu Ramos constituiu a Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal. Em março de 1957 o projeto urbanístico do arquiteto Lúcio Costa foi escolhido em concurso público, e iniciadas as obras de construção da nova capital, que foi transferida do Rio para Brasília em 21 de abril de 1960.

O marco histórico é acessado pela estrada DF-128, passando pelo Instituto Federal de Brasília (antigo Colégio Agrícola). Fica a cerca de 9 km do centro de Planaltina, e a estrada está parcialmente asfaltada, com uma parte em obras que merecem atenção do motorista.


Dica de filme : Avatar

Filmes muito badalados normalmente não me atraem às insanas filas de lançamento porque sei do que o marketing é capaz de fazer com as mentes. Avatar é um desses filmes de produção milionária, lançado com muita expectativa, e mesmo com duas semanas em cartaz tem filas gigantescas. Aqui em Brasília tem cinema até com sessão lotada à meia-noite. Com algum sufoco, consegui vê-lo ontem, e o mínimo que se pode dizer é que as quase 3 horas de projeção não são sentidas porque não se desgruda os olhos da tela, ainda mais se a versão tiver recurso de 3D.


Tem filmes que parecem viagens, mas Avatar parece um sonho delirante. As animações são de uma qualidade que nunca vi no cinema. O mundo fantástico do povo nativo da lua Pandora interage com o realismo truculento do capitalismo interplanetário colonialista que chega até lá para explorar minérios a qualquer preço e com os cientistas terráqueos que procuram entender como funciona o planetóide, numa visão que em determinado momento se torna preservacionista e os torna aliados dos locais. A batalha final entre os interesses dos lucros e os da conservação dos sistemas vivos do planeta parece antever o que teremos aqui pela Terra em breve. Vale a pena ver.




sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Tucanos privatizam rua em Cuiabá

O prefeito Wilson Santos (PSDB) e Câmara de Vereadores de Cuiabá venderam uma rua para o supermercado Atacadão. O Ministério Público quer anular o ato de privataria tucana, considerando os bens públicos inalienáveis. Se já venderam a Vale, a telefonia e a energia elétrica, por que não venderem ruas, praças e a alma a interesses privados?

Tragédias em Angra : defesa civil incipiente

Quem anda pela Rio-Santos nota uma enorme quantidade de obras de contenção de morros e as irregularidades na pista, frutos de uma instabilidade natural das encostas da região. Não raramente se veem desvios para retirada de barreiras que interrompem a estrada. Passando por Angra, nota-se que a favelização ocupou lugares muito altos nas encostas, sem qualquer preocupação com a estabilização dos maciços.

Na Ilha Grande, casas e pousadas escavaram a base de taludes, criando fragilidades à espera do acúmulo de chuvas para a capa de solo deslizar sobre os leitos de rochas e arrastar tudo pelo caminho. A ocupação desordenada e a construção sem critérios técnicos adequados aos solos existentes e a omissão das autoridades que fazem vista grossa são a receita destes e de outros desastres que virão.

Vendo pela TV a precariedade das condições de trabalho das equipes de bombeiros e da defesa civil, lembro que Angra dos Reis deveria ter uma força-tarefa eficiente para emergências, pois no município encontram-se as únicas duas usinas nucleares brasileiras. Cadê esses virtuais efetivos que deveriam estar à disposição para situações bem mais complexas, para a evacuação da população e primeiros atendimentos em caso de vazamentos radioativos ?

Anistia : intrigas e golpismos

O último esforço de mídia de 2009 para tentar derrubar Lula foi a divulgação da possível renúncia coletiva do alto comando da defesa nacional por causa de uma proposta feita pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos para permitir a apuração de responsabilidades de crimes cometidos pela ditadura, e abonados pela Lei da Anistia, que completou 30 anos. Publicaram até provocações do tipo "uma alta fonte militar" dizendo que se era para apurar abusos aos direitos humanos pelo lado da ditadura, também teriam que investigar a Dilma, Franklin Martins e outros que participaram da guerrilha.


Se depender de Lula, o assunto vai receber panos quentes, embora o seu prestígio junto à população o credencie a peitar a direita e entrar em sintonia com os demais países latino-americanos que julgaram e condenaram os torturadores e mandantes das ações contrárias aos direitos humanos, que foram militares e civis. Quem fez as barbaridades hoje está de pijama, fora de postos de comando, e deve responder por seus atos. Quem não deve, não tem nada a temer. Já é hora de pararmos de temer as forças armadas como se fosse um poder paralelo à democracia, e essa não é a visão da nova geração de militares.

DF : Simpatias esquisitonas de ano novo

Ontem (31/12) o Jornal da Band local de Brasília mostrou uma matéria sobre simpatias que, apesar de séria, parece ter embutido uma inteligente gozação com a conjuntura política local. A primeira consistia em colocar um ramo de arruda dentro da carteira e andar com ele o ano todo, para atrair mais dinheiro. A outra dizia para amarrar uma fita numa cueca nova a ser usada na passagem de ano, e depois guardar a fita na carteira, também para atrair prosperidade. Só faltou alguma mandinga para atrair dinheiro em meias...

Um ano de blog

No primeiro dia de 2009 comecei a escrever no blog com alguns objetivos, que considero cumpridos através dos 480 posts feitos até aqui:

- organizar textos e disponibilizá-los às listas de discussão através de links;
- combater a "verdade única" da mídia globalizada;
- apresentar materiais variados (política, humor, viagens, ecologia, engenharia, etc).

Apesar de permitir comentários moderados, estes foram poucos, não chegando a 50. Seis não foram publicados por conter ofensas a mim ou a terceiros. Não houve debate. Os materiais foram recorrentes em alguns assuntos como:
- fora Sarney;
- combate à direita e suas manipulações midiáticas;
- apoio crítico ao governo Lula;
- fora Arruda;
- viagens realizadas no período;
- defesa da engenharia nacional;
- Flamengo.

Foram 14.255 acessos, onde 8.157 foram de diferentes "IPs", ou indivíduos diferentes, que acessaram pelo menos uma vez. Cerca de 1200 acessos foram para a manutenção do blog (postagens, edições) e os demais foram acessos através de "IPs" repetidos. Bons números para um primeiro ano. Atualmente leva-se 20 dias para atingir 1.000 acessos, e a melhor performance foi em julho, com 12 dias de intervalo. O recorde de acessos num mesmo dia foi de 215. Em dezembro, não houve dia com menos de 30 acessos. Os acessos do exterior foram mínimos, mais frequentes a partir de Portugal e EUA. Uns 30% de acessos foram a partir de pesquisas na internet.

Alguns materiais foram obtidos diretamente na fonte das notícias, como no cerco ao Morro dos Macacos, no Rio, e no lançamento do novo filme de Michael Caine em Londres. A matéria de maior repercussão foi "Vôo 447 : As tragédias da midia", reproduzida no Observatório da Imprensa. Não houve tempo para publicar tudo que gostaria. Só de dicas de viagens tenho material para mais de 100 posts, apenas de 2009.

Neste segundo ano pretendo melhorar algumas coisas, a começar pelo tamanho dos posts. E botar mais ilustrações, links e gráficos. Mais posts, menos recorrência, mais variedade, essas são as metas para 2010.



quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Balanço da década de "00"

Ainda fresca na memória a chegada do ano 2000 e a ameaça do bug do milênio, chegamos ao réveillon de 2010 terminando uma década de grandes, intensas e quase instantâneas mudanças. O que ficará para no futuro algum saudosista fazer um daqueles almanaques de décadas, que nos fazem ver como fomos toscos no passado? Tenho o dos anos 70, e olho para aquelas coisas que usamos, como calças boca-de-sino, cabelões, barbas e tecnologias hoje primitivas pensando em como aquilo existiu.


A chegada do novo milênio trouxe embutida a esperança de um mundo melhor, mas logo em 2001 o atentado às torres gêmeas de Nova Iorque trouxe mais guerras, que vão passar para os anos 10 sem solução. Foi a década do terrorismo, da guerra não convencional. Também se estabeleceu o intervencionismo militar, um retrocesso a eras coloniais. Ficou para a próxima década o embrião de novas formas de intervenção, como a de natureza ambiental. A globalização continuou, mas os seus riscos ficaram aparentes no espalhamento da crise econômica por vastas áreas do planeta.

Continuamos reféns do petróleo como matriz energética, mas ainda não aconteceu a grande crise de escassez. Grande parte do mundo tomou consciência da relação entre os estragos feitos pelo homem e as mudanças climáticas, e no apagar das luzes da década fez da COP-15 um marco na consciência ambiental.

O mundo ficou mais velho, pelo efeito conjunto da redução de natalidade com aumento da longevidade por melhores condições de saúde. A gripe suína trouxe a realidade da propagação rápida das doenças pelo mundo, pois as pessoas estão se deslocando muito mais. O genoma humano foi mapeado, e as células-tronco ainda não mostraram seu potencial. Continua sem cura a AIDS

A China passou o Japão no segundo lugar do ranking de maiores economias mundiais, e continua crescendo forte mesmo na crise econômica que marcou o fim da década. Os Estados Unidos perderam espaço tanto na economia como na influência no mundo. A esperança de mudança depositada na eleição de Barack Obama praticamente foi anulada no seu primeiro ano de mandato, com a pouca realização de ações diferenciais do seu governo. Começou a ser colocada em xeque a prevalência do lucro capitalista sobre as necessidades humanas de sobrevivência.

Lula chegou ao governo em 2003 depois de uma eleição disputadíssima, onde a esperança venceu o medo, cercado de desconfianças na sua capacidade de governar. Apesar da grave crise do mensalão em 2006, conseguiu reeleger-se e chega ao final da década como o presidente mais popular do Brasil, acumulando realizações que levaram o Brasil ao papel de potência e melhoraram as condições de vida do povo mais pobre, com 82% de avaliação positiva.

O movimento social construído pelas lutas desde o combate à ditadura foi praticamente todo silenciado pela cooptação e a direita dizimada pelo anacronismo. A reforma agrária avançou, mas a ritmo insuficiente. A corrupção ficou cada vez mais clara, ganhando até videos de flagrante, como os do Escândalo do Panetone de Brasília, que fechou magistralmente a década.

O museu de grandes novidades ganhou novo acervo: televisões com tubo de imagem, videocassete, fax, palmtop, e aparelhos de celular que só faziam telefonar. A telefonia celular se universalizou, a internet integrou instantaneamente os mais longínquos lugares e povos, a capacidade de armazenamento de informações ficou quase infinita e barata, e a velocidade de tudo aumentou. No fim da década tivemos o lançamento das TVs de LED, dos carros elétricos, do livro eletrônico, do GPS em praticamente tudo, da TV digital, do avião espacial Spaceship One e outras tecnologias que se popularizarão na próxima década.

Foi mais uma década onde a mediocridade humana se aprofundou, espalhando-se os "reality shows" e as celebridades efêmeras. Popularizou-se a intervenção estética majoritariamente fútil, com botox, silicone, plásticas, lipo, tatuagens e piercings nos corpos das pessoas em busca de diferenciação social. Também se consolidaram tribos afins de vampiros. Os nerds ampliaram sua área de influência com novas ferramentas de computação, games de gráficos e física muito realista e parafernálias como o Wii e Guitar Hero.

A grande mídia continua forte como determinante para os hábitos e escolhas das pessoas, mas teve que concorrer com as alternativas de blogs, twitter e redes sociais. Ficou mais difícil esconder as atrocidades dos ditadores com a profusão de celulares com câmeras e envio imediato de informação pela internet. Aumentou a influência de ideologias religiosas, e o conflito da ciência com o obscurantismo.

O Brasil foi Penta, o Mengão foi Hexa no futebol. O Brasil ganhou a disputa para a realização da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, mas continua com pífios resultados nos esportes olímpicos. O Pan-Americano de 2007 no Rio mostrou deficiências que precisarão ser corrigidas logo no início dos anos 10.

Em síntese : os anos 00 não serão lembrados na história como os melhores para um início de milênio no qual se apostaram tantas esperanças. Os avanços civilizatórios foram insuficientes para garantir um futuro com menos incertezas. Muita coisa foi empurrada com a barriga para ser resolvida nos anos 10. Que venha a nova década e que ao final dela estejamos por aqui para fazer um balanço melhor.



quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Anistia a imigrantes ilegais : 40 mil beneficiados


Termina hoje o prazo para os imigrantes irregulares pedirem enquadramento na anistia. Estima-se que 40 mil pessoas serão beneficiadas. O Brasil mostra a um mundo cada vez mais xenófobo que é possível globalizar a humanização e a solidariedade. O mesmo não acontece na França, país historicamente acolhedor de migrantes, onde o governo de direita de Sarkozi se recusa a regularizar a situação dos "sans-papiers".

Pelas ruas de vários bairros de Paris é possível ver uma grande quantidade de jovens oriundos das ex-colônias francesas perambulando sem emprego, fazendo biscates, vendendo muamba e praticando ilícitos pela falta de documentos para ter direitos na sociedade. De modo geral, o desemprego provocado pela crise acirra os ânimos dos "nativos" contra os migrantes, na busca de tomar-lhes os empregos.

Enquanto os movimentos de esquerda e humanistas pedem a legalização dos estrangeiros, ao extrema direita, onde se situa o partido Frente Nacional, de Jean-Marie Le Pen, que prega o fim da imigração de não-europeus e é contra a regularização.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Berlim : canteiro de obra é isso aí.

A Alemanha tem respeitável renome na engenharia e arquitetura e seus profissionais elaboraram boa parte das normas técnicas que usamos no Brasil. Além disso, o zelo com as obras está no respeito à sociedade, ao expor em enormes placas de obras todo o elenco de profissionais e contratados que serão os responsáveis pelo empreendimento, e na qualidade dos alojamentos e departamentos oferecidos aos operários e gestores da obra. Isso sem considerar a obcessão com a segurança dos trabalhadores e do ambiente em torno da obra.


A foto de cima mostra a placa da obra de reforma da Biblioteca Pública de Berlim com os responsáveis técnicos. A de baixo, mostra os módulos de alojamentos e salas administrativas do empreendimento. Muito diferente das improvisações que nos acostumamos a ver por aqui.

Europa : as peneiras da segurança



O mais recente atentado terrorista teve como protagonista um nigeriano que saiu de Amsterdam, na Holanda, em avião de empresa americana, rumo a Detroit, nos Estados Unidos. Felizmente não houve maiores conseqüências, mas poderia ter sido uma desgraça. Como é que isso acontece, apesar das rigorosas medidas de segurança adotadas em todo o mundo após o 11 de setembro de 2001? Pelo visto, quem está preocupado de verdade com o terrorismo é o americano.


O fato é que há relaxamento, e esse é maior à medida que não exista a noção do perigo. Duvido que um aeroporto holandês tenha tanto critério quanto um inglês, que teve atentado no metrô em Londres. Há aeroportos onde até os sapatos, casacos e chapéus precisam ser retirados, mesmo que tudo passe pelo detetor de metais. Em outros, praticamente nada é exigido, exceto passar no detetor e a mala no raios-x.

Nos lugares de grande concentração as providências são "pro-forma". Andei por toda parte com mochila cheia de coisas, e encontrei em quase todos os museus algum tipo de vistoria, mas todas se limitaram a abrir apenas um ou outro bolso e passar adiante. Assim foi no Museu de História Natural, no Museu da Torre, na Tower Bridge, no Museu de Albert e Victoria, em Londres, no Musée de L'Armée, na Torre Eiffel, no Louvre em Paris e no Palácio de Versalhes. Já no Mauermuseum, em Berlim, todas as bolsas e objetos são obrigatoriamente deixados num malex.

O único lugar mais criterioso onde vimos ação anti-bomba foi na grande roda-gigante londrina, o London Eye (foto). Toda vez que os ocupantes de um casulo saem, e antes da reocupação, uma equipe vasculha o local atrás de objetos deixados ou colocados sob os bancos. Mesmo assim a revista a bolsas foi feita de forma precária.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Bancos públicos superam privados em ativos

O nefasto oligopólio bancário privado brasileiro, que tem em Henrique Meireles o seu líder máximo à frente do Banco Central, apostou na crise para derrotar Lula e em continuar ganhando sem risco mamando juros da dívida pública, enquanto o governo botou os seus bancos para dar crédito e financiar o consumo para alavancar a saída da crise. Ganhou a estratégia do governo, mas não abalou em nada a vida mansa dos bancos privados, que simplesmente não moveram uma palha para entrar na concorrência, apostando nos altos "spreads", tarifas e financiamento da dívida pública.


Quando Lula mandou o BB emprestar, e o tucanato privatista resistiu, teve que trocar a alta direção do banco para haver afinamento com as políticas governamentais. As vozes do mercado vieram em defesa do "BB de mercado", que vinha seguindo o caminho da privatização. Apostaram na derrocada e se deram mal. BB, CEF, BASA, BNB, BNDES passaram a frente dos bancos privados nacionais em ativos e em lucros, fazendo o que banco tem que fazer : emprestando dinheiro. Mesmo assim, em 2009 o juro médio cobrado no cheque especial subiu em relação a 2008, mesmo com a queda da taxa básica de juros (SELIC).

Tomara que o Meireles concorra a qualquer coisa e tenha que deixar o BACEN em abril, e não nomeiem outro tucano no seu lugar, para termos finalmente a esperança de uma queda consistente dos juros até o fim do governo Lula. Gostaria de ver essa banqueirada inútil tendo que correr atrás do mercado já dominado pelo setor público, mas isso é praticamente impossível, porque controlam o governo por fora.

Outra coisa: a FIESP e outras entidades empresariais ligadas ao setor produtivo vivem reclamando dos bancos, das taxas de juros, dos altos "spreads". Por que não montam seus próprios bancos para o financiamento industrial, fugindo aos agiotas de carteirinha do mercado? Ainda não entenderam que os bancos privados que aí estão não são solução "de mercado" para os seus problemas, e que precisam internalizar a função de financiamento?

Saudades dos tempos que a gente tinha como bandeira a "estatização do sistema financeiro sob controle dos trabalhadores", lá pelos anos 80, já tendo a compreensão do papel predatório dos banqueiros, que em nada contribuíam para a melhoria das condições de vida dos brasileiros. Se os bancos privados não servem ao setor produtivo nem à população, para que sustentá-los com o nosso suor?


DEMO: Panetones em Brasília, Cidade da Música no Rio.

Fiquei surpreso ao ver uma pesquisa recente sobre intenções de votos para governador do Rio em 2010, constando o nome do ex-prefeito carioca César Maia (DEMO), pai do presidente nacional desse partido. Isso foi por vê-lo ainda impune, livre para ser candidato a alguma coisa, depois do escândalo da construção da Cidade da Música, um elefante branco que pousou no principal cruzamento da Barra da Tijuca, no Rio. A obra, orçada em 2002 em cerca de R$ 80 milhões, pode chegar a custar cerca de R$ 670 milhões para ser concluída.


Em janeiro de 2009 a Câmara de Vereadores do Rio instalou uma CPI para apurar as irregularidades nos contratos, e apurou que cerca de R$ 114 milhões foram gastos em pagamentos de reajustes por causa de várias paralisações por falta de recursos. O pagamento ao arquiteto autor do projeto teria sido feito em dobro. De qualquer forma, é muito estranho que uma obra de construção tenha seu valor multiplicado por 8 vezes em 8 anos.

O pior é que Maia planejava arrendar a Cidade da Música por um valor equivalente a 0,2% do valor gasto. E a coisa demorou tanto, que o Theatro Municipal fez 100 anos, foi totalmente remodelado e dificilmente a Orquestra Sinfônica Brasileira sairá de lá para ir para um prédio inadequado, enterrando de vez a finalidade maior da Cidade da Música.

Originalmente, a Cidade da Música se chamaria Roberto Marinho, cuja fundação rachava a conta da obra com a prefeitura de Cesar Maia. Vendo que o descalabro estava grande, pediu à prefeitura para tirar o nome do patriarca dos Marinho da obra, e passou a fulminar César Maia e o DEMO. Ou alguém acha que se a Fundação Roberto Marinho não tivesse sido golpeada pelo DEMO seus apresentadores estariam apresentando qualquer matéria alusiva aos panetones brasilienses sem o título "o escândalo do mensalão do DEM", como fazem a cada noticiário?

O relatório da CPI será enviado ao Ministério Público pedindo o indiciamento de César Maia, vários secretários, e exigindo o ressarcimento dos pagamentos abusivos.

Brasil : crescer ou não crescer, eis a questão.

Ontem vi na TV, tarde da noite, uma entrevista com o presidente do quase extinto DEM, falando das perspectivas para 2010. Além de dizer que o discurso ético do partido continuaria, apesar dos panetones do governo do DF, teceu críticas ao atual governo em dois pontos relevantes:

- não acredita em crescimento sustentável de 5% ao ano, pois logo viria a inflação pela exaustão da produção interna e pela falta de investimentos em infra-estrutura que garantam energia, por exemplo;
- os gastos públicos estão aumentando, e será necessária uma política de austeridade para contê-los e para carrear mais recursos para investimentos.

Sobre as críticas ao crescimento, faltou dizer (e o Meireles sabe mas fica na dele para manter os juros altos) que o mundo inteiro está com máquinas paradas esperando alguém mandar produzir, e que importar está muito barato, logo não haveria escassez mesmo com aumento de consumo e de demanda por bens de capital, mantendo os preços em patamares próximos dos atuais mesmo com o crescimento acelerado. As obras de infra-estrutura do PAC em energias, portos, aeroportos, ferrovias e estradas ficarão prontas por volta de 2012, assegurando a continuidade do crescimento, e com o aumento do PIB e da arrecadação, novos investimentos poderão ser feitos.

Quanto ao desequilíbrio nos gastos públicos, até outro dia nossa macroeconomia tinha uma exacerbada preocupação com o Risco Brasil, que mediria a sensibilidade do investidor estrangeiro ao risco de aplicar aqui, e esse índice se inflava se houvesse dúvidas na capacidade do país honrar compromissos. Hoje o risco anda na faixa dos 200 pontos, o país tem indicação para investimento pelas principais agências de medição de risco, cobra IOF nas operações com capital estrangeiro e mesmo assim está chegando muito dinheiro de fora por aqui. Parece que o discurso das nossas aves agourentas (ou de rapina mesmo) da oposição não bate com o que os gringos pensam, e olha que eles não jogam dinheiro fora nem gostam de correr riscos.

Trocando em miúdos: se o DEMo e seus aliados tucanos chegarem ao poder, teremos demissões em massa e sucateamento da máquina pública, mais bandalheira de privatizações e fim dos programas sociais que melhoraram a vida de milhões de brasileiros. E ainda querem fazer discurso sobre ética...

domingo, 27 de dezembro de 2009

CEF troca terceirizados por funcionários

Segundo o Correio Braziliense, a Caixa admitiu 10.191 concursados para substituir funcionários em situação irregular, atendendo a determinação do Ministério Público do Trabalho. Além de criar empregos de melhor qualidade, a substituição elimina os caríssimos contratos de terceirização que, em geral, dão margens a suspeições, pois nos últimos tempos pululam as denúncias de formação de caixa-dois de governos e empresas públicas a partir de contratos superfaturados. Parte da massa do panetone do Arruda vem de contratos na área de informática.

A substituição de empregados precarizados por efetivos vem sendo feita em todo o governo, daí a revolta dos neoliberais com o crescimento da despesa com pessoal. Esquecem de olhar para a redução do lado dos contratos de terceirização. A Caixa é um exemplo a ser seguido pelo Banco do Brasil, onde a terceirização é forte, principalmente na área de tecnologia.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Rio : primeiro acabar com o fuzil, depois com a droga

Interessante a entrevista do Secretário de Segurança do Rio, José Beltrame, onde deixa clara a estratégia de ocupação das áreas dominadas pelo tráfico e pelas milícias. Na sua visão, narcotráfico tem em todo lugar do mundo, mas no Rio é singular, porque o crime organizado em facções tem ideologia e atua como força militar em guerra, por isso é mais importante a retomada dos territórios e a destruição das organizações armadas que o combate à droga em si. Vale a pena ler.


Isso confirma uma informação que tive do pessoal de imprensa que faz a cobertura das ações da polícia nos conflitos com traficantes, que dizia que mesmo nas áreas já "pacificadas", com UPP e tudo, ainda há ações do tráfico, na clandestinidade, sem a demonstração acintosa de poder paralelo que nos acostumamos a ver nos noticiários. Perguntado sobre se a ação da polícia é do tipo "enxuga-gelo", já que libera-se uma área do domínio do crime e aparecem outras, o secretário diz que o que fazem "é melhor que nada", passando a impressão de impotência apesar da boa vontade.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

2009 - O capitalismo em xeque

A grande crise econômica que desembocou em 2009 acelerou processos que marcarão a humanidade nos próximos anos. A exaustão de recursos do planeta está exigindo uma radical mudança de postura dos humanos que nele habitam e dele necessitam para viver. A mais importante mudança está no deslocamento da direção do mundo pelo capital, pelo mercado, para o atendimento às necessidades da maioria. Os sintomas de descontentamento e as ações para a mudança são sutis, mas estão presentes na conjuntura. Forças foram acumuladas, mas ainda são insuficientes para derrotar o sistema caótico que nos leva à destruição. Algumas coisas, no entanto, começam a ficar mais visíveis.


Um indicativo está na consagração de Lula como liderança de alcance mundial, em 2009. Os prêmios e homenagens que recebeu não têm, evidentemente, o caráter bajulatório do Nobel dado a Obama praticamente sem ter dito a que veio. Ficou evidenciada a origem simples de Lula, e a sua trajetória de homem do povo, de lutador pelo coletivo, contrariando toda a lógica do capital que lhe reservaria um lugar de mero espectador entre as massas exploradas. Em meio à crise mundial, Lula representa para muitos a vitória de um modelo econômico onde as políticas sociais foram ampliadas e levaram o país à rápida recuperação, enquanto os que privilegiaram o socorro ao capital têm seus problemas sociais agravados pelo alto desemprego e queda abrupta dos padrões de consumo.

Enxergam o Lula idealizado, do combate à fome, da palavra pela sustentabilidade e pela oportunidade, que fala grosso com os poderosos, de uma forma diferente que nós vemos por aqui ao descermos ao realismo da sordidez política provinciana local. Precisam de um ícone mundial para fazer visível uma contraposição às verdades absolutas do cerne do capital. Apostam no que Lula simbolizaria de melhor para botar na vitrine, tornando desprezíveis seus defeitos diante de um objetivo muito maior. Esse Lula inflado, que tem a cara dos pobres mas que não prega a destruição dos ricos, deverá transcender ao seu papel nacional e conseguir atuar como mediador internacional mesmo fora do mandato presidencial, talvez chegando à ONU.

Outro fato que chamou a atenção foi a pesada manifestação por uma nova postura planetária durante a COP 15. Durante duas semanas milhares de manifestantes, em Copenhagen e por todo o mundo, pediram um novo mundo, mais justo, mais sustentável, menos consumista. A mensagem ecoou pelo planeta, e encontrou na fábrica do consumismo, a China, e no estilo de vida consumista norte-americano, infelizmente copiado por aqui, suas maiores barreiras. As lideranças desses países mostraram claramente que não cederão espaços facilmente. Obama e Jintao sairam da COP 15 como vilões, não se comprometendo com nenhuma meta de redução de emissões.

O mundo não será mais o mesmo após o confronto da COP-15, que deixou mais clara a estrita relação entre sustentabilidade e humanização, colocando em polos diferentes o consumismo desenfreado de poucos e o atendimento às necessidades básicas da maioria. Por trás dos números de temperaturas e emissões está a luta dos países mais pobres em tirar seus povos da miséria, e a insistência na destruição dos recursos naturais para atender aos luxos que o marketing vende como necessidades. Não se configura uma reedição da luta de classes descrita por Marx, mas um conflito por redistribuição, pela criação de oportunidades para todos, como Lula falou no seu aplaudido discurso no encerramento da conferência. A tolerância com a acumulação do capital está em xeque.

Outros indicadores recentes estão na batalha americana por um serviço de saúde que inclua socialmente cerca de 36 milhões de pessoas que ficam à míngua quando adoecem. Essa bandeira socializante, da extensão da saúde a todos (e ainda ficarão 20 milhões de fora), foi um dos diferenciais que elegeram Obama em 2008, um recado dado por uma fatia da sociedade que foge à exclusão do capital no seio do império do consumo. Hoje, o papa Bento XVI, falando aos milhões de católicos na missa de natal, pediu que as pessoas tenham uma vida mais simples. Também disse que a maior crise de hoje não é econômica, é moral. Isso tem a ver com a tendência de mudança de posturas que dominará os próximos anos.

Mais genéricos, menos personalização. Mais padronização, menos sofisticação. Mais soluções coletivas, menos individuais. Mais eficiência, menos desperdício. Mais igualdade, menos egoísmo. Mais visão global, menos local. Mais "para todos" e menos "para você". Essas tendências já estão tomando o cotidiano nas áreas secundárias do modelo dominante, na adesão espontânea de pessoas e organizações a conceitos de sustentabilidade e justiça social, mas dificilmente mudarão o essencial do sistema capitalista, a não ser através do conflito, do combate cotidiano e radical aos valores que levaram o mundo à beira da exaustão e insistem em trilhar o irracional caminho do colapso e da barbárie. Esse é o combate que deverá ser feito em escala planetária, acima de governos e modelos econômicos, em 2010 e além.

O lucro precisa deixar de ser o indutor da civilização humana. Isso ficou mais claro em 2009, mas ainda é insuficiente para a criação de uma consciência que permita a superação do atual modelo civilizatório para algo muito melhor, antes que as guerras por recursos e a barbárie da luta pela sobrevivência enterrem de vez o nosso futuro. Que em 2010 tenhamos sucesso nas nossas lutas para elevar a qualidade das nossas vidas como um todo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Le Monde elege Lula "Homem do Ano"

Depois de eleito pelo jornal espanhol El Pais como "Personagem do ano de 2009" e de ter recebido na Inglaterra um importante prêmio pela sua ação na redução da miséria no Brasil e considerado o "Estadista do Ano", o presidente Lula agora foi escolhido pelo jornal francês Le Monde como o "Homem do Ano". Parece até alguns artistas e jogadores de futebol, que têm reconhecimento pelo seu trabalho o exterior, mas no Brasil vivem sob fogo cerrado.

Barack Obama, que ganhou o Nobel mais por bajulação dos noruegueses que por mérito, não teve nenhum reconhecimento desse tipo. Nunca na história deste país um presidente teve tal reconhecimento e projeção como liderança mundial, com bom resultado para a imagem do Brasil. Nem Juscelino (que só fez Brasília) e Getúlio Vargas, que foi ditador fascista na época que a direita estava em alta, tiveram tal reconhecimento. E "o cara" só fala português, para choro geral das viúvas do ex-presidente poliglota da Sorbonne...

Natal : mais solidariedade, menos marketing

Acho que a melhor iniciativa visando o resgate do Natal como festa humana e solidária foi a campanha "Natal sem Fome", iniciada em 1994 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Ao afirmar a existência da fome e da exclusão no Brasil, e alertar para a desumanização das pessoas que sequer teriam o que comer no Natal, enquanto os mais abastados faziam a orgia de consumo, fez com que muita gente abrisse os olhos para a realidade cruel da desigualdade social e doassem alimentos. Pena que a grande maioria das pessoas colaborem como se pagassem um pedágio rumo ao paraíso, por arrependimento ou culpa, e que o marketing tenha se apossado da iniciativa para angariar ganhos de imagem a empresas e pessoas que, muitas vezes, são as responsáveis pela miséria.

Vivi festas de Natal na infância onde se comemorava o nascimento de Jesus e Papai Noel realmente existia, e tudo era muito misterioso e meio mágico. Minha família, muito católica, tinha rituais que começavam com a montagem de uma enorme, enfeitada e iluminada árvore de Natal na sala da casa dos meus avós maternos, onde se fazia a grande festa anual, logo após o feriado de Finados. Nunca antes, pois era pecado, e se desmontava até o dia de Reis, em janeiro, pois se passasse também era pecado. Os balagandãs, coloridos e em diversos formatos, eram de vidro, e as lâmpadas colocadas uma a uma. Também tinha o presépio, com figuras em cerâmica que a criançada gostava de brincar, e as cestas natalinas que ficavam sobre um grande armário na sala onde havia a grande concentração da festa.

Dias antes da festa meu avô comprava um peru vivo, que ficava no fundo do quintal, onde era torturado pela criançada que assoviava para fazê-lo cantar, o tempo todo, irritando os mais velhos e a vizinhança. Até nos diziam que o bicho poderia morrer se a gente ficasse provocando, ou que alguém poderia roubar o animal porque saberiam que estaria ali pelo barulho. Na véspera da festa era adicionada cachaça na água, e o bicho ficava doidão, sorumbático, esperando pela execução no dia seguinte, que era assistida por todos os pequenos com muita curiosidade. Paralelamente, minha avó coordenava uma equipe de tias, irmãs, primas e empregadas que faziam os bom-bocados, queijadinhas, fios de ovos e rabanadas que enfeitariam a mesa da ceia.

Eu, meus irmãos e primos, que totalizavam cerca de 12, dependendo da época (toda hora nascia mais um), fazíamos as listinhas de pedidos de presentes e as entregávamos aos nossos pais. E criava-se a expectativa, que só terminava na madrugada do dia 25 de dezembro, quando meu avô abria a porta da sala de estar, que era lacrada o tempo todo, e de lá tirava os sacos brancos de pano com os nomes de cada um dos presentes à festa. Ao abri-los, vinham as alegrias pelo que recebemos e as frustrações pelo que pedimos e não ganhamos (as listas eram enormes). Se vinha muita roupa e pouco brinquedo era ruim. Imediatamente os pacotes eram abertos e brincávamos a madrugada toda, enquanto os adultos, depois de uma reza à meia-noite, bebiam e comiam à vontade.

Com o tempo, íamos descobrindo que Papai Noel não existia e a festa perdia muito do sentido, pois o mundo adulto não tinha muitas fantasias. Pairava no ar uma obrigatoriedade do comparecimento, imposta pelo conservadorismo dos meus avós, sendo uma desfeita grave não ir lá na véspera de Natal. Essa obrigatoriedade vinha junto com a religião, da qual alguns também começaram a se afastar com o tempo e maior esclarecimento. Cada um tinha que ir às outras festas antes, e bater o ponto lá antes da meia-noite. Aquela festa, que enquanto crianças achávamos mágica, era uma camisa-de-força para os adultos. E foi-se esvaziando à medida que as crianças chegavam à adolescência. Com a morte do meu avô em 1977, que era o patriarca, começou o cada-um-por-si.

Do Natal obrigatório em família passamos ao Natal com os mais chegados, amigos e parentes, mesmo que boa parte não tivesse mais qualquer convicção cristã, nem seguisse os seus rituais, virando apenas um momento de encontro de pessoas queridas, favorecido pelo feriado. Comer e beber muito e trocar presentes em amigos-ocultos, sem reza nem Missa do Galo passaram a ser o novo formato. Passou a ser um encontro de fim de ano para reencontros, avaliações e perspectivas. Esse é o melhor formato, que pratico até hoje, especialmente em Brasília, que é terra de migrantes temporários sem raízes, e a gente junta um grupo de desgarrados e faz a confraternização.

Veio então o Natal corporativo, aquela aberração onde se obriga ao convívio e às brincadeiras um bando de gente que muitas vezes não se topam, nas festinhas do patrão. Quem não for, fica mal visto. Nos últimos tempos o pessoal de Recursos Humanos tem se aprimorado muito em fazer eventos espetaculosos, pseudo-solidários (exigem doações para os pobres mas excluem das festas o pessoal de apoio, contratados, estagiários, etc) e principalmente políticos, abertos à bajulação dos chefes e à fofoca pós-evento.

Hoje a gente vê um marketing exacerbado sobre as compras de Natal, com forte estímulo ao endividamento que penalizará as pessoas quando entrar janeiro e tiver que pagar, além do cartão e carnês, a matrícula e material escolar dos filhos, IPVA, IPTU, e mais uma porção de despesas sazonais que acontecem nessa época, vão até o carnaval e rendem para o resto do ano as bolas de neve de juros de cheques especiais e empréstimos. A irracionalidade chega a ponto de crianças absolutamente miseráveis preferirem ganhar um brinquedo barato a um prato de comida.

O sentido de fraternidade da festa já era, para a grande maioria, e passa prevalecer o sentido consumista, não escapando nem a ceia, que de santa passou a significar orgia gastronômica para os que podem mais adquirirem pecaminosas calorias. Muitas pessoas ficam deprimidas com isso, e sequer participam de qualquer evento. Creio que uma pesquisa entre crianças perguntando pelo significado do Natal teria como um dos resultados mais freqüentes tratar-se do aniversário do Papai Noel ou dia de ganhar presentes. A comemoração do nascimento de Cristo está sendo esquecida como motivação principal para a festa dos cristãos, mesmo entre eles.