sábado, 12 de junho de 2021

Memes & Twites 11/06/21

 





















sexta-feira, 11 de junho de 2021

Folha : "Viva a barbárie"

 Bernardo Carvalho, Folha de SP - 6/6/21


*VIVA A BARBÁRIE*


```Numa entrevista recente ao jornal Libération, em resposta a uma pergunta sobre o confinamento na pandemia, o lendário diretor de teatro inglês Peter Brook, 95, relembrou os bombardeios de Londres durante a Segunda Guerra. Ao toque dos alarmes antiaéreos, as pessoas corriam para os abrigos subterrâneos, onde ficavam confinadas até soar de novo a sirene que as liberava, às vezes oito horas depois.


“Quando saíamos, éramos engolfados pela destruição, a paisagem mais cotidiana já não existia, e nos dávamos conta de que a sirene tinha nos salvado.”


No Brasil nós nos recusamos a ouvir a sirene. E, mesmo quando a ouvimos, não somos capazes de reconhecer a destruição ao sair do abrigo, simplesmente porque continuamos vivos. E é só o que conta.


A indiferença diz muito sobre nossa relação com o que é público.


Bolsonaro se elegeu com uma ideia da coisa pública baseada na mesquinharia de sua experiência pessoal. Sua eleição evidenciava uma impossibilidade de nação e supunha um suicídio (nosso, é óbvio): cada um por si (e todos contra todos).


Desde o início o presidente deixou claro (até para quem agora alega que não sabia do que ele estava falando) que não pretendia construir nada. A ideia não era erguer mas demolir. E o método, cuja simplicidade cristalina ele já havia aventado bem antes de se candidatar à Presidência, era a guerra civil.


Qual o sonho bolsonarista? Implodir o Estado e com ele o Estado de Direito, o controle de armas, o meio ambiente, as multas, o SUS, a educação pública, a Justiça, a liberdade de imprensa. Auxiliado por um exército de arrivistas ressentidos em busca de um lugar ao sol (ao qual a própria mediocridade até então não lhes havia permitido o acesso), o presidente conclamou uma cruzada contra a inteligência, a competência, as leis e o bem comum.


Seria absolutamente contraditório (e até absurdo) que, durante uma pandemia, ele fosse a favor da ciência, da vacinação ou de medidas que protegessem a população de um vírus mortal.


Foda-se o outro. A arma no lugar do voto. O objetivo é sabotar a própria possibilidade de República.


É assustador que uma parcela da população se sinta representada por uma escória mafiosa no poder. É repugnante como essa escória se retrai sempre que se vê confrontada com contratempos e desafios, voltando atrás por pura tática oportunista, recorrendo à dissimulação e à mentira sem-vergonha, para em seguida retomar seus objetivos.


Mas é, acima de tudo, inconcebível que aliados de primeira hora, entre juízes, militares, banqueiros, empresários, economistas, políticos, procuradores, policiais e até médicos, continuem se prestando a esse jogo de manipulação diante de uma ameaça de proporções bíblicas. A crise da saúde pública deveria bastar para fazê-los ouvir as sirenes. Só que não.


Há limites a serem impostos por lei ao oportunismo corporativo e individualista para que uma sociedade possa existir e prosperar. E nós ultrapassamos todos eles, pelas mãos de Bolsonaro. Só a hipocrisia e a má-fé ainda nos impedem de gritar abertamente, lambuzados no próprio sangue: “Viva a barbárie!”


A suposta estupidez do presidente é na verdade resultado de um longo trabalho de observação e reconhecimento intuitivo das fragilidades e contradições da democracia brasileira, comungando com pares ressentidos, incompetentes e pulhas. A orquestração destes foi o ofício que essa caricatura perversa aprendeu em suas passagens aparentemente estéreis pelo Exército e pelo Congresso. Sua estratégia é o incêndio, insuflar a sociedade contra si mesma.


A comparação com um vírus, assumida em tom de provocação e galhofa pelo próprio, não é esdrúxula. Bolsonaro sabe o material humano que tem nas mãos.


Londres manteve os teatros abertos durante a guerra. Na entrevista ao Libération, Peter Brook contou que quando as sirenes antiaéreas tocavam no início de uma representação, os espectadores eram obrigados a permanecer na sala até o dia seguinte. Como sempre havia atores profissionais e amadores entre o público, eles subiam uns depois dos outros ao palco para cantar e improvisar ao longo da noite.


“Foi assim que, em condições terríveis, nasceu um novo teatro. As condições eram propícias para que os melhores momentos do balé, da ópera e do teatro inglês pudessem eclodir”, disse o diretor.


É esse sentido de público e de sociedade que o bolsonarismo tenta perverter. A enganação do “cada um por si”, sob a capa da cartilha neoliberal, equivale no final das contas à morte de todos.```

Memes & Twites 10/06/21

 


















quinta-feira, 10 de junho de 2021

Povo peruano derrota os Fujimori

 


A cobertura da mídia brasileira sobre as eleições no Peru deixa a desejar em vários aspectos, quase todos eles ligados ao favoritismo em favor da campanha de Keiko Fujimori, a candidata da direita e filha do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000).

As preferências ideológicas da nossa imprensa tradicional acabaram entrando em colapso quando esta – como muitos outros grandes meios da América Latina – se viram forçadas a defender a representante de um clã conhecido por seu histórico de corrupção e violações aos direitos humanos, para impedir a vitória do representante da esquerda, Pedro Castillo, que promove um discurso de reforças o papel do Estado na economia e aumentar significativamente o orçamento em serviços públicos de saúde, educação e transporte, entre outros.

Ficar do lado de uma candidata com o sobrenome Fujimori foi uma tarefa nada fácil, já que é difícil apagar o passado de um ex-ditador. Mas a imprensa aceitou o desafio. Apesar da extensa ficha corrida de Alberto Fujimori, a maioria dos grandes meios de comunicação no Brasil decidiu resumir o seu perfil a algo menos monstruoso. Assim, ele passou a ser mencionado somente como “um ex-presidente condenado por crimes de corrupção”.

Porém, a verdade completa sobre o ex-ditador é muito mais assustadora. Fujimori foi preso em novembro de 2005, quando chegou ao Chile proveniente de Tóquio, cidade onde se manteve exilado por 5 anos. A detenção foi realizada pela Interpol, devido a denúncias que ele enfrentava por crimes de tortura, assassinato, desaparições e perseguições de opositores durante o seu regime.

Após dois anos de tramitação do processo, o ex-ditador foi extraditado e retornou ao Peru em setembro de 2007. Em dezembro do mesmo ano, ele recebeu sua primeira condenação, por utilizar a Polícia Nacional peruana em benefício próprio, ao ordenar uma diligência policial na casa do seu antigo assessor Vladimiro Montesinos – ambos eram acusados de corrupção, desvio de verbas e lavagem de dinheiro. Sua pena, desta vez, foi de somente 6 anos de prisão.

Em 2009, houve mais duas condenações. A primeira é relacionada a casos de direitos humanos, pelos massacres de La Cantuta e Barrios Altos, nos quais diferentes figuras ligas à oposição ao seu governo foram vítimas de crimes de homicídio qualificado, lesões graves e sequestro agravado. Esta foi a maior pena que ele recebeu até hoje: 25 anos de presídio.

A segunda condenação de 2009 tinha relação com um caso de corrupção, pelos desvios de verbas realizados em cumplicidade com seu ex-assessor Vladimiro Montesinos, o que rendeu uma pena de 7,5 anos.

Em 2015, uma nova sentença, desta vez por corrupção: o desvio de 122 milhões de soles (cerca de 157 milhões de reais) das Forças Armadas do país, em um dos maiores casos de corrupção da história do Peru. A sentença foi de 8 anos de cadeia.

Finalmente, em 2020, Fujimori recebeu sua quinta e última condenação, pelo menos até agora, por trabalhos de espionagem política e compra de apoio parlamentar. Outra pena de 6 anos de prisão, totalizando 52 anos e meio de presídio – até o momento, ele já cumpriu 13 anos e meio, em uma cela especial, no edifício do DIROES (Departamento de Operações Especiais), entidade ligada à Polícia Nacional do Peru.

Ademais, Fujimori ainda pode sofrer mais uma condenação por violação dos direitos humanos, caso organizações sociais do Peru consigam retomar o processo que o responsabiliza pela esterilização forçada de mais de 5 mil mulheres durante os anos de 1992 e 1996, todas elas moradoras de zonas rurais, de comunidades indígenas ou de favelas de Lima e da região metropolitana da capital – o caso foi arquivado em 2016 mas há entidades que defendem uma nova investigação dos fatos.

Claro que os critérios jornalísticos não obrigam a citar toda essa ficha corrida cada vez que o nome de Alberto Fujimori é lembrando, mas tampouco se pode considerar aceitável reduzi-lo apenas a um “condenado por crimes de corrupção”. Até porque uma definição mais completa nem exige tantos caracteres a mais, ou segundo a mais de programa, basta dizer que ele é um “condenado por crimes de corrupção e violações aos direitos humanos”.

Aliás, também chama a atenção que, muitas vezes, a imprensa resume os problemas dos Fujimori com a justiça a uma visão parcializada do histórico do patriarca, ignorando que a própria filha e candidata tem os seus problemas.

Keiko Fujimori é acusada de corrupção que nem é tão alheio ao Brasil, já que se refere a propinas que ela e seu partido, Fuerza Pública, teriam recebido da empreiteira Odebrecht para garantir a vantagem da mesma em licitações no país. A filha do ex-ditador chegou a ter sua prisão preventiva decretada em três oportunidades: entre os anos de 2018 e 2020, ela passou ao menos 15 meses atrás das grades. Quase nada desse histórico é mencionado pelos jornalões e grandes emissoras de televisão e rádio do Brasil.

Outro integrante da família com a ficha manchada é Kenji Fujimori, irmão de Keiko e, claro, também filho de Alberto. Este ex-deputado ainda não tem nenhuma condenação definitiva, mas responde processos por compra de votos parlamentares em 2018 – causa pela qual sofreu sua única punição, que foi apenas política: a perda do seu cargo no Congresso peruano – e pela posse de mais de 100 quilos de cocaína encontrados em uma vistoria policial a empresas de sua propriedade, no ano de 2013.



Bolsonaro e a extrema direita perdem o Peru

 


Veja aqui a matéria.

Memes & Twites 09/06/21