sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Flamengo : clipe do hino em inglês

Vale a pena conferir o clipe do músico Leandrade, "Flamengo Eternally", onde adapta e verte para o inglês o hino do Flamengo de autoria de Lamartine Babo, misturando samba, blues e funk, com um resultado muito bom, em especial para "the red n' black nation". Vai fazer sucesso. Veja em http://www.youtube.com/watch?v=weL5SO6i9xI. A maior torcida do mundo merece.

Emir Sader : As ilusões da esquerda

Gostei muito do artigo "As ilusões da esquerda", do sociólogo Emir Sader. Detona o catatrofismo de setores de esquerda cuja visão de história é mecânica, a partir de leituras equivocadas de Marx. Para essas visões, a recente crise econômica é o velório do capitalismo, que será sucedido pelo socialismo como se fosse obrigatória essas substituição, quase de forma mágica. E ainda caracterizam o governo de Lula como apenas mais um do neoliberalismo, e que deve ser radicalmente combatido, mais até que os da direita, porque estaria enganando a esquerda e dificultando a marcha inexorável da história rumo ao socialismo. Esse discurso sectário acaba servindo de reforço à crítica de terra arrasada da direita.

Vale a pena ler o artigo no blog de Sader . E a entrevista dele no JB. No início de 2009 lançou o livro "A Nova Toupeira: Os Caminhos da Esquerda Latino-Americana", onde analisa as novas tendências políticas após a derrota das experiências neoberais. Não li, mas, pelo conjunto da obra, deve valer a pena.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Taxa assistencial : denúncia de centrais sindicais à OIT

CUT, Força Sindical e outras centrais sindicais brasileiras apresentarão à Organização Internacional do Trabalho (OIT), da ONU, denúncia de interferência indevida do Ministério Público do Trabalho na organização sindical. O MPT tem se colocado contra a cobrança da chamada "taxa assistencial" os trabalhadores não-sindicalizados. Esse valor normalmente é debatido e votado em assembléias a título de cobrir custos com as campanhas salariais. O MPT alega que o trabalhador não-sindicalizado não pode pagar algo imposto por uma entidade à qual não está filiado.

A sustentação de entidades sindicais livres passa pela identificação dos trabalhadores com a disposição política das suas representações em defender seus interesses. Nenhuma organização sobrevive sem receitas maiores que as despesas, daí ser obrigação do filiado pagar mensalidades para sustentar o seu sindicato, algo da ordem de 1% do salário ou algum valor fixo estipulado em assembléia. Além disso, os sindicatos de base recebem 60% do valor da Contribuição Sindical (antigo Imposto Sindical) paga por todos os trabalhadores de sua base, filiados ou não. Esse imposto é cobrado sobre a folha salarial todo mes de março e equivalente a um dia de trabalho.

Já a Taxa Assistencial é cobrada dos trabalhadores ao final das campanhas salariais, como forma de recompor os cofres dos sindicatos após os grandes gastos da mobilização. Sindicatos bem administrados e identificados com os interesses dos trabalhadores conseguem empatar os gastos correntes mensais com as receitas de mensalidades e fazer da Contribuição Sindical um recurso para investimentos ou campanhas.

Dependendo da categoria e da qualidadade do sindicato, o custo de uma campanha salarial com a realização de congressos, propaganda, negociações e apoio a piquetes pode representar um impacto muito alto nas finanças sindicais, não cobertos pelas contribuições mensais, o que exige aporte de mais recursos e justifica a Taxa Assistencial. Uma grande greve duradoura pode falir um sindicato.

O sucesso na conquista da pauta de reivindicações não deve ser atrelado à contribuição extra, já que há situações onde a conjuntura não permite grandes ganhos, mesmo com uma mobilização forte e radicalizada. Já vi greves derrotadas onde o reconhecimento da categoria com o empenho da entidade trouxe grandes doações. O contrário também acontece, quando campanhas onde há "ganhos reais" não satisfazem os trabalhadores, que entendem que poderiam conquistar mais se a direção sindical se identificasse mais com os seus objetivos. O resultado é a romaria que fazem aos sindicatos para entregar as cartas de negação das contribuições.

Sindicatos dirigidos por oportunistas, carreiristas em busca de estabilidade e liberação do trabalho e por lacaios dos patrões ou do governo não conseguem manter uma grande quantidade de filiados, desequilibrando as contas, mesmo porque criam mordomias para os dirigentes que aumentam os custos. Como essas entidades inúteis para as categorias também não conseguem fazer grandes mobilizações, não têm respaldo político para convencer os trabalhadores a pagar a Taxa Assistencial, daí buscarem a imposição como forma de garantir o recurso desatrelado da luta sindical.

No caso dos bancários, as assembléias normalmente aprovam percentuais de desconto a título de fortalecer as entidades, aplicáveis a filiados ou não, e dão um prazo para que os trabalhadores manifestem seu desacordo com a contribuição, o que permite que a direção sindical seja avaliada pelo seu desempenho nas campanhas salariais. A contribuição é facultativa, e apela para a necessidade de manter a força das entidades. Considero essa a forma mais correta, pois obriga a direção sindical a mostrar empenho. Em outras categorias as contribuições são impostas em assembléias de fachada, de forma compulsória, e servem para sustentar uma casta de burocratas sindicais parasitários dos trabalhadores.

A organização sindical deve ser independente dos Estados, governos e partidos, e autônoma na sua sustentação. No Brasil isso não acontece, pela imposição da Contribuição Sindical, que sustenta uma estrutura de federações e confederações oficiais sem controle dos trabalhadores de base. As centrais sindicais estão certas em exigir que o Ministério Público do Trabalho não venha a interferir em assuntos de livre organização sindical, mas erram quando tentam impor a Taxa Assistencial de forma não-voluntária, criando um novo imposto.

Dia de São Judas Tadeu, padroeiro do Flamengo

Na mitologia católica romana, São Judas Tadeu é o santo patrono das causas perdidas e desesperadas, sendo a sua festa litúrgica em 28 de outubro. No Rio, a igreja dedicada ao santo fica no Cosme Velho, e teria sido construída com grande apoio dos rubronegros a partir dos apelos do Padre Góes, flamenguista sadio, tendo se convertido ao longo do tempo em local sagrado para romarias da maior torcida do mundo.

Muita gente acredita que essa devoção tenha sido a responsável pelo Flamengo ser o único time carioca que nunca frequentou a segunda divisão no futebol. Coincidentemente, hoje terá uma rodada do Campeonato Brasileiro onde uma conjugação de resultados quase impossível pode deixar o Flamengo na liderança, bastando "apenas" que os times à sua frente na tabela tenham maus resultados e que ganhe do Barueri por mais de 3 gols. Da parte do Mengão a meta é possível pela qualidade do time. Para os outros resultados, haja fé.

Possivelmente a festa do santo contará com a presença maciça das torcidas do Botafogo e do Fluminense, desesperadas com a possibilidade de novamente verem seus times sofrerem as agruras da segunda divisão, de onde o Vasco já está emergindo com mais reza que futebol.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Bolsa Família : Globo ataca novamente

Manchete principal de O GLOBO de ontem: "Bolsa Família inibe expansão de emprego formal no interior". Subtítulo: "Em cidades onde o programa beneficia 71% das famílias, trabalho chega a 1,3% da população". Na página 3, a matéria da jornalista Regina Alvarez, é explícita na negação do que se lê na capa: " A precariedade do emprego formal nessas cidades - municípios pobres, com população abaixo de 30 mil habitantes - não tem relação direta com a concessão do Bolsa Família. Existem barreiras anteriores ao programa que impedem o acesso dos trabalhadores aos empregos: a baixa escolaridade e a falta de capacitação profissional. As parcas vagas com carteira assinada exigem ensino médio".

Mais adiante, a matéria dá uma visão mais global do problema na cidade de Presidente Vargas (MA) : "Não é só emprego formal que falta em Presidente Vargas: faltam estradas, infraestrutura, presença do estado e da iniciativa privada na geração de emprego". Procurei mais no Google com as palavras "presidente vargas ma" e a única notícia que apareceu na primeira página foi a condenação de um ex-prefeito pelo TCU por falta de prestação de contas de verbas de educação. Não é o Bolsa Família o inibidor dos empregos formais. Falta de tudo por lá.

O fato de 80% das famílias estarem enquadradas no Bolsa Família também se deve à grande obra dos Sarney, que fizeram do Maranhão um dos estados de população mais miserável do país, mesmo com grandes riquezas em potencial. Tirar qualquer conclusão estatística para o país baseada no interior do Maranhão é uma perigosa extrapolação. A amostra é ruim. Apesar da matéria da página 3 estar próxima das minhas impressões sobre a realidade do interior do Nordeste, quem fez o título aproveitou a oportunidade para tirar uma casquinha e dar porrada no Bolsa Família. A manchete de capa não tem nada a ver com a matéria. O jornalão já foi melhor nisso. Desta vez, nem botaram as "Cartas dos Leitores" para repercutir o assunto.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Lula : alianças de Jesus aos romanos

Lula não perde a oportunidade de criar contra si polêmicas desnecessárias através das suas parábolas. Tentando justificar a existência de contradições em sua base de apoio, falou que se Jesus viesse para cá teria que se aliar até a Judas para governar. Aí entrou a CNBB no caso, falando que Jesus não se aliou nem aos fariseus , ortodoxos judaicos, ferrenhos opositores do cristianismo, nem aos aristocratas saduceus, revisionistas em relação aos preceitos judaicos. E a mídia fazendo o estrago possível entre a população católica.

Se Lula falasse que as alianças teriam que ser de avestruz a vaca, cairiam de pau nele dizendo fazer apologia à contravenção do jogo do bicho. Se dissesse que a governabilidade exigiria uma verdadeira arca de Noé, com tudo que é bicho dentro, também diriam que estava chamando político de bicho e tome críticas dos procuradores do patrimônio bíblico. Bastava dizer que é complicado governar, porque precisa ter maioria no legislativo e isso é conseguido com alianças mesmo que incoerentes com a história política dele, com os 300 picaretas que um dia denunciou.

Cristo defendeu idéias que lhe renderam perseguições pelas elites da Palestina e pelos romanos, que dominavam o Oriente Médio há séculos e mantinham uma política de aliança com a classe dominante local. Se formos levar a fundo a sua analogia, ele estaria se comparando a Jesus mas a referência a Judas seria inadequada, pois este era seu discípulo e o traiu entregando-o aos romanos. Não me lembro de algum petista que tenha o tenha traído de forma similar, entregando-o às forças de ocupação estrangeira.

Em termos de base aliada, Lula já foi bem além do que disse : aliou-se tanto às elites locais como ao capitalismo das superpotências. Para completar o "embroglio", Dom Dimas Barbosa, secretário-geral da CNBB, ao falar de fariseus e saduceus que não estavam no discurso de Lula, quis referir-se às práticas políticas dos partidos, e também vai levar seu troco, pelo menos dos fariseus.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Rio: Quem confia na Polícia?

Imagens gravadas mostraram ontem o assassinato de um dos coordenadores do Movimento Afroreggae por dois homens, que em troca da sua vida levaram um par de tênis e sua carteira. Na cena seguinte, um carro da PM passa por eles na mesma rua estreita onde o corpo do homem jazia no chão, faz a abordagem e um policial aparece entrando no carro com o tênis roubado, sem dar assistência à vítima e deixando os criminosos irem embora. Esse é um exemplo de maus policiais que mancham toda a imagem da corporação, prejudicando a relação com a sociedade

A vigilância comunitária é uma experiência de bons resultados no mundo, a exemplo do "Neighbourhood Watch" inglês. O cidadão é encorajado a relatar atitudes suspeitas, crimes e vandalismo às autoridades policiais locais, que mandam efetivos para investigar. Vi um exemplo desse tipo de relacionamento cidadão-polícia na pequena cidade americana de Key West, quando parei o carro numa rua residencial secundária para arrumar as coisas dentro do carro, com mulher ao lado e uma criança dormindo, e, em poucos minutos, uma patrulhinha veio nos abordar para saber o que fazíamos ali. Depois foi que vi a placa no poste indicando que naquela área funcionava um sistema de vigilância de vizinhança. Algum paranóico de plantão achou tudo muito suspeito...

Como crer na polícia? Um amigo tentou comunicar à polícia um sequestro relâmpago, seguindo o carro com a vítima. Tinha visto 3 pessoas entrarem no carro ao lado do seu, com arma na cabeça do motorista, e acabou perdendo o carro de vista porque a polícia deu mais prioridade à identificação do denunciante que ao fato em si. Levou uns 15 minutos até registrar a ocorrência. Coincidentemente, dois dias depois viu no jornal que a quadrilha tinha sido presa numa favela próxima ao local informado. Pode ter sido a sua informação que levou à solução do crime.

Nesta semana passei num local público de bastante afluxo e vi um bar com umas 8 máquinas caça-níqueis. É uma daquelas situações onde a coisa é tão escancarada que só a corrupção policial pelo pagamento de proteção pode justificar. Como falar com a polícia que pega os teus dados e ao mesmo tempo protege o criminoso? Isso está na raiz da Lei de Murici (cada um cuida de si) que implica no "não sei, não vi, não ouvi" que a gente vê na TV toda vez que se tenta entrevistar alguém quando acontece um crime. Por outro lado, a polícia tem razão de tentar saber um pouco mais sobre o denunciante, porque tem um bando de desocupados que passam trotes e geram falsas ocorrências, minando o esforço policial. Essa sacanagem também é muito frequente com o Corpo de Bombeiros e o serviço 192, e ninguém é preso por esse tipo de crime.

Jogar milhões de reais em armamentos e novos policiais mal remunerados equivale a combater a miséria do Nordeste dando dinheiro aos coronéis da indústria da seca. Hoje a polícia carioca entra em ação provocada ou por uma comoção como a da queda do helicóptero no Morro dos Macacos, de repercussão internacional, ou em autodefesa, já que os bandidos matam policiais à paisana se os identificarem. Apenas 4% dos homicídios são elucidados no Rio, enquanto em São Paulo o índice é de 65%, refletindo a falta de polícia técnica e fomentando a impunidade. Na comparação também é patente que no Rio a polícia mata muito e prende pouco, com a relação de mortos por presos na ordem de 3 vezes a de São Paulo, para um mesmo contingente policial "per capita". Quem pode confiar nessa polícia?

CPI do MST : Pizza rural ou CPI do Campo?

Enfim o latifúndio conseguiu abrir a CPI do MST. Bois devem ser sacrificados em churrascos de comemoração em algumas sedes de fazendas improdutivas, já que o feito é histórico e demandou uma ampla campanha de mídia para forçar os parlamentares a assinarem a CPI. O objetivo da bancada do atraso ruralista é travar a reforma agrária, fortalecer o agronegócio extensivo em detrimento do pequeno produtor, e criminalizar a organização dos trabalhadores, como disse o deputado Ivan Valente (PSOL).

Passada a euforia, a bancada do latifúndio e do desmatamento vai perceber que a CPI pode ter o fim da já esquecida CPI da Petrobrás, onde não mandaram nada, e acabaram fazendo muito alarde e pouco estrago ao governo. Sem o controle da CPI, a vida mostra dois caminhos possíveis: uma investigação burocrática dos repasses de recursos públicos a entidades ligadas ao MST ou o tiro na culatra, com a ampliação do foco para os baixos índices de produtividade de setores do agronegócio que agora lutam contra a sua elevação, o desmatamento da Amazônia e do Cerrado, os transgênicos, a grilagem de terras, a escravidão de trabalhadores rurais, a criação de milícias armadas e o assassinato de lideranças rurais e mais um monte de mazelas creditadas aos grandes donos de terras.

Eu aposto mais na pizza em fogão de lenha feita na roça, já que o governo tem maioria e a bancada ruralista não vai dar oportunidade de ver questionados os privilégios que adquiriu ao longo de quase 500 anos de subsídios sem a contrapartida de modernização e produtividade, acumulando terras para especulação e enriquecendo com o modo de produção escravagista que vige até hoje. E o ruralistas ainda podem ter uma reação mais forte do movimento pela reforma agrária, já que mais da metade do que se fez até hoje em termos de distribuição de terras foi no governo Lula.

Guerra do Rio : traficante é inquilino?

O Morro dos Macacos continua sob domínio de uma facção criminosa. Os invasores, ou "alemães", na gíria carioca (para ser mais exato, fala-se "os alemão") foram rechaçados e agora a ação policial se resume a procurar quem derrubou o helicóptero da PM, matando 3 policiais. Diversas comunidades estão sendo vasculhadas, e o policiamento ostensivo foi retirado dos acessos ao morro. Escolas da região ainda estão sem aulas, com a insegurança.

Fica a pergunta: quem chamou a polícia na madrugada do sábado, durante a invasão? No Rio, não existe comunidade sem poder paralelo. Se o traficante sai, entra a milícia, grupo de criminosos oriundo das polícias, bombeiros, forças armadas, que cobram proteção e um "mix" enorme de produtos e serviços de extorsão. No Morro dos Macacos, e no vizinho Morro São João, a polícia não retirou os "inquilinos", apenas apartou a briga, e logo tudo voltará ao "normal": polícia no quartel, bandido no tráfico, fazendo o papel do estado no território dominado.

Fazer Unidade Policial de Pacificação no Morro Dona Marta é relativamente fácil. Comunidade pequena, isolada, quase um apêndice de Botafogo, com poucos acessos e com acesso a uma das melhores paisagens do Rio. São necessários poucos efetivos policiais e logo a classe média e o turismo tomará essas áreas dos atuais pobres, com a compra de imóveis regularizados. Difícil é a Cidade de Deus, que consome quase 600 policiais, onde ainda há focos de tráfico por ter muitos acessos. Ou o Complexo do Alemão, onde a polícia não entra há um ano para não prejudicar as obras do PAC, num daqueles acordos com a facção criminosa inquilina do pedaço que a gente se acostumou a ver desde o governo Brizola I .

Mesmo paliativa ou ação de vitrine, a instalação de uma UPP em todo Morro do Macaco, Morro São João e no vizinho Morro do Encontro, que também domina o vale da estrada Grajaú-Jacarepaguá e o acesso à zona norte pela R. Barão de Bom Retiro seria uma demonstração de soberania territorial do estado. Não se pode dizer que a polícia agirá para evitar novas invasões, como se a bandidagem existente fosse inquilina ou tivesse adquirido a área por usucapião. Tem que ocupar e ficar, e assim fazer em todos os pontos próximos a mercados onde a droga consegue melhores rendimentos, para estrangular o tráfico pela queda nas receitas. Afinal, só existe todo esse problema porque os consumidores têm acesso aos pontos de venda.

Agripino : Brasil na zona de rebaixamento?

Perfeitamente perdível o artigo do senador Agripino Maia do DEMo no jornal O Globo de hoje. Diz que o Brasil patina com a estagnação do Indice de Desenvolvimento Humano (IDH), que o governo Lula fez menos investimentos que FHC e vem aumentando a despesa pública com queda de receita, e conclui magistralmente que ficamos atrás de Honduras no crescimento entre 2002 e 2008, com 38,4% contra deles contra 26,4% nossos.

Com essa comparação a um país de economia tão diversificada e pujante da América Central, de elevado PIB, democrático para os seus valores e de IDH significativo, Agripino diz que estamos indo para a zona de rebaixamento do mundo. Acho que se acostumou a ler notícias esportivas apenas do ABC de Natal, e deve estar achando que o Palmeiras, por ter perdido 3 partidas seguidas, na liderança da Série A, vai se encontrar na segundona ou na terceirona com ele.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Lendo a mente da Globo

No filme "Homens de Preto", um departamento secreto era responsável pelo relacionamento com os alienígenas na Terra, que estavam disfarçados entre a população civil usando formas humanas, tudo cadastrado e pacífico. Para buscar evidências de novas chegadas de extra-terrestres ou de delinquência entre os já cadastrados, seus agentes consultavam os tablóides sensacionalistas e suas notícias aparentemente fantásticas sobre OVNIs e fenômenos surreais.

Faço o mesmo com as Cartas dos Leitores do principal tablóide sensacionalista da direita, o jornal "O Globo", uma das faces impressas do chamado PIG - Partido da Imprensa Golpista, atrás de saber o que se passa na mente dos "capas-pretas" (membros da cúpula dirigente) que criam as versões das notícias que a gente consome. A partir de longa observação, notei que existe uma forte correlação entre as Cartas e o conteúdo das campanhas de lobby e de oposição política da empresa jornalística.

Cuidadosamente selecionadas, as cartas complementam o editorial e a pauta oposicionista que o sistema Globo tenta impor como poder paralelo. Hoje temos 3 temas ocupando 60% da página seis, indicando a importância dos temas pela sua concentração: "Em Campanha", onde se reforça a necessidade de punir Lula e Dilma por viajarem às obras do PAC e de esclarecer os gastos com o deslocamento; "Taxar capital", onde se acusa o governo federal de ceder ao lobby dos exportadores, prejudicando a população com a desvalorização do real com o aumento dos preços dos produtos importados, e de ameaçar taxar minérios e de estar criando novas taxas para dar empregos a petistas; "A guerra do Rio", esculachando as autoridades e tentando opor o governo do Rio ao federal no episódio do Morro dos Macacos, além de reforçar a tendência segregacionista que cria o estereótipo das comunidades pobres serem escolas de bandidos e de genocídio contra todos os que ali se encontram.

Aí você vê o Bom Dia Brasil, o telejornal local daGlobo, o jornal popular Extra, da mesma empresa, e o Em Cima da Hora, na Globonews, e tudo fica redundante. Acima da pauta editorial de cada veículo há a estratégia política da empresa, que deve ser considerada em cada um dos seus meios de comunicação. Na falta de uma oposição congressual competente, legitimada por valores morais sólidos de representantes ilibados, a família Marinho ocupa os espaços com esse império de informações cujo poder de articulação e alcance supera o de todas as instituições da sociedade civil, fazendo da competência técnica e de eventuais campanhas de cunho social as qualificações para a sua confiabilidade.

A eficiência em tempo real e praticamente onipresente da Globo pode fazer o sucesso ou a desgraça instantânea de pessoas, instituições públicas, políticos e empresas. É o "Big Brother" do livro "1984"de George Orwell, e elite autoritária que tudo vê modifica e intervém na história ao sabor dos seus interesses. Aos demais meios de comunicação resta a repercussão dos fatos criados pelo grupo líder. Aos governantes, criar fortes assessorias de imprensa para responder no varejo o que a Globo espalha ao vento. À cidadania, a perplexidade em meio ao tiroteio de versões, sem condições de conhecer a verdade.

Já que ninguém consegue fazer nada para limitar o seu abusivo poder, saber o que eles pensam, o que eles querem e para onde querem nos levar pode ser importante para enxergar um pouco de realidade e construir opiniões descontaminadas do senso-comum imposto pela comunicação de massas..

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Truculência tucana : Aécio vai demitir grevistas

Interessante a mídia brasileira. Vi a matéria "Governo de Minas vai demitir agentes penitenciários em greve" no Globo e pesquisei no Google outras fontes com as palavras "Aécio" e "Greve". Não apareceu nada sobre o assunto. Quando coloquei "governo minas" no lugar de "Aécio" apareceu tudo. Nessas horas, Minas não tem governador. É que nem em São Paulo, que os noticiários mostram todas as mazelas de tráfego, inundações, violência e desordem urbana diariamente e as palavras "Serra" e "Cassab" parecem excluídas dos manuais de redação.

O fato é que os tucanos não aceitam desafios ao poder, partindo dos trabalhadores. Assim foi com os 8 anos de congelamento salarial na era FHC. Terceirizam tudo para adquirir mais poder de demitir em caso de greve, além de rebaixar salários, deixando para governos como o de Lula a tarefa de recompor a máquina estatal. A greve dos agentes penitenciários é legítima. Dos 14 mil trabalhadores, hoje 11 mil sáo temporários. Querem melhores condições de trabalho e a volta do tiquete-refeição cortado por Aécio em abril, a pretexto de queda de arrecadação com a crise. Deve ter sido para não parar as obras faraônicas da Neveslândia, novo centro administrativo mineiro que pretende ser usado para mostrar Aecinho como "empreendedor moderno" nas próximas eleições.

Lula arrocha a Vale por investimentos

A Vale é uma empresa privada, por obra e graça de FHC, que a vendeu a preço vil. No bloco que a comprou, e constitui a Valepar, que dirige a empresa, estão os fundos de pensão do BB, CEF e Petrobrás com 49% do controle. Isso não dá maioria, mas deve ser considerado na hora da estratégia da empresa, que tem sido de olhar apenas para o lucro sem considerar a maximização dos resultados para o país, como a geração de empregos. Com a crise, a Vale demitiu, fechou unidades e suspendeu investimentos, enquanto o governo, via Petrobrás e PAC, vem fazendo grande esforço para fazer o país sair da crise em posição de vantagem.

Fundo de pensão não deveria estar na conta do governo, mas a legislação suprime o poder dos funcionários no comando e dá às empresas controle da governança, fazendo-os, na prática, ser apêndices do poder governamental. Foi assim no governo FHC, quando esse mandou comprar ações das empresas em privatização, e agora no governo Lula, tem mais ingerência nos negócios das empresas participadas. Já que a coisa funciona assim, com o governo contabilizando como seus os 49% do controle, o bloco majoritário, apesar do poder sobre os destinos da empresa, não pode agir como se do outro lado houvesse uma participação acionária pulverizada, sem poder de pressão. Tem que ouvir e ponderar o que o outro lado fala, a bem da governança.

Lula disse que o presidente da Vale fica confortavelmente sentado num escritório com ar condicionado, deixando de trabalhar para agregar valor às "commodities" que exporta, enquanto os demais setores da economia ralam para crescer e ganhar espaços internacionais. O mercado e seus alto-falantes da mídia choram com as cobranças, pois entendem que empresa privada deve se preocupar com os lucros e lixar-se para as demandas sociais, que entendem suprir apresentando em belas páginas de balanço a participação em projetos paliativos na área social.

Em países capitalistas avançados os governos estabelecem relações de parceria com algumas empresas estratégicas para ganhar mercados, e isso exige contrapartidas do lado privado, já que do lado público, a princípio, a visão é social. Exigir que empresas atuem no esforço do país e não apenas para os lucros dos acionistas é papel do governo, e isso não é intervenção. Faz parte da soberania, coisa que os mercadejantes não sabem mais o que é.

Taxação a capital especulativo: 2% é pouco

No mundo inteiro a crise fez despencar os retornos sobre investimentos. Mais ainda: o risco sistêmico também aumentou, fazendo com que os capitalistas procurem opções que aliem alguma rentabilidade a pouca probabilidade de perda. Os países centrais do capital tinham retorno menor que os emergentes, mas aparentemente mais segurança, até o colapso do sistema bancário e da economia virtual trazendo recessão.

Nesse cenário ruim para lucros, aparece um país ocidental onde o governo intervém com efetividade na economia em crise, provocando a sua recuperação antes dos demais. E cujo presidente hoje transmite ao mundo uma imagem de confiança no Brasil e de liderança ao mesmo nível que os do antigo G-8, agora G-20. A venda da imagem de país que venceu a crise antes dos outros, aliada a altos rendimentos no mercado de ações, títulos públicos que pagam altos juros e recomendação de investimento por agências classificadoras de risco fizeram do Brasil um oásis para o capital especulativo internacional. As consequências estão aí: bolsa de valores em forte recuperação, atingindo os níveis anteriores à crise, e uma valorização excessiva do Real, trazendo problemas às exportações e ao saldo da balança comercial.

Está chovendo dólares por aqui nos cassinos da especulação. Esse dinheiro, que muito pouco contribui para a sustentabilidade da nossa economia, está participando de uma festa sem pagar ingresso. Durante vários governos se fez de tudo para pingarem uns trocados por aqui, com a criação de facilidades tributárias. O momento agora é outro. O Brasil é seguro e interessante, logo não será uma simples taxação de 2% que desestimulará os jogadores do capital internacional. Temos produto bom, escasso, e isso, na linguagem do mercado, significa que o preço deve subir.

Apesar do Risco Brasil ainda apontar para o investidor a necessidade de acrescentar aos seus cálculos de retorno mais uns 3%, o fato é que ele, na prática, não existe mais. A solidez e a segurança da economia brasileira são fortes atratores, e o lucro do investidor estrangeiro pode ser mais sangrado sem a perda da atratividade. Bom para o país, que melhora a qualidade do investimento e arrecada mais impostos para os necessários investimentos e programas sociais.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Flamengo : Libertadores é pouco

A vitória sobre o Palmeiras, atual líder da Série A do Campeonato Brasileiro, numa escalada invicta de 9 jogos, faz o Flamengo sonhar com o título. O Palmeiras, jogando um futebol medíocre, parece ter gastado todo o combustível, pode ter chegado ao topo da subida, permitindo a ultrapassagem por outros concorrentes em ascenso, como o Atlético Mineiro e o Flamengo. Ainda faltam 8 rodadas, com 24 pontos em jogo, e o título não está definido.

Vai ser uma pedreira para o Flamengo, que jogará 4 dos 8 jogos restantes fora do Rio, contra Barueri, Atlético Mineiro, Corinthians e Náutico. Em casa pegará o Santos, o Grêmio, o Goiás e o Botafogo. Se entrar no G-4 antes do dia 28 de outubro, dia de São Judas Tadeu, santo das causas impossíveis e padroeiro do Flamengo, o bicho vai pegar. Esse dia sempre foi tão importante para a definição das campanhas do Mengão que virou Dia do Flamengo no calendário da cidade do Rio de Janeiro. A igreja do Cosme Velho recebe romarias rubro-negras de todos os credos e, dependendo do desespero, até de ateus e gnósticos.

Depois de isolado pela direção do clube por ter vencido ação trabalhista, indenização e ser integrado por acordo, Petkovich foi ocupando espaços e hoje divide com Adriano a liderança na boa fase do time. Além disso, a contratação de reforços como o zagueiro Álvaro fechou a defesa, que levou 3 gols nos últimos 9 jogos, fez do Flamengo um time coeso, eficiente no apoio ao ataque. É o melhor time brasileiro da atualidade, e deve chegar ao dia 28 de outubro com mais os 3 pontos que usualmente o Botafogo fornece. É nessas horas que a nação rubronegra sente falta do Vasco, que cumpre pena na segundona, habitual fornecedor de 6 pontos fáceis ao Mengão.

Do outro lado da tabela, apesar dos cálculos de probabilidades feitos por diversos especialistas com base em previsões para os futuros confrontos e a "certeza" que 45 pontos livram alguém da segunda divisão, o que se vê é que o baixo nível dos lanternas pode fazer alguém ir para a segundona, neste ano, com menos pontos que isso. O Botafogo, que momentaneamente emergiu do G (-) 4, tem 32 pontos, apenas 6 acima do lanterna absoluto Fluminense, que tem melhorado de desempenho nos últimos jogos, e pode, a exemplo dos seis pontos que separam o Flamengo da liderança no campeonato, escapar do rebaixamento que hoje é certo.

No andar de baixo, o Vasco está a uma derrota de ser vice-campeão da segundona. O Guarani vem com tudo, marcando colado, e bastará uma bobeira do time carioca para assumir a liderança. Terminada a Copa Sub-20, o Vasco recebeu de volta seus jogadores Alex Teixeira e Souza, que perderam os pênaltis na final contra Gana e deram ao time brasileiro o vice-campeonato. Graças aos vascaínos, o Brasil agora é Sub-Vice.

sábado, 17 de outubro de 2009

Guerra no Rio : o trabalho arriscado da imprensa




Ao acompanhar de perto os acontecimentos do Morro dos Macacos, tive contato com o pessoal que trabalha para jornais e rádios na cobertura do noticiário criminal. No Rio é muito forte a concorrência entre os meios de comunicação de massas com foco no povão, e a busca por informações exclusivas e atuais leva profissionais a condições de risco pessimamente remuneradas.




Por um momento este humilde blog se nivelou com a grande mídia, na porta da delegacia de Vila Isabel. Lá estavam O Globo, O Dia, Extra, e, entre outros mais, o Blog do Branquinho, junto com todo o aparato policial, em zona de risco, enquanto a população estava afastada. Perguntei a alguns "colegas de imprensa" se recebiam adicional de periculosidade para fazer esse tipo de cobertura. Foi o suficiente para se formar uma roda de bate-papo sindical. Soube que o sindicato dos Radialistas conseguiu o reconhecimento da periculosidade para os assistentes de reportagem, enquanto o sindicato dos Jornalistas ainda não conquistou isso para os seus profissionais. Moral da estória: os trabalhadores vão para o local em guerra com coletes à prova de balas leves, alguns ganhando mais por isso.

Quem mais se arrisca é o pessoal de fotografia free-lancer, que parece não ter sangue nas veias. Vão junto com os policiais em meio aos tiros. Alguns cinegrafistas também fazem isso. Se tiverem sucesso, vendem seus materiais exclusivos a bons preços. Pressionados pelas empresas de comunicação, fotógrafos, cinegrafistas e repórteres assalariados também entram em teatros de guerra correndo os mesmos riscos, só que ganhando menos.

Guerra no Rio : Cadê o Baiano?

No filme Tropa de Elite, após a morte de um integrante do BOPE, foi desencadeada uma caçada ao traficante Baiano, chefe do morro onde o policial foi morto. Na sua busca, o filme mostrou torturas policiais numa ação de vingança, onde "cadê o Baiano" era o bordão. No fim, o bandido é capturado e pede que não o "esculachem", ou seja, sabendo da morte certa, pede para não atirarem na sua cara para não estragar o enterro.

Essas mortes do helicóptero derrubado pelo tráfico não deverão ficar sem resposta, a depender da vontade das autoridades do Rio e mesmo do Ministério da Justiça, que ofereceu a Força Nacional, helicópteros e tudo que for necessário para uma ação que mostre ao mundo que o Rio terá condições de fazer a Copa de 2014 e as Olimpiadas de 2016 com controle territorial de todas as áreas adjacentes e acessos aos locais de competição e logística.

Como disse o Secretário de Segurança, José Betrame, quem tem que prestar contas e se preocupar com a população é a polícia, já que os criminosos fazem o que querem sem nenhuma responsabilidade. Em suma, a polícia tem que agir dentro da lei e da civilidade contra quem não respeita nada disso. Então é de se supor que haverá uma grande ofensiva policial para sufocar o poder do crime, e que não terá o ritmo lento das atuais políticas de ocupação e pacificação. Hoje foi um exemplo disso: com os bandidos cercados no Morro dos Macacos, seus aliados tocaram fogo em ônibus fora da área para dividir o esforço policial.

Uma ação mais forte pode desencadear uma reação como a do PCC em São Paulo, mostrada no filme "Salve Geral" que está nos cinemas. Resta saber se o poder público pagará o preço por uma "mãe de todas as batalhas" contra o poder paralelo do crime, ou se continuará fazendo acordos para loteamento de áreas em troca de "segurança" garantida pela bandidagem. Vamos ver o que acontecerá nas próximas horas no complexo do morro de São Carlos e no morro de São João, de onde partiram os grupos que atacaram o Morro dos Macacos.

Rio : polícia desmoralizada


Anteontem bandidos roubaram a arma de um PM numa cabine de segurança. Depois, outros tocaram fogo em delegacias. Hoje, no episódio do Morro dos Macacos, algumas pessoas jogaram pedras em carros da polícia. Em frente à delegacia de Vila Isabel, vi um homem provocando os policiais, dizendo que deviam honrar a farda, e tentando incitar os demais a uma atitude hostil. Acabou levado à delegacia e liberado. De repente, um grupo de policiais sai do morro trazendo um oficial do Exército, aparentemente embriagado, com a farda em desalinho, sabe-se lá porque foi recolhido.

No mesmo local, um homem de uns 60 anos começou a urinar no muro da escola ao lado da delegacia, desprezando a presença de todos os que ali estavam, inclusive policiais. Foi quando um soldado do BOPE chegou junto ao cidadão e deu-lhe uma bronca e o mandou ir urinar no bar, que ali não era lugar disso. O infrator passou a questionar o policial, alegando o direito a fazer aquilo ali. Dois policiais tiraram a pessoa do local (foto). E teve gente dando razão ao mijão... Quando fui tirar a foto do helicóptero caído, subi numa grade do clube junto com dois fotógrafos, tudo na frente de um forte contingente policial. De repente, o que estava ao meu lado disse que tinham acabado de roubar um telefone Nextel dele. Olhei para baixo, e um grupo de garotos saía tranquilamente em direção à polícia trocando o aparelho de mãos...
Agora à tarde a Secretaria de Segurança fez uma entrevista coletiva para falar do episódio do Morro dos Macacos. Tive a impressão que os bandidos tiveram razão em tudo, já que as perguntas só tratavam de eventuais falhas da polícia. Cobraram por que não conseguiram evitar a invasão, por que o helicóptero caiu e se foi derrubado por míssil, por que os bandidos queimaram os ônibus, etc.

Rio : a banalidade da guerra

Quase todos os dias ouve-se tiros no Grajaú, Tijuca, Andaraí e Vila Isabel, no Rio. Quem está em lugar seguro não deixa de ver sua novela, para de jantar ou deixa de dormir por causa disso. A guerra está lá fora, longe, é só não ficar em linha de tiro que fica tudo bem. Tiros já não assustam nem comovem como há uns 20 anos. Os tiroteios são vistos como um evento como uma chuva, que vem e passa. Já o que aconteceu nesta madrugada no Morro dos Macacos assustou, porque as armas de grosso calibre e as granadas fugiram ao "normal".


Precisei ir a Vila Isabel buscar meu carro. Passando pela praça Barão de Drumond, que é o centro do bairro, vi um contingente do BOPE parado e o acesso ao túnel Noel Rosa fechado. Grupos de pessoas estavam em bares, algumas bebendo, enquanto se ouvia tiros no morro dos Macacos, que fica a 200 m do local, distância muito pequena considerado o alcance das armas de fogo. Idosos e crianças viviam o seu normal, andando pela praça e pela Av. 28 de Setembro, o comércio normalmente aberto, enfim, a guerra estava ali, ao lado, mas o cotidiano não se afetava.


Entrei no clima e fui até mais perto ver o que acontecia, para fotografar e conversar com as pessoas. Alguém me disse com tranquilidade que havia 3 corpos no início da ladeira da R. Torres Homem. Olhei de longe, e, de fato, os corpos estavam lá, cercados por um grupo de curiosos. Não cheguei perto porque nessa hora bateu a razão e vi que estava correndo risco. Conversei com um grupo de idosos e perguntei sobre a necessidade de uma Unidade de Pacificação na área. Uma pessoa respondeu que seria pior, e que a vida ali era boa, mas que ficava ruim quando tentavam invadir o local.


Peguei o carro e segui a Av. Visconde de Santa Isabel, chegando à delegacia onde estava toda a imprensa e todo o comando da operação. E muita gente curiosa olhando, possivemente moradores da comunidade em guerra, como se estivessem esperando a chuva passar ou esperando o estádio esvaziar para não pegar trânsito. As pessoas mais nervosas que encontrei eram profissionais de imprensa, alguns com coletes à prova de balas bem finos. O pessoal do BOPE, apesar da iminência do risco de entrarem em confronto a qualquer momento, estava relativamente tranquilo.


Depois, já no Sampaio, os grupos de curiosos ficavam parados em locais de alto risco, em caso de tiroteio, mas parecia que havia a certeza de que nada aconteceria. Questionei a alguns sobre a gravidade da situação, com helicóptero derrubado e policiais mortos, e obtive como resposta que o que vi não teria sido o pior que já aconteceu na área, ou seja, que outros helicópteros já tinham caído, que o viaduto do Túnel frequentemente virava praça de guerra, enfim, tudo aquilo estaria dentro da "normalidade".

Rio : a batalha do Morro dos Macacos

Durante toda a madrugada deste sábado um pesado tiroteio apavorou os moradores da comunidade do Morro do Macaco e os bairros adjacentes de Vila Isabel e Grajaú, no Rio de Janeiro. Uma quadrilha de outra facção criminosa, apoiada por reforços de outras favelas, tentou invadir o morro para tomar os pontos de venda de drogas, daí a luta feroz.



O Morro dos Macacos é estratégico para o tráfico, por ter acessos a vários bairros. Sob ele passa o Túnel Noel Rosa, que liga Vila Isabel ao Sampaio e ao Jacaré, bairro limítrofe com o Complexo do Alemão e a Linha Amarela, via expressa que começa na Barra da Tijuca e termina no Aeroporto do Galeão. Do lado da Vila, estão bairros de classe média cujo consumo de drogas valoriza o "ponto". A menos de 2 km está o estádio do Maracanã. Nas extremidades do morro estão os "estreitos" do Engenho Novo, onde está o acesso à via Grajaú-Jacarepaguá e que é um dos poucos acessos à Barra da Tijuca e ao Estádio do Engenhão, e o "estreito" da Mangueira, acesso a amplas regiões suburbanas.


O BOPE levou um bom efetivo ao local e o carro de apoio Caveirão (foto), subiu o morro e enfrentou o armamento pesado dos traficantes. Por volta das 10 da manhã, quando a coisa parecia pacificada, um oficial do BOPE disse que havia um policial ferido e que iria ser resgatado pelo helicóptero, que logo sobrevoou a área da R. Visconde de Santa Isabel sobre o antigo Jardim Zoológico e a delegacia. Nesse momento foram ouvidos tiros, e o helicóptero passou para o outro lado do morro.


Eu já ia saindo do local quando vi as equipes de reportagem da Globo e outros meios correrem para os veículos. Até pensei que iria haver outro tiroteio, mas todos partiram em alta velocidade na direção de onde poderiam ter partido tais ameaças. Corri atrás pela R. Barão de Bom Retiro, e, ao entrar na Av. Marechal Rondon, no bairro do Sampaio, vi que a via estava tomada por populares correndo em desespero, fugindo do clube Sampaio pulando desesperadamente uma grade. Por trás deles, uma grossa nuvem de fumaça preta. Liguei a câmera do celular e fui andando com o carro no rumo do clube. Não imaginei que o helicóptero tivera sido atingido por tiros e caído no local, com explosão.


Por segurança, saí rapidinho dali, passando sob o viaduto do Túnel Noel Rosa, onde já havia um forte contingente policial. Quando retornei, a pé, fugindo de eventuais linhas de tiro, o fogo já estava extinto e o veículo completamente destruído, que deve ter sido pousado com grande perícia no meio de um campo de futebol, mas mesmo assim morreram 2 dos 4 tripulantes. Apesar da baixa qualidade do video, dá para ver o pessoal da imprensa cruzando a frente do meu carro, e, à esquerda, as pessoas pulando a grade do clube e a fumaça do helicóptero.



video
Nesse momento vários veículos policiais saíram em alta velocidade rumo ao Jacaré, de onde se viam rolos de fumaça preta dos ônibus que os traficantes queimaram para tentar enfraquecer o cerco a morro dos Macacos. Por volta de 11 e meia da manhã já não se ouviam tiros, mas o cerco policial foi mantido, com sobrevoos constantes do assustador helicóptero blindado do BOPE. Em Vila Isabel ouvi falar da existência de 16 mortos, mas agora o Secretário de Segurança falou em 2 policiais e outros 10 mortos.




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Burocracias sindicais recebem 1,7 bi de imposto

Enquanto dirigente sindical tiver recursos financeiros obtidos por impostos sobre os salários de trabalhadores, sem questionamento, os desvios de função de sindicatos, federações e confederações criarão mais privilégios para dirigentes e problemas para as suas bases. O mesmo vale para a organização sindical patronal, que também recebeu parte dos R$ 1,7 bi de "contribuição sindical", apelido do velho Imposto Sindical do varguismo inspirado no fascismo.

A CUT, enquanto era autônoma, defendeu o fim do imposto sindical, entendendo que as entidades deveriam receber apenas as contribuições de trabalhadores baseadas nas filiações e nas taxas de fortalecimento das entidades, estas pagas quando das conquistas de direitos trabalhistas. Tudo opcional, votado em assembléia, e não impostos. No ano passado, todas as centrais, paradoxalmente, apoiaram um projeto que ampliou o espectro dos beneficiários pelo imposto sindical. Hoje a burocracia sindical pode viver feliz sem prestar contas a ninguém, fazer seus conchavos políticos e prejudicar os trabalhadores a quem deveriam defender praticamente sem ameaças. E as entidades sindicais viraram aparelhos políticos dos mais diversos matizes, sendo predominantes as cooptadas pela política de controle social do governo Lula.

ENEM : FOLHA foi interceptadora de furto?

A Universidade Federal Fluminense foi a mais recente baixa no grupo que iria usar os resultados do ENEM como vestibular. A ampla campanha de descrédito sobre o exame atingiu os objetivos de quem armou todo o episódio. Peixes pequenos foram indiciados, e o caso, na esfera policial, está esquecido na mídia, que dedica seus espaços à fritura do ministro da Educação, ao INEP e ao governo em geral.

Até aqui a Folha de São Paulo aparece como passiva em todo o episódio, já que o jornal teria sido procurado pelos ladrões que tentariam vender a prova. Apesar do aparente serviço prestado pela denúncia jornalística, a Folha atuou no caso como interceptadora de furto, já que entabulou negociações e chegou a ver a mercadoria roubada. Se o caso tivesse acompanhamento das autoridades para criação do flagrante e prisão dos ladrões, a Folha se eximiria de qualquer responsabilidade, mas não foi o caso. Estranhamente a investigação do crime não questiona o papel da Folha nisso tudo.

Código florestal : lobos vão cuidar do galinheiro

Enquanto a mídia faz o estardalhaço para pedir CPI para o MST, os ruralistas, sorrateiramente e contra a opinião dos parlamentares ligados ao movimento verde, conseguiram a criação de uma subcomissão na Câmara dos Deputados para mudar o Código Florestal. Com o comando dos trabalhos e maioria ampla, a bancada ruralista quer reduzir as áreas de preservação das suas terras, e permitir mais desmatamento para a pecuária e o agronegócio. Ao invés de melhorarem as técnicas para a eficiência da produção, querem partir para a extensão das áreas de cultivo, eliminando florestas e desprezando a proteção das bacias hidrográficas.

Yeda e o DETRAN : Pizza gaúcha

A governadora Yeda Crusius (PSDB) foi excluída de ação de improbidade administrativa por desvio de recursos do DETRAN. O judiciário entendeu que a governadora é "agente política" no caso, e que deve responder pela improbidade perante a Assembléia Legislativa, onde a CPI sobre o DETRAN encontra-se em fase de aquecimento de forno para uma grande pizza. A diferença no caso é que pizza feita por tucano não tem destaque na mídia.

Vale e Imposto de Renda : Globo cria crises

Noutro dia estava chapado na primeira página de "O Globo" : "Governo pune classe média" referindo-se a uma declaração atribuída ao ministro Mantega sobre a liberação da restituição do imposto de renda demorar um pouco mais em função da queda da arrecadação. Ontem anunciaram com estardalhaço o "recuo do governo", mostrando a declaração de Mantega confirmando toda a devolução neste ano. E ainda disseram que foi Lula que, irritado com Mantega, mandou pagar neste ano. Para a Globo, o importante é o estrago, não a informação. Nos anos FHC, que a classe média teve o congelamento da tabela do IR e recebia a restituição com grande atraso, o grande partido midiático não falava nada.

Agora vem a "crise" da Vale, com a Globo construindo um suposto complô para derrubar o seu presidente, Roger Agnelli, por ter desagradado ao governo ao demitir 4.000 funcionários no meio da crise econômica. Até onde eu saiba, a Vale é uma empresa privada, e o governo não tem como tirar o presidente, nem com o apoio dos fundos de pensão. Quando a Vale foi doada pelo governo FHC através de privatização a preços vis, o sistema Globo apoiou. Agora a campanha de mídia para mostrar uma conspiração "bolivariana lulo-petista" contra a Vale é a bola da vez, e isso fica claro quando "O Globo" destina meia página de cartas dos leitores para colocar opiniões de seu interesse contra o governo no episódio.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Honduras : direita quer que Brasil arreie as calças a Michêletti

A comissão de deputados que foi a Honduras deve ter visto muita coisa, mas até aqui só vi a opinião de Raul Jungmann (PPS) ser divulgada com maior ênfase. Alegando que estudantes brasileiros estariam sofrendo discriminações, que a ditadura está passando uma propaganda dizendo que Brasil e Venezuela interferiram na soberania de Honduras, e que o povo hondurenho estaria mais a favor do ditador Michêletti que de Zelaya, propõe que retiremos nosso apoio a Zelaya, que peçamos desculpas ao regime ditatorial e ao povo hondurenho e que a nossa diplomacia não apoie novas iniciativas contra golpes.

Essa atitude de arriar calças é bem coerente com o ideário de submissão internacional da direita brasileira, que não vê a oportunidade de golpear o governo de Lula. Jungmann, ex-ministro da Reforma Agrária do governo FHC, que fez a alegria do latifúndio raivoso que hoje quer CPI do MST e desmatar a Amazônia inteira, parece querer mudar o lema do governo para : "Brasil, um pais de frouxos". Graças à atitude coerente e corajosa da nossa diplomacia, o Brasil vem conquistando cada vez mais respeito internacional e as negociações sobre o retorno de Zelaya estão acontecendo, fazendo a ditadura ceder.

Dia do Professor : nada a comemorar

Só o ideal ou a falta de opção podem explicar que ainda tenhamos professores na rede pública. No Rio de Janeiro, a rede estadual perde cerca de 600 professores por mês, com salários na faixa de R$ 700. Além da falta de uma recompensa adequada pela dedicação, problemas como a falta de condições de trabalho, de incentivo à formação e mesmo a falta de segurança sacrificam ainda mais os profissionais.

Vida de professor da rede pública é : múltiplos empregos pagando pouco, corrigir e preparar provas em casa, politicagem no crescimento da carreira e nos incentivos à formação, turmas cada vez mais indisciplinadas e mal-educadas pelas famílias. Passei minha infância vendo meu pai até altas horas da noite rodando provas em mimeógrafo a álcool para ajudar a minha mãe, que foi professora de primeiro grau durante 27 anos e, apesar dos 80 anos, não se nega a dar aulas particulares de disciplinas variadas. Também a vi perder noites e finais de semana preparando aulas e corrigindo provas, sem qualquer remuneração adicional por isso.

Vi pelo interior do Ceará e Piauí professores recebendo uma micharia para dar aulas em lugares de difícil acesso. E também vejo muita demagogia nas instâncias do poder a cada dia do professor falando em valorização, em reconhecimento, mas nada de concreto é feito. Mais um 15 de outubro sem muitas razões para os professores comemorarem. Um ano depois de sancionada por Lula a lei que criou o piso salarial nacional para os professores, há descumprimento generalizado pelos estados (veja neste link).

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Umbanda ecológica

Hoje no Rio quem passou nas áreas de florestas com cachoeiras viu intensa atividade de umbandistas fazendo rituais com oferendas. Como a grande mídia costuma cobrir apenas as grandes celebrações católicas, como o Círio de Nazaré em Belém e de N.S. de Aparecida, a celebração da Mãe Oxum, orixá do amor, do ouro e da prosperidade, de grande significação para os umbandistas, passou despercebida.

Achei muito interessante uma abordagem ecológica para o culto, que é feito junto às cachoeiras, em http://ceuesperanca.blogspot.com/2009/10/umbanda-do-bem-dicas-de-ecologia-na.html e reproduzo aqui para mostrar como os rituais deveriam ser feitos para a preservação ambiental.

"Dicas de Ecologia na Umbanda
Preservando nossos santuários naturais
Olá a todos, meu saravá fraternal!
Dia 12 de Outubro esta chegando e com ele vem as festividades de Nossa Amada Mamãe Oxum, senhora do Amor e da concepção divina.
Nas oferendas que são feitas junto as cachoeiras ponto de força de nossa Mãe Oxum gostaríamos de deixar algumas dicas saudáveis de preservação do meio ambiente.
Evite sujar as águas da cachoeira, além de ferir o lado religioso de nossa Umbanda, devemos lembrar que esta água é fonte de vida para animais, plantações e muitas vezes até humanos.
Não deixe garrafas ou copos de vidro depositados a beira das cachoeiras, além de poder causar graves acidentes a quem lá possa ir vale lembrar que vidros demoram vários anos para se decompor na natureza. Evite de acender velas ao pé de árvores, matas ou jardins naturais, isso pode gerar grandes incêndios. Use alguidar de barro sem verniz, pois o mesmo se decompõem com mais rapidez na natureza e não a agride. Ao invés de panos, plásticos ou papéis, use folhas para forrar o chão. Se você oferenda em um local que tem uma administração, lembre-se que após alguns dias sua oferenda será recolhida, mas se vc faz em locais fechados, isso vai ficar lá por muito tempo, volte após alguns dias de sua oferenda para recolher o que lá deixou limpando o local e ajudando a preserva-lo para outros irmãos que lá possam se dirigir.
Plante flores para Oxum ao pé de uma cachoeira, a melhor oferenda é aquela que carrega vida
Descarrego com pipocas não precisam ser feitos dentro da cachoeira, mas ao lado dela em local com terra para que a mesma seja absorvida com facilidade e não suje as águas de Oxum
Bem meu irmão estas são algumas ideias que gostaríamos de lhes transmitir para podermos contar com nossos santuários naturais durante muitos anos. Afinal de contas nós e outras pessoas precisam deles. Que Oxum nos cubra de amor, de luz e de paz."

domingo, 11 de outubro de 2009

Rio despreparado para idosos

No jornal "O Globo" de hoje li que, no Rio, o número de idosos já é quase igual ao de jovens, na sua principal manchete. Noutro dia vi um trabalho da FGV que mostrava que 28% das receitas das pessoas no Rio vêm de benefícios de aposentadorias e pensões. Seria de se supor que esses dados demográficos e econômicos deveriam fazer do Rio um lugar preocupado com os idosos. Uma rápida olhada nos serviços públicos mostra que isso está longe de acontecer.

Em termos de acessibilidade, encontramos rampas para cadeirantes em algumas avenidas onde foram feitas obras do Rio Cidade. Em muitos prédios públicos, as soluções de rampas mereceriam que os seus projetistas fossem condenados a subi-las e desce-las várias vezes, de tão íngremes ou estreitas, sem apoios. Para os deficientes visuais, as coisas são muito piores. Num grande banco cheguei a ver uma mesa colocada sobre o piso tátil, ou seja, alguém que use a guia dará uma topada. Isso atinge, em grande parte, o contingente de idosos.

Nos supermercados a coisa começa no estacionamento, onde não se respeita as vagas para idosos ou deficientes, e isso na maior cara-de-pau, sem qualquer preocupação dos faltosos com a lei, muito menos com a ética. Na destinação dos caixas, o idoso que usar seu "privilégio" de caixa exclusivo para, junto com deficientes e gestantes, ficará mais tempo que um outro cidadão "não especial". Onde as filas são únicas, que é o caso de alguns bancos, o atendimento preferencial a tão grande contingente acaba criando estresse entre os demais, já que as filas não andam.

Para quem vai ter uma Copa em 2014 e uma Olimpíada em 2016, e faz o discurso de "choque de ordem" em nome da cidadania, a atual situação de subdimensionamento dos acessos aos serviços públicos só tenderá a piorar. Considerada a incipiente estrutura de transportes que agora aparece na forma de destruição de trens e estações, parece que a turma do COI que andou por aqui não viu muita coisa.

Cutrale : a versão do MST

Tem coisas que mesmo a gente acreditando na infinita capacidade humana de fazer coisas estúpidas, deixa-nos de orelha em pé. Conheço o MST e uma vantagem organizacional que têm é a da descentralização quase completa das suas ações. A coordenação de um acampamento tem autonomia para adotar a tática que melhor avaliar para o enfrentamento com o latifúndio. A outra desvantagem também é essa descentralização, que permite a existência de excessos, a infiltração por sabotadores e delatores ligados aos poderes do estado e "cabos Anselmos" plantados pelas organizações dos fazendeiros.

Quando vi noutro dia uma imagem aérea um trator detonando laranjeiras das terras griladas pela CUTRALE no interior de São Paulo, depois a foto do trator com a pichação "MST", depois a apreensão pela polícia de um caminhão com coisas da fazenda e roubo atribuído ao MST, e um galpão cheio de pichações com boas letras e português razoável, ver Caiado, Kátia Abreu e um desfile de gente de direita e mesmo do governo espumando e pedindo, no mínimo, uma CPI para o MST, pensei comigo: o MST pode ter muitos defeitos, mas não seriam estúpidos a esse ponto de dar à grande mídia e ao poder político dos donos de terras uma porção de elementos para trabalharem a opinião pública contra eles. Isso tem tudo para ser uma daquelas armações que ao longo da vida vi contra o PT e a CUT, do tempo que ofereciam riscos às elites. Que tal o sequestro de Abílio Diniz às vésperas das eleições de 1989, com os sequestradores vestidos pela polícia com camisas do PT? E do crime de Freguesia do Ó, atribuído ao PT?

De fato, não vi nenhuma declaração na TV de alguém do MST explicando os fatos, apenas as "evidências" possivelmente plantadas, e a condenação jogada à opinião pública. Para quem quiser ver o outro lado que a imprensa não mostrou por razões ideológicas, aqui vai o link do MST com a sua versão.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Obama ganha Nobel da Paz de graça

Pela primeira vez o Prêmio Nobel da Paz é concedido a alguém que tem promessas e nenhuma realização no sentido de promover a harmonia mundial. Até o momento, a vergonhosa prisão americana de Guantânamo continua afrontando os direitos humanos, com presos sem julgamento nem acusação nem processo. Obama prometeu fechar, mas não conseguiu em 9 meses de governo.

O governo americano continua fazendo a América Latina de quintal, implantando bases militares na Colômbia, fazendo muito pouco para resolver a situação de Honduras e o boicote a Cuba. Não recuou do projeto da frota naval para a América do Sul. Mantém as políticas de confronto com o Irã e a Coréia do Norte, e não retirou tropas nem do Afeganistão nem do Iraque, continuando a política de Bush na quase totalidade. Suspendeu o escudo anti-mísseis que faria na Europa, contrariando a Rússia e criando tensões, até por falta de dinheiro.

Obama manteve o orçamento bélico americano, muito superior ao necessário para implantar o plano de saúde pública que prometeu aos americanos. Mantém o mesmo apoio irrestrito às atrocidades de Israel contra os seus vizinhos. Que paz, Obama? Até Lula fez mais que ele, ao usar os espaços de projeção internacional para o discurso contra a fome e as desigualdades sociais que causam as guerras no mundo. Já que Obama recebeu o crédito, que faça por merecer.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Quebra-quebra de trens : o Rio que o COI não viu

Desde que a capital federal foi transferida do Rio para Brasília, a cidade perdeu continuamente prestígio e recursos, e ainda teve que arcar com os ônus da fusão Guanabara - Estado do Rio. Tida como polo de resistência à ditadura, por ter sido o único lugar onde o MDB ganhou eleições indiretas, a cidade-estado não via apoio político federal até o governo Lula. Mesmo assim, os recursos para o PAN em 2007 foram mal aplicados, resultando em diversas pendências por má qualidade de obras e em praticamente nenhuma solução para os problemas que mais carecem de investimentos, os de infra-estrutura de transportes.

Ontem uma falha no sistema de trens do Grande Rio foi a centelha que faltou para explodir o descontentamento popular com um sistema caro, ineficiente e de confiabilidade duvidosa. Trens foram incendiados e estações depredadas pelos usuários, e somente hoje o tráfego voltou ao que se pode chamar de normal, ou seja, precário. Se essas imagens tivessem aparecido há uma semana, o Rio não teria ganhado a disputa para abrigar a olimpíada de 2016.

A midia tratou o assunto como obra de vandalismo, que demandará a punição dos depredadores. E só isso. Não se levou em conta o recado. No metrô, na semana passada, a linha 2 ficou inoperante por falta de energia. Ao chegar à estação do Estácio, onde se faz a transferência entre linhas, vi que simplesmente avisaram esse ramal estava parado, sem previsão de solução do problema. As pessoas que normalmente transitam com vale-transporte ou dinheiro contado enlouquece com a falta de alternativas, e com a demora de algum tipo de ressarcimento, que dificilmente atenderá ao cumprimento do transporte do trajeto original.

Com o quebra-quebra de ontem, acabou o clima de festa dos ufanismos do pré-sal, da copa do mundo e das olimpíadas, e ficou patente que a conta de tantas promessas deverá ser cobrada na forma de melhorias definitivas para a população.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ENEM : roubo de prova por encomenda?

Não tenho tido tempo para acompanhar as notícias e menos ainda para atualizar o blog, por isso vejo pontualmente a TV e fiquei curioso com as investigações sobre o vazamento da prova do ENEM, que causou um imenso prejuízo a todos os envolvidos. Pelo que a TV mostrou, os dois que roubaram a prova procuraram um terceiro, dono de um restaurante, que teria feito o contato com a repórter que denunciou a falta de segurança.

Questiono: por que os ladrões foram direto à imprensa, e não ao mercado potencialmente comprador de provas dessa natureza, como cursinhos, escolas, etc? Houve premeditação ou encomenda para a criação do fato associada a uma denúncia que pode jogar por terra a possibilidade de acabar com o vestibular, já que algumas universidades, como a USP, já dizem que não aceitarão os resultados do ENEM como base para preenchimento das suas vagas?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rio ganha as Olimpíadas de 2016

Quem abriu o site oficial do Fluminense hoje pela manhã ficou sabendo que o Rio tinha ganhado a indicação para as Olimpíadas de 2016. Alguém deu uma bobeira e botou no ar a matéria pré-pronta, e teve que botar uma nota do editor esclarecendo a melada. Explica-se: o Fluminense ganhou uma partida ontem contra um time com 8 em campo por 4x1. O cara deve ter tomado todas.

Acaba de sair o resultado dando, agora sim, o Rio como vencedor. Agora é festa. Aqui são ouvidos fogos. Vou até Copacabana ver a festa na praia, afinal, o Brasil já tinha perdido duas. Fui.

PS: a mídia faz um enorme esforço para mostrar que o Brasil todo torcia pelo Rio. Mostrou flashes de Salvador, Manaus, Cuiabá, com meia-dúzia de gatos pingados e algum grupo folclórico tocando música. Não mostraram nenhuma imagem de São Paulo. Em Copacabana a participação está muito aquém da população teoricamente liberada do serviço e das escolas pelo ponto facultativo municipal.
PS2 : Lula, Sérgio Cabral e Paes já contabilizam votos antes de qualquer obra começar. Agora é contar que haja uma ruptura de paradigmas e o Brasil comece a trabalhar com planejamento, seriedade e faça as coisas direito. Lula falou que o Brasil começa a ser reconhecido como país de primeira classe, que tem grandeza econômica e social, que em 2016 seremos a quinta economia do mundo, e por aí vai. Está tão feliz que vai tomar umas hoje, já que não vai dirigir o Aerolula mesmo.
PS3 : divulgado o placar: 66x 32. Goleada sobre Madri. Venceu a tese do continente sul-americano, que nunca teve Olimpíada, e pesou que todos os demais concorrentes já tiveram os jogos.
PS4: acabo de ver o presidente da Câmara, Michel Temer, de papagaio-de-pirata na entrevista do Lula. A aba foi muito larga...

AC / DC no Brasil

Começou ontem a venda de ingressos para o único show da banda de rock AC/DC no Brasil, que será em São Paulo no dia 27 de novembro. Ontem acabaram as meias-entradas. Ainda há ingressos em todos os setores, mas quem quiser ir deve correr para comprar porque a demanda está grande. Ontem teve problema para a compra na internet, mas foi resolvido.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Olimpíadas 2016 : o Rio em busca de um milagre

A coisa mais positiva a favor da candidatura do Rio às Olimpíadas de 2016 é que o Brasil é o único concorrente que nunca teve esse evento, e a América do Sul nunca ter tido uma olimpíada. No mais, a estrutura e os recursos já disponibilizados por Chicago, Tóquio e Madri. Apesar das paixões à flor da pele, o fato é que temos um excelente marketing, e muito pouca consistência na garantia da realização das obras previstas até 2016.

Ontem o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, ao criticar a proposta de paralização de obras pelo TCU, disse que se fosse para parar tudo por indícios o Brasil deveria acertar com a FIFA que a Copa de 2014 fosse realizada em 2020. Isso poderia até ser usado pelos concorrentes como indício da dificuldade do Brasil cumprir os prazos, e da endêmica corrupção que pode corroer os imensos recursos que serão angariados.

Aqui no Rio rola um clima de Copa do Mundo. Amanhã em Copacabana serão feitos shows desde cedo, concentrando mais de 100 mil pessoas para torcerem pela candidatura da cidade. Se ganharmos, com certeza terá falado mais o poder de convencimento dos nossos lobistas, inclusive Lula, que as nossas eficiências na realização do evento. Até agora não houve uma apuração séria das denúncias de desvios do PAN 2007. Torço para que a gente tenha a sorte de ganhar, e de quebrar o paradigma que contrapõe grandes projetos com pressa por desplanejamento e altos custos por incompetência e corrupção.

IBGE : Reforma agrária pífia

O Censo Agropecuário 2006 divulgado ontem pelo IBGE trouxe a surpreendente conclusão que a distribuição de terras piorou nos últimos anos, aumentando a concentração, que é 67% superior à de renda, que já é uma das mais imorais do mundo. Mais de um milhão de crianças continuam trabalhando, a maioria dos agricultores continua analfabeta, a soja teve uma forte expansão, em especia a transgênica, e a agricultura orgânica é usada em apenas 1,8% da área plantada.

Os dados mostram que, apesar da gritaria da bancada ruminante do congresso( que quer até CPI do MST), falta uma estratégia para pulverização dos latifúndios, que não consegue acontecer nem com 0 aumento de ocupações pelos movimentos sociais, pelas políticas de reforma agrária do governo, pelo incentivo à agricultura familiarnem pelos programas de desenvolvimento regional sustentável. Falta muito para o governo Lula fazer a diferença no campo, já que até aqui a reforma agrária tem sido pífia em resultados.