Participei de uma geração de sindicalistas que cresceu na esteira das lutas de retomada do movimento sindical que aconteceram no ABC paulista a partir de 1978. Lula foi o maior expoente desse momento, que logo depois desembocou na criação do PT e há 30 anos na fundação da CUT - Central Única dos Trabalhadores.
Era um movimento de militância acima de interesses pessoais, a princípio, que conquistou as massas para o enfrentamento à ditadura e para a busca das liberdades e direitos democráticos. Pessoas levaram a luta acima de tudo, arriscando empregos e as próprias vidas. Uma componente ética, moralizante, permeava o ambiente onde diversas correntes de pensamento e pessoas independentes disputavam espaços para defender suas idéias.
A CUT e o PT tiveram essa prática inclusiva, participativa e democrática até o início dos anos 90, quando as derrotas eleitorais de Lula e o ascenso de teses como a do "fim da história" entre parte da esquerda desviaram o foco classista (burguesia x trabalhadores) para uma "ética como valor universal", ingrediente que fermentou todo tipo de capitulação às idéias e assimilação de valores presentes nas instituições burguesas, inclusive as mais corruptas.
Enquanto os principais expoentes dessa geração ascendiam na política e arrastavam os melhores quadros como assessores e secretários, os sindicatos perdiam força pelo ambiente antissindical e neoliberal que se instalou nos períodos Collor e FHC, na recessão econômica que tirava o poder de barganha e pela perda desses principais quadros.
Começava o ascenso de uma nova geração onde já despontavam lideranças sem ideologia, gente de aparato em busca de estabilidade e carreiristas de todas as espécies. Não é à toa que coloquei no perfil do meu blog a frase "sindicalista do tempo que sindicato defendia os interesses dos trabalhadores" para buscar diferenciação para o que houve depois.
Criou-se um hiato entre os propósitos que criaram a CUT e o PT e o que está aí hoje. No caso do PT a degeneração foi mais sensível e aproveitada pela burguesia para destruí-lo, como no caso do Mensalão. No movimento sindical o peleguismo do tempo da ditadura perdeu muito espaço para o sindicalismo combativo dos anos 80 e início dos anos 90, mas a indigência ideológica e perda de quadros abriram espaços para práticas que se criticava no sindicalismo que foi suplantado.
O neopeleguismo ganhou força nos anos difíceis Collor / FHC, sem apresentar resultados concretos para os trabalhadores, mas mantendo a aparência combativa herdada da década anterior. As principais correntes ideológicas foram expulsas do PT e/ou partiram para criar novas centrais sindicais. Com a chegada de Lula ao governo veio a estratégia de controle do movimento social como diferencial em relação aos governos das elites, que buscou cooptar a CUT para essa missão.
O sindicalismo já carcomido nos seus propósitos de motor da luta de classes passou a ser visto por alguns como oportunidade de negócios fisiológicos com o governo. Em troca de amortecimento das lutas para evitar a desestabilização de Lula, cargos e outras vantagens passaram a fazer parte da barganha. Fora o acesso a bens e vantagens proporcionados pela estrutura sindical inacessíveis para muitos dos trabalhadores representados, como celulares, veículos, funcionários, viagens, hotéis caros, diárias e pro-labores, etc. Sem controle pela categoria, pode acontecer até a formação de caixa-dois para finalidades diversas.
O resultado disso é que as eleições sindicais passaram a ser alvo do gangsterismo. Verdadeiras milícias estão se formando a partir da degeneração mais profunda do movimento. Estatutos de sindicatos tornam-se letras mortas. Não se presta mais conta de nada, e os recursos pagos pelos trabalhadores financiam as reeleições das chapas no poder.
A representação virou negócio no qual os trabalhadores se tornaram moeda de troca para a obtenção de privilégios pessoais ou de grupos cujas características mais se parecem com a das milícias policiais cariocas. Os principais gangsters andam com "seguranças pessoais", e buscam dominar pelo terror as bases que deveriam representar.
Se alguém se levanta contra eles, pode perder o emprego porque usam dos canais de negociação com os patrões para persegui-los e demiti-los. E a violência pode se estender à intimidação pessoal. É comum nos eventos contratarem fotógrafos para registrar as lideranças opositoras como forma de intimidação. Nem mulheres escapam de espancamentos, quando criam as confusões.
Como controlam os meios de comunicação sindicais que chegam a toda a categoria, inventam suas versões sobre os fatos que criam para denegrir imagens, caluniar, desestimular adversários. A mentira mil vezes contada vira verdade, dificultando mais ainda o esforço de eleger alternativas aos sindicatos.
As eleições são totalmente controladas pelos dirigentes no poder, desde a eleição da comissão eleitoral à liberação de candidatos das demais chapas e acesso aos dados da categoria. Listas de votantes defasadas, desorganizadas e incompletas são passadas às vésperas da eleição aos opositores. Isso quando passam. Vencer esse esquema é uma tarefa hercúlea, quase impossível.
Mesmo que a cada campanha salarial os trabalhadores cada vez mais se convençam da traição de alguns sindicatos, o normal é a desfiliação. Perdas passadas são esquecidas, "ganhos reais" pífios sobre a inflação são vendidos pela mídia pelega como grandes feitos, e a possibilidade de reversão vai se tornando remota. E tome festinha, carnaval, circo. Sem pão.
Agora mesmo tramita no Congresso Nacional uma proposta que poderá levar muito mais dinheiro para os sindicatos através do farsesco fim da contribuição (imposto) sindical. Pela proposta as assembléias, dominadas pelos pelegos que botam transportes para trazer seus apoiadores para votar, podem definir uma contribuição compulsória a todos (e não somente aos filiados) que poderá chegar (e vai, claro!) a 1% ao mês. Ou seja, 12% de um salário do trabalhador ao ano, o que equivale a 3 dias de trabalho. Hoje é descontado um dia de trabalho. Muito dinheiro que pode não ter nenhum controle nas mãos de gente inescrupulosa.
Sem prestação de contas, sob domínio crescente de milicianos, ainda com verniz de esquerda adquirido por outra geração no passado, o sindicalismo brasileiro corre o risco de reeditar Jimmy Hoffa, líder sindical mafioso norte-americano que construiu um império no século passado através do terror e da intimidação, que completaria 100 anos em 2013.
Recomendo ver o filme Hoffa, que foi estrelado por Jack Nicholson em 1992 e conta a trajetória do sindicalista (tem exageros melodramáticos, mas no que toca aos métodos de intimidação é bastante real), que desapareceu e seu corpo nunca foi encontrado. Ainda não chegamos a tanto, mas se os trabalhadores não se unirem para acabar com o embrião fascista e corrupto que está sendo gestado nas suas entidades, acabarão sendo escravizados por quem deveria representá-los.
Era um movimento de militância acima de interesses pessoais, a princípio, que conquistou as massas para o enfrentamento à ditadura e para a busca das liberdades e direitos democráticos. Pessoas levaram a luta acima de tudo, arriscando empregos e as próprias vidas. Uma componente ética, moralizante, permeava o ambiente onde diversas correntes de pensamento e pessoas independentes disputavam espaços para defender suas idéias.
A CUT e o PT tiveram essa prática inclusiva, participativa e democrática até o início dos anos 90, quando as derrotas eleitorais de Lula e o ascenso de teses como a do "fim da história" entre parte da esquerda desviaram o foco classista (burguesia x trabalhadores) para uma "ética como valor universal", ingrediente que fermentou todo tipo de capitulação às idéias e assimilação de valores presentes nas instituições burguesas, inclusive as mais corruptas.
Enquanto os principais expoentes dessa geração ascendiam na política e arrastavam os melhores quadros como assessores e secretários, os sindicatos perdiam força pelo ambiente antissindical e neoliberal que se instalou nos períodos Collor e FHC, na recessão econômica que tirava o poder de barganha e pela perda desses principais quadros.
Começava o ascenso de uma nova geração onde já despontavam lideranças sem ideologia, gente de aparato em busca de estabilidade e carreiristas de todas as espécies. Não é à toa que coloquei no perfil do meu blog a frase "sindicalista do tempo que sindicato defendia os interesses dos trabalhadores" para buscar diferenciação para o que houve depois.
Criou-se um hiato entre os propósitos que criaram a CUT e o PT e o que está aí hoje. No caso do PT a degeneração foi mais sensível e aproveitada pela burguesia para destruí-lo, como no caso do Mensalão. No movimento sindical o peleguismo do tempo da ditadura perdeu muito espaço para o sindicalismo combativo dos anos 80 e início dos anos 90, mas a indigência ideológica e perda de quadros abriram espaços para práticas que se criticava no sindicalismo que foi suplantado.
O neopeleguismo ganhou força nos anos difíceis Collor / FHC, sem apresentar resultados concretos para os trabalhadores, mas mantendo a aparência combativa herdada da década anterior. As principais correntes ideológicas foram expulsas do PT e/ou partiram para criar novas centrais sindicais. Com a chegada de Lula ao governo veio a estratégia de controle do movimento social como diferencial em relação aos governos das elites, que buscou cooptar a CUT para essa missão.
O sindicalismo já carcomido nos seus propósitos de motor da luta de classes passou a ser visto por alguns como oportunidade de negócios fisiológicos com o governo. Em troca de amortecimento das lutas para evitar a desestabilização de Lula, cargos e outras vantagens passaram a fazer parte da barganha. Fora o acesso a bens e vantagens proporcionados pela estrutura sindical inacessíveis para muitos dos trabalhadores representados, como celulares, veículos, funcionários, viagens, hotéis caros, diárias e pro-labores, etc. Sem controle pela categoria, pode acontecer até a formação de caixa-dois para finalidades diversas.
O resultado disso é que as eleições sindicais passaram a ser alvo do gangsterismo. Verdadeiras milícias estão se formando a partir da degeneração mais profunda do movimento. Estatutos de sindicatos tornam-se letras mortas. Não se presta mais conta de nada, e os recursos pagos pelos trabalhadores financiam as reeleições das chapas no poder.
A representação virou negócio no qual os trabalhadores se tornaram moeda de troca para a obtenção de privilégios pessoais ou de grupos cujas características mais se parecem com a das milícias policiais cariocas. Os principais gangsters andam com "seguranças pessoais", e buscam dominar pelo terror as bases que deveriam representar.
Se alguém se levanta contra eles, pode perder o emprego porque usam dos canais de negociação com os patrões para persegui-los e demiti-los. E a violência pode se estender à intimidação pessoal. É comum nos eventos contratarem fotógrafos para registrar as lideranças opositoras como forma de intimidação. Nem mulheres escapam de espancamentos, quando criam as confusões.
Como controlam os meios de comunicação sindicais que chegam a toda a categoria, inventam suas versões sobre os fatos que criam para denegrir imagens, caluniar, desestimular adversários. A mentira mil vezes contada vira verdade, dificultando mais ainda o esforço de eleger alternativas aos sindicatos.
As eleições são totalmente controladas pelos dirigentes no poder, desde a eleição da comissão eleitoral à liberação de candidatos das demais chapas e acesso aos dados da categoria. Listas de votantes defasadas, desorganizadas e incompletas são passadas às vésperas da eleição aos opositores. Isso quando passam. Vencer esse esquema é uma tarefa hercúlea, quase impossível.
Mesmo que a cada campanha salarial os trabalhadores cada vez mais se convençam da traição de alguns sindicatos, o normal é a desfiliação. Perdas passadas são esquecidas, "ganhos reais" pífios sobre a inflação são vendidos pela mídia pelega como grandes feitos, e a possibilidade de reversão vai se tornando remota. E tome festinha, carnaval, circo. Sem pão.
Agora mesmo tramita no Congresso Nacional uma proposta que poderá levar muito mais dinheiro para os sindicatos através do farsesco fim da contribuição (imposto) sindical. Pela proposta as assembléias, dominadas pelos pelegos que botam transportes para trazer seus apoiadores para votar, podem definir uma contribuição compulsória a todos (e não somente aos filiados) que poderá chegar (e vai, claro!) a 1% ao mês. Ou seja, 12% de um salário do trabalhador ao ano, o que equivale a 3 dias de trabalho. Hoje é descontado um dia de trabalho. Muito dinheiro que pode não ter nenhum controle nas mãos de gente inescrupulosa.
Sem prestação de contas, sob domínio crescente de milicianos, ainda com verniz de esquerda adquirido por outra geração no passado, o sindicalismo brasileiro corre o risco de reeditar Jimmy Hoffa, líder sindical mafioso norte-americano que construiu um império no século passado através do terror e da intimidação, que completaria 100 anos em 2013.
Recomendo ver o filme Hoffa, que foi estrelado por Jack Nicholson em 1992 e conta a trajetória do sindicalista (tem exageros melodramáticos, mas no que toca aos métodos de intimidação é bastante real), que desapareceu e seu corpo nunca foi encontrado. Ainda não chegamos a tanto, mas se os trabalhadores não se unirem para acabar com o embrião fascista e corrupto que está sendo gestado nas suas entidades, acabarão sendo escravizados por quem deveria representá-los.