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sexta-feira, 6 de março de 2015

Brasil : Um País de Escrotos?

A história do mundo é a história da luta de classes. Em poucas palavras, em todos os tempos sempre existiu uma classe dominante extremamente minoritária que, pela força da coerção pura ou de instituições sociais manteve para si o poder e as riquezas, além de pautar a vida da maioria explorada, a quem só resta trabalhar e produzir riquezas para a elite. Sobre eles recai o peso dos impostos e todas as limitações à dignidade de vida.

No feudalismo e no capitalismo, só mudam os personagens da parte dos 1,5%
Estima-se nos países capitalistas mais avançados que cerca de 1,5% da população estejam enriquecendo enquanto 98,5% empobrecem. Isso no Brasil, aplicado a 200 milhões de pessoas, significa 3 milhões de pessoas. Se fossem representados no Congresso de acordo com a sua proporção, teriam cerca de 18 parlamentares dos quase 600, ou seja, não teriam poder nenhum. 

Essa limitação numérica obriga a minoria poderosa a estender sua área de influência a outros segmentos, ampliando seus apoiadores para forjar um modelo falsamente democrático. Se algo der errado, garante para si o núcleo do poder institucional. Aí os quase 6 mil prefeitos, 28 governadores, centenas de milhares de vereadores, deputados e senadores não valem nada. Eles têm sempre em mãos o controle das Forças Armadas, dos  supremos tribunais, das polícias, Ministério Público, organizações religiosas e fazem as mídias venderem a idéia de serem os "eleitos", os "meritosos", os "representantes divinos", ou seja, sacralizar sua posição de minoria "de bem", "culta" e "preparada para governar". 

Durante décadas essa minoria não avançou muito na disputa de opinião com as classes dominadas, porque essa disputa de hegemonia encontrava resistências. As organizações dos trabalhadores e classes médias faziam a crítica e mantinham boa parte das pessoas fora da área de influência das idéias da minoria. Se olharmos para trás na história veremos que os golpes aconteceram em momentos onde a luta de classes pendeu para o lado da maioria, que, apesar de poucos recursos, tinha organizações classistas que conscientizavam as pessoas para a realidade. 

Hoje as pessoas se surpreendem com a verdadeira cloaca  que foi aberta de poucos anos para cá, atingindo o ápice nas eleições de 2014 e deixando resíduos sólidos até hoje. Culpa das redes sociais? Sim, em parte, porque as mídias tradicionais ganharam aliados em canais mais próximos das pessoas. E as forças do "andar de baixo", o que fizeram, mesmo tendo mídias quase gratuitas que permitem disputar com os grandes meios de comunicação e os processos de inclusão digital cada vez mais atingem maior espectro de camadas sociais?

A consciência da maioria como classe oprimida
faz a minoria acionar cada vez mais o uso da força
Por que a escrotidão, a mentira deslavada, o boato, a baixaria, estão moldando as visões políticas de mais e mais pessoas que vão às ruas defender radicalmente os interesses dos seus opressores? De onde vem essa perda de noção de classe? 

Ao meu ver, dos governos do PT. Ao diluir o conteúdo classista do programa de governo ao longo do tempo até vencer na 4a tentativa em 2002, o PT confundiu as massas. Governa mas não manda. Quer deixar a pecha de radical defensor dos trabalhadores que o fez crescer antes de chegar ao governo para criar a ficção do "Brasil, um País de Todos". A maior força de oposição, com poder real de mobilização de massas através da participação em sindicatos e movimentos, ao chegar ao governo portou-se como fiadora de um pacto social com a elite para promover pequenos ganhos para os mais pobres. 

Mesmo tendo feito com eficiência alguma distribuição de renda e acabado com a fome, levado milhões de excluídos à perspectiva de vida menos miserável e ampliado as benesses de consumo de uma enorme classe média, sequer conseguiu fazer dessas melhorias a sua marca. Poucos são os que associam a melhoria de vida às ações de um governo que seria dos trabalhadores. Se perguntarmos a alguém que emergiu da miséria nos últimos 12 anos por que sua vida mudou, teremos respostas como "foi Deus quem proveu" ou "consegui por méritos" ou "isso foi uma migalha porque roubam muito e podiam dar mais". Não há identificação das conquistas com um esforço classista por melhor qualidade de vida.  

Por que muitas pessoas perderam a vergonha de defender a
volta dos militares, mesmo sabendo o que significa ditadura?
Ainda há o dificultador: as melhorias aconteceram sem tirar nada dos mais ricos. Essa é mais uma variável sem explicação: apesar de ter reduzido um pouco a desigualdade de renda, os ricos ficaram mais ricos. Os mais pobres é que melhoraram mais rápido com a elevação real do salário mínimo, por exemplo. Sem expropriar ninguém! Baixando impostos! Permitindo todo tipo de luxo, mesmo com prejuízo às contas externas nacionais, como importação de bens de alto valor, viagens, etc. 

E aí, como é que uma classe rica e minoritária que ganhou com Lula e Dilma conseguiu avançar na dominação hegemônica num governo dito "dos trabalhadores", que lhes garante a "paz social" para viver no Brasil, andar nas ruas, viver pacificamente entre o resto do povão, sem ser vista como casta de intocáveis? Como é que uma imensa maioria, que teve no governo "dos trabalhadores" melhoria das condições materiais inédita na história não se identifica com tal governo? Pior, por que assumiu o que há de mais escroto no discurso de ódio da parte mais escrota da minoria?

Fundamentalismo progride em meio à confusão classista
Ah, a corrupção... Essa criação do governo "dos trabalhadores"! Antes de 2002 não existia nada, a não ser em 1954, quando Getúlio foi levado ao extremo do suicídio pela minoria, em 1964 quando a minoria depôs pelas armas Jango e agora quando querem, de forma inédita na história, derrubar Dilma com amplo apoio de massas? Não, não foi a corrupção que derrotou o PT, que governa mas não manda e cada vez mais precisa comprar apoios porque não amplia sua base parlamentar. Foi a omissão na disputa de classes. 

Quem abriu as portas para as cada vez mais frequentes mentiras da direita fazerem maioria nos locais de trabalho? Para deixarem a esquerda acuada, somente tendo apoio se criticar o governo? Perdendo o poder de representação enquanto sindicato junto ao patrão, que agora tem o apoio ideológico de boa parte dos trabalhadores? Lula, Dilma, PT e diversos outros atores, inclusive os que simplesmente se omitiram de criticar o governo pela esquerda sem fazer coro com a direita. 

O PT e seus governos nunca investiram na perspectiva de classe, ou seja, de fazer reformas enquanto se acumula para cada vez mais tirar poder do capitalismo até chegar ao socialismo. Perdeu a visão de futuro, o eixo estratégico. Tornou-se um governo capitalista liberal "bonzinho". Ao perder o referencial na luta de classes e cometer erros dos anteriores, igualou-se demais à classe dominante. Aí ninguém se dispõe a defendê-lo.

Os escrotos perseguem covardemente os derrotados. Qual marca será a sua?
Judeu? Negro? Ateu? Muçulmano? Gay? Petista? Comunista? Nordestino?
Cubano? Feminista? Ambientalista? Sindicalista? Sem Terra? Sem Teto?
Não creio em Dilma dando uma guinada à esquerda para dar combate classista às iniciativas golpistas. Só não é apeada do poder mais rapidamente porque a direita está dividida, com o PSDB querendo novas eleições mas sem Lula concorrendo, talvez pedindo a ilegalidade do PT ou fazendo o "hardcore" do poder forjar a criminalização do adversário, e o PMDB que enxerga agora a possibilidade de fazer Temer presidente. O fato é que perdeu as condições de aprovar qualquer coisa no congresso sem pagar um alto pedágio e ver aos poucos conquistas se desfazerem pela sabotagem econômica e chantagem para tomar medidas impopulares que colocarão o PT num gueto, e os vencedores escreverão na história que foi o pior período político do país. 

O PT é uma sombra do passado. Submisso ao governo,
incapaz de liderar, homologa todas as políticas de Dilma. 
Dilma caminha para ser um morto vivo político. Lula desesperadamente tenta organizar movimentos em sua defesa, mas mesmo quem tem a compreensão do desastre histórico que seria um golpe agora está disposto a lutar por ela. Desta vez a elite não quer apenas pressionar para obter mais vantagens, como juros altos, menos impostos e supressão de direito. Ela se cansou de depender de um governo que nem ela (e muito menos os menos favorecidos) têm controle. Quer o aborto político, uma saída tipo Itamar Franco. Sabe que tem poder para a derrubada por diversas vias. O risco é iminente e real. 

E o resto da esquerda não-petista, onde está nisso? O que se vê é distanciamento como se tanto fizesse um golpe ou deixar Dilma sangrar até 2018. Alguns acham que uma crise com recessão faria bem ao revigoramento da luta de classes, com as pessoas perdendo empregos, renda, sonhos de consumo, etc. É aquela visão da miséria como indutora mecânica da luta por melhores condições de vida. Outros se colocam contra o golpe, avaliando que haveria uma avalanche de revanchismo como em 1964, ou seja, defendeu pobre, é de esquerda, tem que levar tiro, porrada e bomba. 

Se vingar o golpe, seremos um país de escrotos, com a elite fazendo seu papel com ampla colaboração de gente que fustigará e usará de todo tipo de violência contra o colega de trabalho ou vizinho que ousar falar bem de pobres e trabalhadores. Vai ser na base do "Morte à inteligência! Viva a morte!" do fascismo espanhol dos anos 30. 

A elite não vai às ruas. Paga pessoas pobres para representá-las e mostrar ódio.
O fascismo que hoje domina as classes médias e não será por algumas gerações apagado é culpa da omissão dos que deveriam fazer a luta de classes como maioria. O maior impasse hoje é ter que optar entre um governo fraco, títere das forças do atraso mais reacionárias, oportunistas e corruptas que dominam  a superestrutura das instituições burguesas, e a derrubada desse governo e a entrada de um presidente com apoio total da direita para promover a previsível destruição em larga escala de avanços sociais. Sem Dilma reagir a ponto de reconquistar pelo menos os seus eleitores para defendê-la, seu governo terá um final desastroso para a maioria da população, seja agora ou em 2018. 

Dilma precisa vir a público mudar de tática. Tirar do congresso o pacote que mexe com direitos. Estimular a participação social, com ou sem legislação criando Conselhos, abrindo as portas do Planalto a receber as reivindicações de quem luta. Pendurar a conta do ajuste fiscal nos ricos. Da sua parte o PT precisa aprender em cima dos erros cometidos nos movimentos sociais, que precisam ser arejados com democracia. Abrir as entidades à participação mais ampla da esquerda. Voltar a disputar hegemonia de classe nos locais de trabalho, nos bairros, onde se luta, respeitando as demais correntes classistas. Aos movimentos sociais não-petistas cabe organizar grandes manifestações de insatisfação, ir às ruas exigir reforma política, punição a todos os corruptos e levantar as bandeiras por avanços sociais. 

Sem isso, vamos nos preparar para assumir o lema "Brasil, Um País de Escrotos". E aguardar passivamente a chegada da polícia política nos buscar em casa para o linchamento como corruptos, ladrões e tudo mais que a elite conseguir incutir na mente dos seus zumbis teleguiados.



quinta-feira, 8 de maio de 2014

RIO : "Efeito Gari" na greve dos transportes

Não é necessário viajar muito de ônibus urbanos no Rio para perceber que faltam profissionais. Em praticamente todos os ônibus há cartazes oferecendo empregos de motoristas com vantagens salariais, curso gratuito para tirar a carteira de motorista profissinal, etc. Em geral o inicial é R$ 1800 podendo chegar a R$ 2500 através de horas-extras.

Ontem houve uma paralisação e o sindicato fechou acordo com os patrões e a prefeitura com reajuste de 10% nos salários e 40% no vale alimentação. Como na greve dos garis de fevereiro deste ano, a categoria se sentiu traída pelo sindicato e hoje a greve está sendo total. Até os ônibus da Transoeste foram parados pela prefeitura por motivos de segurança. O trânsito, que já era caótico por falta de transporte coletivo de qualidade, deu nó com milhões de carros nas ruas.

Agora a categoria em greve-gari pede 40% de reajuste salarial e quer solução para a cobrança das multas que oneram os salários, já que são consequência do ritmo imposto pelas empresas. Tem uma que uso onde os ônibus são tão velozes que fazem tomada de curva e quem está em pé pode pegar uma prancha e sair surfando, porque está preparado para manobras radicais.

Todo apoio à greve dos motoristas! As reivindicações são justas e precisamos de profissionais bem pagos, treinados e motivados para ter segurança no trânsito e um bom transporte coletivo. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

BB : Assédio moral no atacado, punições no varejo

Há anos sindicatos denunciam a existência de diversas formas de assédio moral no Banco do Brasil. Como a prática é generalizada pelo país, sempre em busca de cumprimento de metas cada vez mais difíceis, não é possível que a alta direção da empresa desconheça que está acontecendo um problema de tal envergadura em muitas das mais de 6 mil agências.

A última grande denúncia falava de gerentes recebendo até 80 mensagens nos celulares (SMS) POR DIA, como se fosse um chicote virtual ritmando os remadores escravos de um barco. E a última punição foi uma condenação a pagar R$ 2 milhões pela ridicularização pública de funcionários.

Aí vem a pergunta: de tanto tomar punições não seria melhor o banco tomar providências para acabar com o problema? A resposta é perversa: o ganho em superexploração obtido pelo assédio por metas compensa largamente as eventuais condenações. Sai barato para o banco pagar uns R$ 50 milhões por ano em punições e aumentar o lucro em mais de R$ 1 bi. É mais vantajoso que contratar outros funcionários.

E o governo Dilma? Pouco se importa com a situação. O importante é que o BB dê mais lucros para repassar ao Tesouro Nacional a sua parte e melhorar as contas públicas, em especial o superávit primário. O governo não quer mexer em nada. Nem quando a presidente Dilma tem mostrado interesse na igualdade de gênero, alçando mulheres a cargos importantes em todas as esferas. Menos no BB, onde seus 50 executivos são todos homens.

O BB é um mundo à parte, entregue à mais cruel exploração privada. A idéia de "governo dos trabalhadores" passa muito longe quando se trata de relações de trabalho no BB. Tem bancos onde o governo não é o patrão que tratam melhor os funcionários. Quem diria...

Seguem alguns desses casos vergonhosos:

http://economia.ig.com.br/empresas/2014-01-17/banco-do-brasil-e-condenado-em-r-2-milhoes-por-ridicularizacao-publica.html

http://tudorondonia.com/noticias/banco-do-brasil-e-condenado-por-assedio-moral-funcionaria-foi-chamada-de-incompetente-e-demitida-aos-gritos,2337.shtml

http://www.bancariosms.com.br/intranet/jornal/dezembro_2011.pdf

http://justicaemfoco.com.br/?pg=desc-noticias&id=75516

http://funcisbb.wordpress.com/2009/05/30/banco-do-brasil-e-condenado-a-pagar-r600-mil-por-assedio-moral/


sábado, 11 de janeiro de 2014

Contra preços abusivos, vôos domésticos podem abrir a empresas estrangeiras

Os preços de passagens aéreas atingiram patamares irracionais. Como há parcelamentos em até 10 vezes, o consumidor acaba pagando o preço abusivo. Mesmo que cada parcela tenha preço mais caro que uma passagem normal.

Não há lógica que explique uma passagem no trecho Rio-Brasília ser ofertada a mais de R$ 3 mil, quando normalmente custa na base de R$ 200, mesmo quando se observa que há bastante vagas no avião. Mesmo na alta estação. O que explica isso, se não é uma questão de oferta? Oligopólio, ou a intenção clara das empresas aéreas de preferir vender uma passagem 15 vezes o valor normal que ocupar 15 assentos.

O governo federal ameaça permitir que empresas aéreas estrangeiras operem no Brasil em vôos domésticos, o que deixa em pânico todas elas. Se entrarem essas empresas só haverá duas alternativas: chamá-las para o oligopólio ou baixar os preços e concorrer em condições de mercado.

A entrevista da ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann informou que a presidente Dilma, por medida provisória, pode determinar essa abertura de mercado, pois o Brasil deverá atrair 300 mil turistas estrangeiros na Copa do Mundo, e o tráfego aéreo poderá demandar 3 milhões de passagens aéreas e as empresas nacionais já estão aumentando fortemente os preços. O mesmo processo de superexploração do consumidor está acontecendo com os hotéis. O governo diz que não vai tabelar preços, mas vai agir com todas as ferramentas para evitar abusos.

Oligopólios reagem a esse tipo de ameaça com argumentos de reserva de mercado, alegando que não sobreviveriam à concorrência, teriam que demitir, cortar vôos, etc. Empurram a conta para os sindicatos de trabalhadores ameaçando cortar salários, direitos e empregos caso tenham que baixar os preços, o que é um discurso falso, de proteção à ineficiência empresarial e de exploração do consumidor.

Tais sobrelucros não representam vantagens para os funcionários, apenas acumulação para os acionistas, mas o que se vê é o movimento sindical correr atrás do governo implorando para não abrir a concorrência, assumindo o discurso patronal. Como contratar funcionários estrangeiros é limitado e a chegada de novas empresas deveria abrir novas vagas, era para os sindicatos fazerem o discurso no sentido contrário, de mais oportunidade de emprego, e não ficarem reféns dos donos "nacionais' das empresas aéreas. A CUT já foi ao governo pedir garantias de reserva de mercado ao ministro da aviação civil Moreira Franco.

O mesmo processo acontece com as montadoras de automóveis, que têm absurdo sobrelucro no preço dos carros, o tal Lucro Brasil. Bastou entrarem no mercado carros chineses que os sindicatos patronais e de trabalhadores se uniram para colocar novas exigências para dificultar a concorrência dos entrantes, como ter fábrica no Brasil. Agora que as fábricas da JAC e outras estão se estabelecendo e vão oferecer carros fabricados no país mais baratos, vão ter que reduzir os lucros. O governo federal aposta nisso. Voltou o IPI sobre veículos (exceto caminhões) aos patamares anteriores à crise de 2008 e fez novas exigências de segurança que encarecem os carros, mas aposta que a concorrência fará esses custos serem diluídos nos sobrelucros sem reajustes ao consumidor. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Sindicalismo : Militantes & Milicianos

Participei de uma geração de sindicalistas que cresceu na esteira das lutas de retomada do movimento sindical que aconteceram no ABC paulista a partir de 1978. Lula foi o maior expoente desse momento, que logo depois desembocou na criação do PT e há 30 anos na fundação da CUT - Central Única dos Trabalhadores.

Era um movimento de militância acima de interesses pessoais, a princípio, que conquistou as massas para o enfrentamento à ditadura e para a busca das liberdades e direitos democráticos. Pessoas levaram a luta acima de tudo, arriscando empregos e as próprias vidas. Uma componente ética, moralizante, permeava o ambiente onde diversas correntes de pensamento e pessoas independentes disputavam espaços para defender suas idéias.

A CUT e o PT tiveram essa prática inclusiva, participativa e democrática até o início dos anos 90, quando as derrotas eleitorais de Lula e o ascenso de teses como a do "fim da história" entre parte da esquerda desviaram o foco classista (burguesia x trabalhadores) para uma "ética como valor universal", ingrediente que fermentou todo tipo de capitulação às idéias e assimilação de valores presentes nas instituições burguesas, inclusive as mais corruptas.

Enquanto os principais expoentes dessa geração ascendiam na política e arrastavam os melhores quadros como assessores e secretários, os sindicatos perdiam força pelo ambiente antissindical e neoliberal que se instalou nos períodos Collor e FHC, na recessão econômica que tirava o poder de barganha e pela perda desses principais quadros.

Começava o ascenso de uma nova geração onde já despontavam lideranças sem ideologia, gente de aparato em busca de estabilidade e carreiristas de todas as espécies. Não é à toa que coloquei no perfil do meu blog a frase "sindicalista do tempo que sindicato defendia os interesses dos trabalhadores" para buscar diferenciação para o que houve depois.

Criou-se um hiato entre os propósitos que criaram a CUT e o PT e o que está aí hoje. No caso do PT a degeneração foi mais sensível e aproveitada pela burguesia para destruí-lo, como no caso do Mensalão. No movimento sindical o peleguismo do tempo da ditadura perdeu muito espaço para o sindicalismo combativo dos anos 80 e início dos anos 90, mas a indigência ideológica e perda de quadros abriram espaços para práticas que se criticava no sindicalismo que foi suplantado.

O neopeleguismo ganhou força nos anos difíceis Collor / FHC, sem apresentar resultados concretos para os trabalhadores, mas mantendo a aparência combativa herdada da década anterior. As principais correntes ideológicas foram expulsas do PT e/ou partiram para criar novas centrais sindicais. Com a chegada de Lula ao governo veio a estratégia de controle do movimento social como diferencial em relação aos governos das elites, que buscou cooptar a CUT para essa missão.

O sindicalismo já carcomido nos seus propósitos de motor da luta de classes passou a ser visto por alguns como oportunidade de negócios fisiológicos com o governo. Em troca de amortecimento das lutas para evitar a desestabilização de Lula, cargos e outras vantagens passaram a fazer parte da barganha. Fora o acesso a bens e vantagens proporcionados pela estrutura sindical inacessíveis para muitos dos trabalhadores representados, como celulares, veículos, funcionários, viagens, hotéis caros, diárias e pro-labores, etc. Sem controle pela categoria, pode acontecer até a formação de caixa-dois para finalidades diversas.

O resultado disso é que as eleições sindicais passaram a ser alvo do gangsterismo. Verdadeiras milícias estão se formando a partir da degeneração mais profunda do movimento. Estatutos de sindicatos tornam-se letras mortas. Não se presta mais conta de nada, e os recursos pagos pelos trabalhadores financiam as reeleições das chapas no poder.

A representação virou negócio no qual os trabalhadores se tornaram moeda de troca para a obtenção de privilégios pessoais ou de grupos cujas características mais se parecem com a das milícias policiais cariocas. Os principais gangsters andam com "seguranças pessoais", e buscam dominar pelo terror as bases que deveriam representar.

Se alguém se levanta contra eles, pode perder o emprego porque usam dos canais de negociação com os patrões para persegui-los e demiti-los. E a violência pode se estender à intimidação pessoal. É comum nos eventos contratarem fotógrafos para registrar as lideranças opositoras como forma de intimidação. Nem mulheres escapam de espancamentos, quando criam as confusões.

Como controlam os meios de comunicação sindicais que chegam a toda a categoria, inventam suas versões sobre os fatos que criam para denegrir imagens, caluniar, desestimular adversários. A mentira mil vezes contada vira verdade, dificultando mais ainda o esforço de eleger alternativas aos sindicatos.

As eleições são totalmente controladas pelos dirigentes no poder, desde a eleição da comissão eleitoral à liberação de candidatos das demais chapas e acesso aos dados da categoria. Listas de votantes defasadas, desorganizadas e incompletas são passadas às vésperas da eleição aos opositores. Isso quando passam. Vencer esse esquema é uma tarefa hercúlea, quase impossível.

Mesmo que a cada campanha salarial os trabalhadores cada vez mais se convençam da traição de alguns sindicatos, o normal é a desfiliação. Perdas passadas são esquecidas, "ganhos reais" pífios sobre a inflação são vendidos pela mídia pelega  como grandes feitos, e a possibilidade de reversão vai se tornando remota. E tome festinha, carnaval, circo. Sem pão.

Agora mesmo tramita no Congresso Nacional uma proposta que poderá levar muito mais dinheiro para os sindicatos através do farsesco fim da contribuição (imposto) sindical. Pela proposta as assembléias, dominadas pelos pelegos que botam transportes para trazer seus apoiadores para votar, podem definir uma contribuição compulsória a todos (e não somente aos filiados) que poderá chegar (e vai, claro!) a 1% ao mês. Ou seja, 12% de um salário do trabalhador ao ano, o que equivale a 3 dias de trabalho. Hoje é descontado um dia de trabalho. Muito dinheiro que pode não ter nenhum controle nas mãos de gente inescrupulosa.

Sem prestação de contas, sob domínio crescente de milicianos, ainda com verniz de esquerda adquirido por outra geração no passado, o sindicalismo brasileiro corre o risco de reeditar Jimmy Hoffa, líder sindical mafioso norte-americano que construiu um império no século passado através do terror e da intimidação, que completaria 100 anos em 2013.

Recomendo ver o filme Hoffa, que foi estrelado por Jack Nicholson em 1992 e conta a trajetória do sindicalista (tem exageros melodramáticos, mas no que toca aos métodos de intimidação é bastante real), que desapareceu e seu corpo nunca foi encontrado. Ainda não chegamos a tanto, mas se os trabalhadores não se unirem para acabar com o embrião fascista e corrupto que está sendo gestado nas suas entidades, acabarão sendo escravizados por quem deveria representá-los.